coomaraswamy:traducao
SOBRE A TRADUÇÃO
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As traduções existentes dos textos védicos são pouco mais que traduções literais, inacessíveis à vasta maioria que não pode consultar os originais, o que constitui o primeiro obstáculo para uma compreensão mútua entre o Oriente e o Ocidente.
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A tradução errônea deve-se não à falta de asiduidade ou domínio inadequado das línguas orientais pelos eruditos, mas ao uso inadequado de seu próprio linguagem e, em parte, a uma parcialidade religiosa inconsciente.
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A perspectiva científica e a educação especial do erudito moderno tornam quase impossível seu acesso à metafísica e teologia cristãs, onde se encontra a terminologia necessária para uma tradução adequada.
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Termos técnicos cristãos como interreno, inconocimento, abismo, processão, Espírito, espiracão, essência, natureza, substância, hipóstase, mirada, magia, anjo, consonância ou comprehensör são desconhecidos para o erudito moderno em sua significação técnica.
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Traduções orientais, por derivarem seu vocabulário de eruditos europeus, padecem das mesmas limitações.
Para exemplificar, propõe-se que as palavras sânscritas Maya, Deva e Tapas sejam traduzidas respectivamente por Magia, Anjo e Intensão, ou que permaneçam em suas formas originais sem tradução.Maya é o poder ou agência formativo da manifestação, o meio pelo qual o Si mesmo se manifesta como o devir do mundo fenomênico.-
Maya não é o mundo, mas o meio ou terreno do seu devir, existindo apenas em ato e jamais em repouso.
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A doutrina Vedanta, ao afirmar a Talidade do mundo, não nega seu devir, mas sim que ele seja uma dualidade de princípios autosubsistentes separados.
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O erro (Avidya) consiste na compreensão empírica do mundo como entidades separadas, e não em sua visão como aspectos conjuntos do Si mesmo na Unidade do Ato Puro.
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O mundo, como manifestação, é o próprio Si mesmo ou a Talidade, sendo o erro a percepção deste mundo como pluralidade de unidades autosubsistentes, levando ao apego e aversão.
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O egoísmo (abhimana), ou “pecado original”, é compartilhado até por Deus na medida em que está no mundo como Persona, mas concebê-lo objetivamente, como outro que o mundo, é também um aspecto do mesmo engano.
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Negar a autosubsistência do mundo não é negar sua realidade, mas sim a realidade de sua percepção como entidades separadas, comparável a negar a realidade dos chifres de uma lebre.
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A ação, vida, mudança e progresso, vistos como reações funcionais às qualidades e pares de opostos, não representam a Vida, mas apenas o “viver”.
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O conhecimento como Realização é a Vida do Si mesmo, um ato imediato e eterno, assim como a arte é Vida, uma consonância que não está no artista nem na obra, mas em si mesma.
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A devoção e o desejo verdadeiros não estão no amante nem no amado, mas no encontro de ambos na caverna do coração, por amor do Si mesmo.
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Do ponto de vista védico, apenas o que é experimentado imediatamente no coração da consciência, no Si mesmo Transcendental, é Vida, manifestando-se exteriormente como espontaneidade sem ansiedade ou motivo, ação que não é ação.
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O “Evangelho” do Veda é a doutrina de que a liberação e expansão estão sempre virtualmente realizadas e são sempre efetivamente realizáveis.
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Maya, estrita e tecnicamente, é a “natureza”, não como mundo naturado, mas como o meio da manifestação.
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O Criador, como aquele que dispõe deste meio, é chamado Mayavin, e o mundo é Mayamaya, “feito de” ou “no modo de” Maya, ou seja, “mágico”.
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A criação do mundo pelo mago divino é análoga à do mago mortal, cuja rede de Indra é um encantamento análogo ao mundo percebido sensivelmente.
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Boehme explica o mundo como criação do Mago Divino utilizando a Magia Divina, que é a mãe eterna, a matriz sem substância que se manifesta no ser substancial.
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A Magia é a perícia ou a arte de Deus pela qual Ele manifesta o devir do mundo.
Deva deve ser traduzido como “Anjo”, sendo os Devas superiores princípios ou inteligencias puras, cujo brilho se reflete nas possibilidades da existência.-
A noção de politeísmo hindu surge da aplicação de designações genéricas a uma variedade de estados do ser, analogamente à má interpretação islâmica da Trindade cristã.
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Assim como no cristianismo se estabelece uma unidade e hierarquia de seres, nos termos védicos, Deva implica unidade e hierarquia.
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A tradução indiscriminada de Deva como “Deus” ou “dios” tem sanção etimológica, mas é errônea por pressupor um politeísmo pagão e ignorar que o termo nem sempre denota “Deus”.
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Deva, literalmente “o Brilhante”, traduz-se mais apropriadamente por “Anjo”, e seus brilho se reflete na existência.
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Os Devas e Devatas são os “membros” do Brahman ou os “atributos” ou “poderes” do Atman, assim como os Anjos cristãos são ministros, poderes e mensageiros de Deus.
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A correspondência estende-se às sedes, veículos, atributos e armas dos Devas, paralelos aos Tronos e Potestades das hierarquias cristãs, e aos guardiães regionais ou individuais.
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Ambas as tradições concordam quanto à independência angélica do movimento local.
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O número de Devas (trinta e três mil) e de anjos (incalculável) não deve ser tomado como número preciso, como observa Santo Tomás.
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A imortalidade dos Devas refere-se à sua perpetuidade em um plano do ser não sujeito a mudança de estado posterior (não a “morrer de novo”), embora retornem ao Brahman no final do Tempo.
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Os Devas são imortais como a estação que ocupam, referindo-se à sua eternidade como princípios, não como indivíduos.
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O contraste entre Devas (primeira emanação, pronunciamento permanente) e existências individuais (homens, mortais, de existência dia a dia) tem paralelo nas afirmações de São Gregório e Santo Agostinho de que anjo é nome de ofício, não de natureza.
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Assim como os homens podem ser elevados aos graus angélicos, os decedidos são, em parte, considerados Devas, razão pela qual traduzir Deva como “deus” é impróprio.
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A tradução de Deva por “Anjo” é legítima na maioria dos casos, exceto quando se refere explicitamente ao Deva mais alto, aplicando-se o mesmo a Yaksha na maioria dos contextos, embora alguns sejam mais como fadas e elfos.
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Quando Deva e Asura aparecem juntos, aplica-se a mesma designação genérica, podendo Asura ser traduzido como “Anjo Obscuro” ou “Daimon”.
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Os “Distintos Devas” (Visve Devatah) geralmente significam as três Pessoas da Trindade.
Tapas é um processo intelectual que fortifica e foca os poderes criativos de um ser, uma paixão voluntária com vista a um fim conhecido, uma elevação do potencial espiritual até o ponto de chispazo.-
Tapas não é penitência, pois não há ideia de expiação pelo passado, mas sim de tensão para um fim futuro.
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A raiz de tapas implica esforço, retenção, dominar, juntar, obter.
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A tradução adequada de tapas é “intensão”, definida como tensão, exercício enérgico da mente, aumento de poder ou energia.
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O verbo tap traduz-se geralmente por “intensificar”.
O fim próprio da “Religião Comparada” deve ser demonstrar a identidade da tradição metafísica comum que fundamenta todas as religiões, permitindo que coexistam como variações necessárias à infinitude do tema e à variedade do caráter humano.-
A tolerância religiosa europeia é uma concepção negativa, alcançada pelo ceticismo e conveniência política.
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O princípio básico da tolerância é positivo: devido à grandeza de Deus, o único princípio da vida é louvado de diversas maneiras.
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Diversas tradições (Yaska, Ruysbroeck, Alá, Junayd, Ibn al-'Arabi, Hafiz, Bhagavad Gita, Asoka) afirmam que Deus não está limitado a um único credo e que a senda que os homens tomam é d'Ele.
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Aqueles que aceitam a tradição védica não podem admitir que ela represente politeísmo, panteísmo ou negação da existência, oferecendo provas válidas contra essa terminologia erudita.
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Não se pode conceber um acercamento entre Europa e Ásia senão sobre uma base intelectual, e não se deve esquecer que, do ponto de vista oriental e escolástico, a “arte” é parte do intelecto.
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É de importância crucial traduzir os livros sagrados pagãos com conhecimento preciso de seu significado real e por meio dos equivalentes exatos ou mais próximos possíveis.
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Todas as traduções existentes que não sejam competentes sob este ponto de vista devem ser refeitas, lembrando que traduções não são fins em si mesmas, mas para serem lidas e digeridas interiormente.
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O erudito está em dívida pelos termos de sua vocação.
No apêndice, apresentam-se versões de passagens das Upanixades, como exemplo de tradução que pretende ser literal e literária, inteligível a qualquer leitor familiarizado com o Antigo Testamento.-
A tradução de Brihadaranyaka Upanixade I.2.1-2 rastreia o Gênese desde o Brahman nirguna, ainda não determinado como o Uno.
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A tradução de Brihadaranyaka Upanixade I.4.17 rastreia o Gênese desde o Brahman saguna, já como o Uno Autodeterminado.
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A tradução de Pancavimsa Brahmana VII.8.1 descreve a criação em termos próximos ao Gênese hebreu.
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As palavras sânscritas são por vezes traduzidas por mais de uma palavra, indicado por um hífen.
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As maiúsculas denotam o universal, as minúsculas o geral e o particular.
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Palavras sânscritas são colocadas entre parênteses, com notas em justificação das traduções, mas a tradução pretende ser inteiramente inteligível ao leitor sem sânscrito.
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A tradução de Brihadaranyaka Upanixade I.2.1-2 descreve a Morte (Privação) no início, que assume o intelecto para ser dotada de Si mesmo, emite luz, das quais nascem as Águas, e cuja espuma se solidifica em Terra, onde o esforço e intenção dEle fazem brotar o Fogo.
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A nota de rodapé 30 define “Sin-vide-idade” como falta de uma forma intrínseca, citando Santo Tomás.
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A nota de rodapé 32 esclarece que a Luz torna visíveis as Possibilidades do Ser.
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A nota de rodapé 33 compara o “iti” ao alemão “also”.
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A nota de rodapé 34 identifica a “Palavra interior” como o conhecimento de Si mesmo.
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A tradução de Brihadaranyaka Upanixade I.4.17 descreve o Si mesmo Uno que deseja um nascimento-como-esposa de si mesmo para engendrar e obras para fazer, sendo Sua vontade a medida de tudo.
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A Intereidade do Si mesmo é tal que Seu Intelecto é Ele mesmo, Sua Palavra é Seu nascimento-como-esposa, Seu Espírito é Seu Engendrado, Seu Olho é Seu Aparato Racional, Seu Ouvido é Seu Aparato Angélico, e Suas Obras são Ele mesmo.
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O Sacrifício, o animal oferecido, a Pessoa e tudo o mais são quíntuplos, e o que conhece Isto ganha Tudo.
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A nota de rodapé 35 explica que, do ponto de vista védico, todas as obras feitas com conhecimento são rituais ou sacrificiais.
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A nota de rodapé 36 diferencia Kama como Vontade e como Desejo, esclarecendo a confusão budista sobre o tema.
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A nota de rodapé 37 identifica “Intereidade” com o “Pleroma” gnóstico.
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A nota de rodapé 38 distingue o Ojo e o Ouvido como símbolos dos mundos sensível e inteligível, respectivamente.
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A nota de rodapé 39 explica “quíntuplo” em referência aos cinco espíritos vitais e cinco elementos, e critica traduções de termos-chave.
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A tradução de Pancavimsa Brahmana VII.8.1 descreve a sazão das Águas, o movimento do Vento-do-Espírito sobre suas costas, o surgir de uma Bella-Cosa, e o canto Bello-Angélico proclamado por Mitra-Varuna.
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A nota de rodapé 40 explica as Águas como possibilidades do ser, a potencialidade, e a necessidade do modo de expressão cronológico no Gênese.
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A nota de rodapé 41 detalha a “costa” das Águas como um plano de ser (loka) e a analogia da terra como espuma condensada ou folha de lótus.
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A nota de rodapé 42 identifica a “Bella-Cosa” com a Pintura do Mundo.
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A nota de rodapé 43 explica os “Anjos” como a Trindade do Fogo, Sol Supernal e Espírito, ou como anjos naturais ou engendrados, e sua participação no drama primordial.
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