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O RISO DOS DEUSES

EVOLA, Julius. L’Arc et la massue. Tr. Philippe Baillet. Paris: Pardès ; Éditions de la Maisnie, 1984.

  • A civilização moderna apresenta caráter essencialmente antiaristocrático não apenas no plano político e social, mas também no plano espiritual, cultural e na visão de mundo, ainda que neste último tal traço se torne menos perceptível devido à perda quase completa dos pontos de referência necessários.
    • O antiaristocratismo espiritual manifesta-se de modo difuso e encoberto.
    • A ausência de critérios tradicionais dificulta o reconhecimento desse nivelamento.
  • A ascensão do ‘humanismo’, entendido em sentido amplo como perspectiva centrada exclusivamente no homem e que transforma o humano em objeto de culto, constitui um momento decisivo desse processo, sobretudo em suas formas ligadas à chamada ‘visão trágica da vida’, que exaltam figuras rebeldes ou subversivas como ideal romântico complementar às ideologias revolucionárias plebeias.
    • O termo é distinguido do humanismo histórico do Renascimento, embora este tenha marcado ponto de inflexão decisivo.
    • Excluem-se as formas degradadas como o ‘humanismo marxista’ e o ‘humanismo do trabalho’.
    • Valoriza-se a atribuição de dignidade a figuras históricas ou míticas insurgentes.
  • Segundo certa mentalidade, a condição de ser apenas humano é glorificada em si mesma, e os aspectos miseráveis, sombrios e dolorosos dessa condição são celebrados como ‘trágicos’, tendo como protótipos nobres os que se insurgem contra forças superiores, como os Titãs e Prometeu.
    • A rebelião contra o superior converte-se em critério de nobreza.
    • A tragédia humana é elevada a valor positivo.
  • A linguagem cultural moderna exalta a ‘grandeza trágica’, o ‘espírito prometeico’ e o ‘titanismo da vontade’, refletindo-se em expressões literárias como o Hino a Satanás de Carducci e em formas de faustianismo, até culminar no ‘humanismo integral’ marxista que proclama a mística do trabalho, revelando o caráter espiritualmente antiaristocrático da visão moderna.
    • Intelectuais historicistas e progressistas herdaram essa retórica do Iluminismo.
    • O passo ulterior é dado pelo materialismo coletivista.
    • O nivelamento espiritual torna-se explícito.
  • Para compreender a queda de nível implicada por essa orientação, torna-se elucidativo recorrer ao mundo clássico e às interpretações de Karl Kerényi sobre Prometeu e o espírito titânico em La religione antica nelle sue linee fondamentali.
    • Recomenda-se evitar exposições modernas distorcidas.
    • Kerényi fornece chave interpretativa decisiva.
  • Kerényi destaca que o mundo clássico ignorava a ‘fé’ no sentido atual, pois sua religiosidade fundava-se na percepção real e direta da presença das potências divinas, o que torna inadequada a aplicação indiscriminada do conceito cristão de religião à espiritualidade antiga e primordial.
    • A fé pressupõe dúvida e ignorância superadas pelo crer.
    • A experiência do divino era tão imediata quanto a sensível.
    • A confusão conceitual compromete a compreensão do mito e da iniciação.
  • A ideia de unidade primordial entre deuses e homens, testemunhada por Hesíodo, Píndaro, pela tradição órfica e ecoada no Evangelho com a expressão ‘Vós sois deuses’, exprime uma condição existencial na qual a presença divina era sentida como convivência efetiva.
    • Deuses e homens compartilham a mesma origem e o mesmo ‘sangue’.
    • Ritos como o lectisternium romano simbolizam essa copresença.
    • Trata-se de testemunhos figurativos de uma condição ontológica.
  • Essa condição não implica misticismo, mas um estado originário de coexistência definido por Kerényi como percepção recíproca no estado primordial do ser.
    • A antiguidade dos testemunhos fundamenta essa definição.
    • O estar-junto não mítico caracteriza a experiência homérica e hesiódica.
  • Com o declínio dessa experiência, o sentimento de proximidade divina tornou-se raro e restrito a povos ou figuras cuja existência oscilava entre divino e humano, como indicado por Homero e confirmado por exemplos romanos como o flamen dialis, certos personagens descritos por Lívio e a autoimagem de César segundo Suetônio.
    • O flamen dialis era visto como ‘estátua viva’ da divindade.
    • Lívio descreve figuras semelhantes aos deuses.
    • César reivindica linhagem de majestade régia e sacralidade divina.
    • Persistências tardias aparecem nas práticas demoníacas do Império.
  • A oscilação entre divino e humano constitui ponto decisivo, pois aqueles que escolheram afirmar exclusivamente o polo humano ignoraram a degradação implicada e tornaram-se objeto do riso dos deuses, como se evidencia na consideração clássica do espírito titânico.
    • A escolha do humano implica afastamento do estado primordial.
    • O riso divino simboliza a superioridade olímpica.
  • Hesíodo caracteriza o espírito titânico em Prometeu como astúcia inventiva que tenta enganar o νοῦς de Zeus, ao passo que o intelecto olímpico permanece imóvel, translúcido e voltado ao ser real, enquanto o espírito titânico produz invenções que são mentiras engenhosas.
    • O νοῦς olímpico não pode ser iludido.
    • O espírito titânico é inquieto e buscador.
    • O ser verdadeiro é objeto do intelecto olímpico.
  • Kerényi associa o intelecto olímpico à ἀλήθεια como não-ocultamento e o espírito titânico ao amor pelo tortuoso e pela mentira, mostrando que, após os artifícios de Prometeu e seu castigo, resta a humanidade representada por Epimeteu, cuja imprudência aceita Pandora, enquanto Zeus ri sabendo que os homens amarão sua própria desgraça.
    • Prometeu e Epimeteu são irmãos e expressam duplicidade primordial.
    • O roubo do fogo e o sacrifício falho aumentam a miséria humana.
    • Pandora inaugura fonte inesgotável de sofrimento.
  • O riso olímpico, longe de destruir o homem, aniquila a pretensa importância trágica da miséria titânica, transformando a existência humana em comédia eterna diante de Zeus.
    • Nada muda na condição contraditória humana.
    • O que se dissolve é a ilusão da grandeza trágica.
  • Mesmo quando a dimensão heroica confere grandeza épica às lutas humanas, como em Homero, a perspectiva do estado primordial permanece imperturbável, pois o νοῦς olímpico não é movido pela tragédia, e a importância heroica subsiste apenas como espetáculo para os deuses, conforme também assinala Sêneca.
    • A natureza participa por prodígios para magnificar a tragédia.
    • A ilusão heroica desfaz-se diante do riso divino.
    • O riso exprime plenitude das formas eternas.
  • Nietzsche reconhece nessa concepção a profundidade da alma clássica, embora ele próprio permaneça vinculado em parte à ilusão titânica.
    • A crítica nietzschiana revela ambiguidade.
    • A grandeza antiga reside na superação do trágico.
  • O mito, enquanto espelho de experiências profundas que moldam civilizações, indica a possibilidade de orientação oposta à prometeica, apontando para alternativa de sentido que o humanismo tende a obscurecer.
    • O mito não é fantasia arbitrária.
    • Possui dimensão metafísica e atemporal.
  • A orientação ‘olímpica’ permanece princípio sempre possível de atitude existencial, traduzindo-se em modo de ser diante do mundo humano, espiritual, histórico e interior, independentemente da linguagem simbólica antiga.
    • Pode servir de medida e tom fundamental da existência.
    • Contrapõe-se estruturalmente à orientação prometeica.
  • Essa orientação constitui núcleo de tudo o que é autenticamente aristocrático, ao passo que o prometeísmo possui caráter plebeu e usurpador, sendo que no mundo indo-europeu as divindades da soberania tinham caráter olímpico, enquanto a linha prometeica associa-se historicamente ao ataque às autoridades superiores e à exaltação das camadas inferiores correspondentes ao elemento meramente humano.
    • Imperium, ordem e direito vinculam-se ao polo olímpico.
    • A inversão valoriza o estrato físico e inferior.
  • Entre a liberdade do soberano e a liberdade do rebelde, o humanismo opta pela segunda, mesmo quando fala em dignidade, liberdade de pensamento e ilimitada expansão do espírito.
    • A exaltação da personalidade humana encobre escolha plebeia.
    • A rebelião torna-se ideal normativo.
  • Mesmo admitindo a imagem ideológica de hierarquias fundadas apenas na força, a identificação revolucionária dirige-se não aos supostos déspotas livres, mas aos estratos inferiores, revelando aspiração à liberdade do escravo emancipado e evidenciando a base plebeia do prometeísmo social.
    • Os detentores do poder não eram os oprimidos.
    • A afinidade eletiva orienta-se para o baixo.
  • No domínio cultural, a emancipação do pensamento conduz ao racionalismo, ao progressismo e à glorificação do espírito inventivo do Titã inquieto, nutrindo a ilusão das ‘conquistas do pensamento’ aplicado.
    • A ruptura das correntes torna-se mito fundador.
    • A invenção técnica é celebrada como ápice.
  • Esse movimento ascendente a partir de baixo dissolve o polo apolíneo da aristocracia do espírito, ligado à soberania de quem se sente afastado do meramente humano e orientado pela ‘civilização do ser’ e pela potência calma de um mundo superior.
    • A soberania autêntica exprime distanciamento interior.
    • A calma substitui o pathos trágico.
  • Sob desenvolvimentos acelerados, o humanismo percorre o caminho de Prometeu a Epimeteu, desconhecendo o Prometeu libertado por Héracles que simboliza a aliança heroica com os poderes olímpicos, e culminando na humanidade epimeteica submetida à economia e ao trabalho, proclamados como ‘humanismo integral’ e sentido da história.
    • A libertação positiva é substituída por abandono à própria miséria.
    • A grandeza trágica degenera em existência opaca.
    • Fecha-se o ciclo iniciado pela exaltação prometeica.
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