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Yves Albert Dauge

Professor universitário, especialista de hermenêutica fundamental, de esoterismo comparado, de antropologia estrutural e operativa, e de Virgílio. É também escritor, conferencista, criador da revista anual Epignosis.


Existe presentemente, mui real e mui agudo, um « problema dos mestres ».

Estamos em uma época crucial: fim de século, fim de milênio, fim de era sideral (passagem de Pisces a Aquarius), fim de ciclo (Kali-yuga). A efervescência dos espíritos não cessa de crescer; buscam-se apoios por toda parte, para se assegurar, ou para evoluir, para firmar ou transformar a própria existência. Corre-se atrás de mestres.

Mas esta atitude comporta armadilhas temíveis. Pois há uma extrema dificuldade em se encontrar, neste Ocidente atual, um mestre autêntico, como uma escola iniciática adequada. E é o pulular dos pseudogurus e o reinado das seitas mais ou menos carcerárias.

O que se constata no mundo contemporâneo? Inúmeros abusos de influência e de poder, a vampirização das almas e a exploração dos corpos por seres não liberados, a idolatria habilmente orquestrada do mestre, a extensão do gregarismo e do fanatismo, as excomunicações recíprocas de grupos fechados em si mesmos; em suma, as devastações da psique e dos egocentrismos. Enquanto aqueles que querem evitar estas armadilhas vagueiam sem apoio, sem certeza e sem resultado.

É absolutamente preciso sair-se deste caos e permitir aos melhores descobrir o mais cedo possível em si mesmos a « potência real divina » que jamais cessou de os habitar.

Falsos mestres, houve-os sempre, testemunham as palavras famosas de Jesus denunciando os escribas e os fariseus :

« 3. Dizem e não fazem.

  • Em tudo agem para se fazer notar pelos homens.
  • Gostam de receber as saudações nas praças públicas, de ser chamados “Rabi” pelas pessoas.
  • Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que fechais aos homens o Reino dos Céus! Não entrais vós mesmos, e nem deixais entrar aqueles que o quereriam! (Lucas acrescenta, 11, 52: Tirastes a chave do Conhecimento)… »

Mas hoje, sua quantidade, sua audácia e seus meios de ação estão em clara progressão — é o mínimo que se pode dizer.

Que se há de fazer, então?

Rumi aconselha: « Não viajes sozinho na Via! » (Mathnawi I, 2944). De uma forma ou de outra, devemos estar ligados à Força do Alto e àqueles que sabem a por em obra. Mas quem deve ser nosso companheiro de viagem?

Ademais, cada um tem sua própria via. Como tão bem disse Maryse Choisy, « uma via espiritual não deve servir senão uma vez, e para uma só alma. Ninguém passará nela jamais nas mesmas condições. Não se trata de religiões individuais. São maneiras individuais de se chegar ao Absoluto » (L'Être et le Silence, p. 133). A Gita já havia expressado esta ideia de uma maneira impressionante:

« Melhor é seguir a própria lei, ainda que imperfeitamente, que a lei de um outro, ainda que perfeitamente executada » (XVIII, 47).

É imperativo conformar-se ao svabhava, à própria natureza verdadeira, e ao svadharma, ao próprio dever. Que pensar então destes numerosos « mestres » que dizem: « Tal coisa me foi bem sucedida: portanto, vou impô-la aos outros »?

Lilian Silburn escreve isto, que merece ser amplamente meditado:

« Existem três formas de se entrar em posse da graça: 1) de si mesmo, sem intermediário, quando ela se desperta espontaneamente. É este processo que indica o termo pratibhajnainin [o que conhece por intuição], o gnóstico, mestre por iluminação; 2) por intermédio dos textos sagrados, quando um homem colhe nos Livros a fórmula que o conduz à liberação; 3) pela ajuda de um mestre » (ver « Le Maître spirituel », Hermes, nova série, 3, 1983).

É possível, portanto, desviar-se dos mestres humanos endereçando-se diretamente à Essência criadora, ao Espírito divino, recorrendo-se ao Mestre interior que é um só com Deus, o Mestre essencial.

Se se tem necessidade das maestrias exteriores, é mister examinar com discernimento a pluralidade das vias — de fato, uma para cada um —, a pluralidade das escolas — que aparecem, desaparecem, renascem em função de um plano universal de trabalho —, e a pluralidade dos ensinamentos, que sem dúvida todos têm sua utilidade, mas que devem responder às exigências individuais. E qualquer que seja o método escolhido, a responsabilidade própria de cada um deve permanecer no centro de suas preocupações: pois em suma se é iniciado apenas por si mesmo (eis o personalismo esotérico).

Aliás, a época que vem é aquela da interioridade reconquistada; e a multiplicação dos falsos mestres é no fundo apenas um meio de apressar em nós esta tomada de consciência. Entre as revelações feitas por Thomas Dowding a Wellesley Tudor Pole em 1917 (ano de Fátima e da revolução bolchevique), sob a inspiração de um espírito dito The Messenger, podem-se ler estas linhas proféticas:

« A infância da raça humana acabará em breve. Grandes poderes espirituais de purificação esperam ser derramados. Criai, para este fim, vasos. Fazei de vós mesmo um vaso para que possais receber o dom do Espírito. Não tendes necessidade de nenhum ensinamento vindo do exterior. É do interior que vos virá a revelação. Retirai-vos à morada do silêncio… » (citado em J. Prieur, Les témoins de l'invisible, p. 348).

Trata-se, de fato, de uma evolução decisiva, de uma viragem dos tempos, e de uma recriação do homem; trata-se de se receberem estas águas vivas de Aquarius anunciadas pelos textos joaninos. Uma certa maturidade dos espíritos manifestando-se, chegou o momento de uma conversão da atenção e do querer para o interior da pessoa: cada um é convidado a reencontrar-se em si mesmo (tal é o sentido da palavra esoterismo). Naturalmente, os socorros exteriores não hão de tornar-se caducos de um dia para o outro; mas serão cada vez mais considerados como apoios energéticos passageiros dos quais será preciso se libertar logo que possível.

Pode-se dar uma definição geral do conceito de mestre? É, em relação a um nível de ser dado, um foco de luz mais intensa, uma potência superior de conhecer, de amar, de criar, uma maior proximidade do Vivente, e, em último recurso, um desencadeador de mutação. Distinguir-se-ão, para a clareza da exposição:

  • o mestre humano exterior, o auxiliar autêntico de tal ou qual fase de nossa evolução;
  • o mediador invisível, ou estranho ao nosso espaço-tempo, que nos ajuda sem passar pela psique;
  • o mestre interior ou pessoal, que é, no ápice de nós mesmos, o nosso Eu divino;
  • ao que é mister acrescentar a maestria absoluta que funda e integra todas as outras, o Mestre essencial, Deus Ele Próprio.

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