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NOTAS SOBRE OS MISTÉRIOS DE MITHRA

EVOLA, Julius. Symboles et “mythes” de la Tradition Occidentale. Milano: Archè, 1980.

  • Renan escreveu que se o cristianismo tivesse sido detido em seu crescimento por alguma doença mortal, o mundo teria se tornado mitraico, pois é reconhecido que o mitraísmo foi o mais temível antagonista do cristianismo.
    • O mitraísmo penetrou em Roma por volta da metade do primeiro século antes da era comum e conheceu seu apogeu por volta do terceiro século, propagando-se nas províncias mais distantes do Império.
    • Atraía sobretudo os legionários e os veteranos colonizadores, que o encontravam conforme com sua educação militar e viril; imperadores como Adriano, Cômodo e Aureliano se fizeram iniciar em seus mistérios.
    • Mithra foi considerado o protetor e o sustentáculo do Império, fautor imperii sui; seu culto se fundiu com o do Sol, Hélios, potência divina soberana e invencível, e a data de uma de suas festas mais importantes, o dies natalis Solis invicti Mithra, foi fixada em 25 de dezembro, retomada pelo cristianismo que dela fez o Natal.
    • Constantino teria hesitado entre o Cristianismo e o Mitraísmo; o imperador Juliano foi iniciado nos mistérios de Mithra e, na sua nobre e corajosa tentativa de restauração dos cultos romanos para deter a progressão do cristianismo, se apegou à metafísica neoplatônica e às tradições de mistérios, em particular ao mitraísmo.
  • Há reservas a fazer à tese de que o mundo antigo poderia ter sido mitriasta em lugar de cristão: para combater o cristianismo, o mitraísmo deveria ter se rebaixado, pois permanecendo tal como era dificilmente poderia atrair as camadas populares onde a religião de Jesus, com sua doutrina de salvação baseada no sentimento, se implantou essencialmente.
    • Emanação do antigo mazdeísmo iraniano, o mitraísmo retomava seu tema central, a luta entre as potências da luz e as das trevas e do mal; podia ter formas religiosas exotéricas, mas seu núcleo central era constituído pelos Mistérios, por uma iniciação no sentido estrito, o que o limitava ao mesmo tempo que contribuía para fazer dele uma forma tradicional mais completa.
    • Posteriormente produziu-se uma separação cada vez mais nítida entre a religião e a iniciação.
  • Os testemunhos sobre os mistérios do mitraísmo, reunidos por Franz Cumont em suas obras, podem ser completados pelo Ritual mitriaco do Grande Papiro mágico de Paris intitulado Apathanatismos.
    • Para o fim proposto, é preciso considerar, em seu sentido profundo, o mito de Mithra figurado por numerosas esculturas e baixos-relevos de factura admirável.
    • Esses mitos eram as dramatizações das experiências que o iniciado devia conhecer, por uma espécie de identificação com o deus cuja gesta ele devia repetir.
  • No mito, Mithra nasce de uma pedra, theôs ek pétras, petrogénôs Mithra, é engendrado por ela como manifestação da luz ouraniana original, à beira de um rio; nascimento miraculoso percebido apenas pelos guardiões ocultos nos cimos das montanhas.
    • Sobre esses guardiões, pode-se se referir aos Mestres Invisíveis, não sem relação com os seres das origens que, segundo Hesíodo, nunca teriam morrido, mas, como os Adormecidos, continuariam a viver nas idades sucessivas.
    • As águas de um lado e a pedra do outro poderiam ser uma alusão à dualidade constituída pelo corrente do devir e pelo princípio que a designa.
    • Em jorrando da pedra, Mithra segura numa mão uma espada e na outra uma tocha, símbolos da força e da luz, de uma potência iluminante; na pedra pode-se também ver o símbolo de uma força inabalável e de uma firmeza interiores, qualidades requeridas no neófito, essenciais para seu renascimento.
  • Segundo Nono o Mitógrafo, nos mistérios de Mithra os neófitos deviam atravessar o fogo e a água, resistir ao frio, à fome e à sede; segundo outras fontes, para provar a impassibilidade do futuro iniciado, era-lhe imposta a presença ao simulacro da matança de um homem.
    • As qualidades requeridas parecem ser as que ilustram os desenvolvimentos do mito de Mithra, que deve resistir a um vento furioso que o fustiga e flagela seu corpo nu.
    • Mithra se dirige a uma árvore, cobre-se de suas folhas e se nutre de seus frutos; dado o sentido iniciático da árvore, pode-se pensar numa árvore próxima àquela à qual Adão teria querido se aproximar para se tornar semelhante a um deus, mas cuja aproximação lhe foi interditada pelo Jeová do Antigo Testamento.
  • A confrontação de Mithra com o Sol, o Éon flamejante, se conclui com a aliança entre os dois e com Mithra tornando-se o depositário da força soberana dessa divindade.
    • Trata-se do hvareno da antiga tradição mazdéica iraniana, a Glória concebida como um fogo sobrenatural, atributo das divindades celestes, que desce para aureolar os soberanos, consagrá-los e proclamá-los pela vitória.
    • O soberano sobre quem descia essa Glória era elevado acima dos homens e considerado por seus súditos como um imortal; é assim que, assimilando Mithra ao Sol, sempre vitorioso das trevas, ele pôde ser escolhido como protetor e sustentáculo do Império romano.
  • O episódio central do mito de Mithra, a imolação do touro, representa o paralelo entre a força elementar inferior da vida e sua transformação por aquele que a assumiu desde sua aparição e a domou.
    • Mithra espreita o touro, salta sobre ele e o cavalga agarrando-se pelos chifres; o animal galopa em corrida furiosa, mas Mithra não larga a presa e se deixa transportar até que o animal, exausto, retorne à caverna de onde havia saído; então Mithra o mata com sua espada.
    • O sangue que escorre da ferida do touro se transforma em espigas e, tocando o solo, produz plantas; é preciso apenas impedir que as bestas imundas, acorridas imediatamente, não bebam o sangue, o que implica uma significação esotérica.
    • Se o herói ou o futuro iniciado não fosse puro, o que resta nele de natureza inferior seria acrescido pela energia libertada; não apenas não haveria transfiguração, mas o resultado poderia ser destruidor.
    • Segundo uma variante do mito, o sangue do touro se transforma em vinho, possível alusão aos efeitos de uma espécie de embriaguez mágica.
  • A imolação do touro deu lugar a um rito da iniciação aos mistérios de Mithra: o batismo do sangue.
    • Os mitreums, locais onde se celebravam os mistérios, compreendiam uma parte superior e uma parte inferior, quase sempre subterrânea.
    • Na parte baixa se encontrava o neófito que havia satisfeito às provas preliminares; sua nudez era regada com o sangue de um touro imolado ritualmente na parte alta do sacellum pelo hierofante.
    • Um conjunto de experiências particulares destinadas a o tornar propício devia estar em relação com esse batismo do sangue, que se substituía ao batismo cristão.
  • O ritual Apathanatismos, publicado por Dieterich em 1903 sob o nome de liturgia, é na verdade um ritual com instruções, fórmulas mágicas, invocações e indicações das experiências que lhes correspondem.
    • O ritual pressupõe uma iniciação preliminar: o sujeito declara ter sido purificado por cerimônias sagradas, ter sido elevado pela forte força das forças e pela incorruptível Direita, e pode agora aspirar ao nascimento imortal, subtrair-se às leis da Necessidade que reina sobre o mundo inferior e contemplar os deuses e o Éon.
    • É mencionado o tema das portas que se abrem, dos Sete vistos primeiro em seu aspecto feminino e depois masculino como Senhores do Polo celeste; a ação teúrgica conduz visivelmente além dos Sete, até que, nos raios e no trovão, apareça a figura do Sol-Mithra, que o miste deve poder fixar e depois, por um ato de vontade, se apropriar para sempre, transformando-se nele ao ponto de morrer integrado na palingenesia e pela integração atingir o cumprimento.
  • O mitraísmo conhecia a viagem através das sete esferas planetárias, mas em sentido inverso: não mais como uma descida em que a alma se torna progressivamente prisioneira das esferas da necessidade e reencontra o estado de homem mortal, mas como uma remontada que permite ir além dessas esferas num despojar permitindo atingir o Princípio, o incondicionado.
    • O sete reaparece no número dos graus da iniciação mithriaca em sua forma institucionalizada: Corvo (Corax), Oculto (Cryphius), Soldado (Miles), Leão (Leo), Persa (Perses), Correio do Sol (Heliodromus), Pai (Pater).
    • O Corvo corresponderia a uma mortificação preliminar da natureza inferior, com correspondência no simbolismo alquímico-hermético do Corvo que indica a fase da nigredo, a Obra ao Negro.
    • Com o terceiro grau, o miste se torna um soldado da milícia dos iniciados mitriácos, concebida como uma militia conforme ao espírito guerreiro da tradição.
    • Como Correio do Sol, sexto grau, o iniciado refletia a qualidade atribuída a Mithra após sua confrontação com Hélios; o Pater correspondia à dignidade de iniciador e chefe de uma comunidade mithriaca.
    • Tertuliano relata que ao conferir ao neófito o grau de miles, apresentavam-lhe uma espada e uma coroa; ele tomava a primeira e recusava a segunda dizendo: minha coroa é Mithra.
  • Se o mitraísmo tivesse se imposto no lugar do cristianismo conservando seu núcleo central, poderia ter mantido uma tradição iniciática regular na história do Ocidente e, no plano religioso mais exterior, ter argumentado com a qualidade de Soter às vezes atribuída a Mithra.
    • Seu aspecto de deus invicto, Invictus Mithra, o havia feito protetor solar do Império romano e dispensador do hvareno mazdeico que conferia a vitória, por sua encontro com a antiga tradição romana da Fortuna Regia, representando também a Victoria, objeto de culto cuja estátua se erguia no Senado romano.
    • O mitraísmo constituía um conjunto cultural, sacral e iniciático que sua própria natureza destinava a ser afastado no processo involutivo que conduziu o Ocidente cada vez mais longe dos horizontes de glória e potência luminosa, até que por fim se prescindiu de uma iniciação que deixara de ser parte integrante e central de um sistema para ser apenas uma veia subterrânea de esporádicas ressurgências, a despeito do cristianismo.
    • Assim todo contato com o suprassensível foi interrompido.
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