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FIÉIS DO AMOR
EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.
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Um dos eventos culturais mais importantes do último quarto de século na Itália foi a “descoberta” da linguagem secreta de Dante e dos “Fiéis do Amor” pelo falecido Luigi Valli, a partir de teses de Gabriele Rossetti e Aroux que permaneceram sem eco.
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Luigi Valli descobriu a linguagem secreta de Dante e dos “Fiéis do Amor”.
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A descoberta baseou-se em teses anteriores de Gabriele Rossetti e Aroux.
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Essas teses não tiveram repercussão inicialmente.
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Tanto nos trovadores provençais quanto nos poetas do Stil Nuovo italiano, o elemento poético e erótico seria apenas uma “cobertura”, pois os chamados “Fiéis do Amor”, mesmo dispersos, constituiriam uma organização secreta gibelina, detentora de uma doutrina ocultada aos profanos e aos representantes da religião, para os quais a revestiam de expressões poéticas e símbolos de caráter eroticamente insólito.
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O elemento poético e erótico nessas correntes é uma “cobertura”.
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Os “Fiéis do Amor” formavam uma organização secreta gibelina.
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Essa organização possuía uma doutrina ocultada aos profanos e à religião.
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A doutrina era revestida de expressões poéticas e símbolos de caráter eroticamente insólito.
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Ricolfi retomou as pesquisas de Valli aplicando-as às “Cortes de Amor” da França, onde o caráter simbólico é ainda mais sensível, como em Jacques de Baisieux, que identifica o Amor com a destruição da morte baseado na etimologia “Amour” (a + mour, “sem morte”) e apresenta os “Amantes” como aqueles que “não morrem” e “viverão noutro século de alegria e glória”, fornecendo uma chave para o conteúdo secreto e superliteário de muitos textos.
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Ricolfi aplicou as pesquisas de Valli às “Cortes de Amor” francesas.
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O caráter simbólico é ainda mais sensível nessa literatura francesa.
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Jacques de Baisieux identifica o Amor com a destruição da morte pela etimologia “a-mour” (sem morte).
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Os “Amantes” são apresentados como aqueles que não morrem e viverão noutro século de alegria e glória.
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Isso fornece uma chave para o conteúdo secreto e superliteário de muitos textos.
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Em conexão com a interpretação em que o Amor e a Mulher são símbolos, a conclusão de Valli é que as mulheres cantadas pelos Fiéis do Amor, sob nomes como Rosa, Beatriz, Joana, Selvagem, Brancaflor, são uma única e mesma “Dama” simbólica que representa a “Sabedoria Divina” e a “inteligência transcendente”, cujo amor e posse conduzem à destruição da morte e à transformação espiritual da personalidade.
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O Amor e a Mulher são símbolos nessa interpretação.
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As várias mulheres cantadas são uma única “Dama” simbólica.
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Essa Dama representa a “Sabedoria Divina” e a “inteligência transcendente”.
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O amor e a posse dessa Dama conduzem à destruição da morte e à transformação espiritual.
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O trabalho crítico e documental de Valli tornou desnecessário referir-se a um número considerável desses poemas ditos “de amor”, e para ele as fontes desse simbolismo seriam principalmente gnósticas e árabes: gnósticas porque nas seitas dos primeiros séculos do cristianismo era frequente representar a Sabedoria e o Espírito Santo por uma Dama ou Virgem; árabes porque no aristotelismo de Averróis o intelecto transcendente foi figurado por uma mulher simbólica, em relação com o misticismo persa.
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O trabalho de Valli dispensou a referência a muitos poemas “de amor”.
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As fontes do simbolismo seriam gnósticas e árabes.
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A fonte gnóstica: a representação da Sabedoria e do Espírito Santo por uma Dama ou Virgem.
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A fonte árabe: a figuração do intelecto transcendente (Averróis) por uma mulher simbólica, em relação com o misticismo persa.
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Independentemente da exatidão histórica dessa filiação, o simbolismo da mulher tem um caráter universal e, na maioria dos casos, uma significação especial que alude a uma atitude particular diante do espírito, diferente da simplesmente religiosa, e que escapou aos pesquisadores.
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O simbolismo da mulher tem caráter universal.
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Esse simbolismo possui uma significação especial que alude a uma atitude particular diante do espírito.
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Essa atitude difere da simplesmente religiosa e escapou aos pesquisadores.
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A “mulher” nas figurações tradicionais não simboliza apenas um elemento transcendente como “sabedoria”, mas também como “vida” em sentido superior, “supravida”, como potência que consagra e transfigura o herói, conferindo-lhe a dignidade de “Rei”, como na tradição helênica com Atena (inteligência olímpica que guia Hércules) e Hebe (eterna juventude com quem Hércules se une no Olimpo).
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A mulher simboliza também “vida” em sentido superior, “supravida”, como potência.
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Essa potência consagra e transfigura o herói, conferindo-lhe dignidade real.
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Na tradição helênica, Atena (inteligência olímpica) guia Hércules.
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Hebe (eterna juventude) é aquela com quem Héracles se une no Olimpo, simbolizando a conquista da imortalidade.
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Na tradição egípcia, figuras de “mulheres divinas” oferecem ao faraó o “lótus” (símbolo de ressurreição) e a “chave da vida”; na tradição hindu, o termo shakti significa ao mesmo tempo “esposa” e “potência”, sendo a shakti de um ser divino sua esposa e, portanto, sua potência; na tradição nórdica, as walkírias são a parte misteriosa e transcendental que conduz os guerreiros à vitória e os heróis mortos à vida imortal.
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No Egito, “mulheres divinas” oferecem ao faraó o lótus (ressurreição) e a chave da vida.
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No hinduísmo, shakti significa “esposa” e “potência”, sendo a potência de um ser divino.
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Na tradição nórdica, as walkírias são a parte transcendental que conduz os guerreiros à vitória e os heróis mortos à vida imortal.
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A tradição celta é rica em mitos de mulheres sobrenaturais que raptam heróis e os transportam a uma ilha misteriosa para torná-los imortais por seu amor; a tradição romana conheceu uma Vênus genitrix, distinta da deusa do amor comum, identificada com a deusa da vitória (Vênus victrix) e com a “Fortuna” da linhagem dos Júlios; e os romances de cavalaria medievais oferecem inúmeros exemplos em que a adoração do cavaleiro por sua Dama é a sobrevivência, muitas vezes incompreendida, de uma tradição de caráter simbólico primordial.
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Na tradição celta, mulheres sobrenaturais raptam heróis e os tornam imortais.
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Em Roma, Vênus genitrix identifica-se com a deusa da vitória (Vênus victrix) e com a “Fortuna” dos Júlios.
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Nos romances de cavalaria medievais, a adoração do cavaleiro por sua Dama é um malentendido ou a sobrevivência de uma tradição simbólica primordial.
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A Dama pela qual morrer era fonte de recompensas sobrenaturais, que se conquista após provas heroicas e que introduz o amado num reino simbólico, está tão distante de um ser material quanto a Dama dos “Fiéis do Amor”, confirmando o caráter universal desse simbolismo presente nas tradições e lendas de todos os povos.
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A Dama dos romances de cavalaria é fonte de recompensas sobrenaturais.
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Ela é conquistada após provas heroicas e introduz o amado num reino simbólico.
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Essa Dama não é um ser material, tal como a dos “Fiéis do Amor”.
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O simbolismo tem caráter universal.
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A razão de ser desse simbolismo, geralmente negligenciada, reside na necessidade de representar sob forma feminina uma força transcendente a partir de precisas relações de analogia com os vínculos entre homem e mulher, que podem ser normais ou anormais.
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A razão de ser do simbolismo feminino é geralmente negligenciada.
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O simbolismo baseia-se em relações de analogia entre homem e mulher.
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Essas relações podem ser normais ou anormais.
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O caso anormal verifica-se quando o homem se torna escravo da mulher dominadora, correspondendo aos mitos em que a mulher representa perigo, sedução espiritual ou prova a ser superada, ou ainda às antigas tradições ginecocráticas que transferiam a função mediadora a um princípio feminino.
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O caso anormal é a submissão do homem à mulher dominadora.
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Corresponde aos mitos em que a mulher é perigo, sedução espiritual ou prova.
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Inclui também as tradições ginecocráticas com mediação feminina.
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O caráter normal da relação, por sua vez, consiste na submissão da mulher ao homem, na relação do passivo ao ativo, na concepção da mulher como instrumento que permite o desenvolvimento de um germe que só o homem possui, mesmo sem a faculdade de realizá-lo ou de lhe conferir vida verdadeira, o que abre horizontes espirituais insuspeitados.
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A relação normal é a submissão da mulher ao homem (passivo/ativo).
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A mulher é instrumento para o desenvolvimento de um germe possuído apenas pelo homem.
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O homem não tem, por si só, a faculdade de realizar ou dar vida verdadeira a esse germe.
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Partir dessa analogia significa compreender que o espírito e a libertação não devem ser a dissolução da personalidade viril num êxtase panteísta, mas sim que, mesmo diante da força que pode transfigurá-lo e fazê-lo participar da “Divina Sabedoria” e da espiritualidade real, o princípio pessoal deve permanecer ativo, conservando a atitude positiva do homem como senhor, macho e esposo da mulher.
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O espírito e a libertação não são dissolução da personalidade num êxtase panteísta.
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O princípio pessoal deve permanecer ativo diante da força transfiguradora.
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Essa atitude ativa é análoga à do homem como senhor, macho e esposo.
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O fato de a mulher, no mito e na lenda, ser conquistada apenas após lutas e provas que forjam a qualidade viril heroica e a “fidelidade” imaterial confirma essa significação espiritual, difundindo, com esse simbolismo presente em quase todos os povos, uma tradição de espiritualidade viril, de preferência dirigida à casta guerreira, cuja antítese encontra-se em Lutero, para quem a personalidade humana é a mulher que, diante do “esposo divino”, é a “mais contaminada das criaturas”, a “prostituta”, que não deve tomar iniciativa alguma.
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A conquista da mulher após lutas e provas confirma a significação espiritual.
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Essas provas forjam a qualidade viril heroica e a “fidelidade” imaterial.
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Difunde-se uma tradição de espiritualidade viril, dirigida à casta guerreira.
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A antítese encontra-se em Lutero, para quem a personalidade humana é a mulher passiva diante do “esposo divino”.
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Para recordar essa tradição espiritual latente na Idade Média, encontra-se em Francesco da Barberino o símbolo da “Viúva” ou da “Virgem” assediada ou aprisionada, que remete ao símbolo gibelino do imperador jamais morto, que vive oculto ou em letargia à espera da hora de manifestar-se ou despertar, sendo que a chegada do Herói libertador que desposa a “Virgem” ou a “Viúva” real tem a mesma significação.
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Francesco da Barberino usa o símbolo da “Viúva” ou da “Virgem” assediada ou aprisionada.
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Esse símbolo remete ao do imperador gibelino jamais morto, em estado de letargia.
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O imperador aguarda a hora de manifestar-se ou despertar.
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A chegada do Herói libertador que desposa a “Virgem” ou a “Viúva” real tem a mesma significação.
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Essa literatura “fabular” medieval dirige-se menos aos estetas do que a uma ordem militante universal, a cavalaria, e, na prática, a homens particulares, aos gibelinos em armas que formavam a maior parte dos “Fiéis do Amor”, especialmente na Itália.
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A literatura “fabular” medieval dirige-se à cavalaria, uma ordem militante universal.
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Dirige-se, na prática, aos gibelinos em armas.
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Os gibelinos formavam a maior parte dos “Fiéis do Amor”, especialmente na Itália.
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Trata-se, portanto, de referências que não têm apenas interesse de curiosidade, mas de chaves para reencontrar, numa vasta matéria e num mundo quase inexplorado, significações que ainda hoje podem ser intensamente vividas.
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As referências não têm apenas interesse de curiosidade.
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São chaves para reencontrar significações numa vasta matéria inexplorada.
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Essas significações podem ainda hoje ser vividas intensamente.
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