evola:tempo
ESPAÇO – TEMPO – TERRA
Revolta contra o Mundo Moderno
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A diferença fundamental entre o homem tradicional e o homem moderno nas categorias de percepção e na relação entre o Eu e o não-Eu
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A transformação profunda das possibilidades da experiência humana, incluindo espaço, tempo e causalidade, em conformidade com o processo geral de involução.
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O erro da gnoseologia pós-kantiana ao supor a imutabilidade das formas fundamentais da experiência, particularmente as familiares ao homem atual.
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A necessidade de considerar a referida diferença especificamente no que respeita ao espaço e ao tempo.
A concepção tradicional do tempo como qualidade, ritmo e ciclo, em oposição ao tempo linear e quantitativo do homem moderno-
A indicação fundamental de que o tempo das civilizações tradicionais não é um tempo histórico linear, estando imediatamente ligado ao que é superior ao tempo.
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A definição do tempo moderno como uma ordem irreversível de acontecimentos sucessivos, homogéneos e medíveis, onde existe uma indiferença recíproca entre o tempo e os seus conteúdos.
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A perda do caráter tradicional do tempo nas concepções científicas recentes, como as de Minkowski ou de Einstein, onde o tempo se transforma numa ordem matemática absolutamente indiferente aos acontecimentos.
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A experiência tradicional do tempo como uma qualidade e um ritmo que se fractura em ciclos e períodos, dos quais cada momento tem um significado, um valor específico, uma individualidade e uma funcionalidade.
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A representação dos ciclos ou períodos, como o grande ano caldeu e helênico, o saeculum etrusco-latino, o eon irânico, os sóis aztecas e os kalpa hindus, como desenvolvimentos completos que formam unidades fechadas e perfeitas, idênticas umas às outras.
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A repetição dos ciclos como uma série de eternidades, conforme a expressão de Hubert-Mauss, que cita a divisão caldeia da eternidade do universo em grandes anos onde se reproduziriam os mesmos acontecimentos.
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A personificação de certos períodos de tempo em divindades como expressão da ideia do ciclo como um todo orgânico.
A natureza orgânica e qualitativa da duração cíclica e a sua relação com números simbólicos-
A flexibilidade da duração cronológica do saeculum, onde durações quantitativamente desiguais podiam ser consideradas iguais desde que contivessem e reproduzissem todos os momentos de um ciclo.
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A repetição tradicional de números fixos, como o sete, o nove, o doze e o mil, que não exprimem quantidades mas sim estruturas típicas de ritmo, permitindo ordenar durações materialmente diferentes mas simbolicamente equivalentes.
A hierarquia e a redução da multiplicidade temporal a uma unidade supratemporal no mundo tradicional-
O conhecimento, ao longo da sequência cronológica indefinida, de uma hierarquia assente nas correspondências analógicas entre grandes ciclos e pequenos ciclos.
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A redução da multiplicidade temporal a uma unidade supratemporal, citando Hubert-Mauss sobre as durações do tempo tradicional comparadas a números que servem de enumeração de unidades inferiores ou de quantidades para a composição de números superiores.
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A reprodução analógica do grande ciclo pelo pequeno ciclo como meio de participar em ordens cada vez mais vastas e em durações cada vez mais livres de qualquer resíduo de matéria ou de contingência.
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A concepção hindu de que um ano dos mortais corresponde a um dia de uma certa ordem de deuses, e um ano destes a um dia de uma hierarquia superior, até se chegar aos dias e às noites de Brahman, que exprimem o curso cíclico da manifestação cósmica.
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A repetição destes ciclos como um jogo, ou lila, exprimindo a irrelevância e a anti-historicidade da repetição com respeito ao elemento imutável e eterno.
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As designações do ano como corpo do sol e do cavalo sacrificial ou como testemunha fiel do Senhor Vivo, Rei da eternidade.
A ordenação ritual do tempo e a sua transfiguração no mundo tradicional-
A ordenação do tempo a partir de cima, repartindo cada duração em períodos cíclicos que refletem essa estrutura.
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A associação de celebrações, ritos ou festas a determinados momentos dos ciclos para despertar ou fazer pressentir os correspondentes significados.
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A atuação do mundo tradicional no sentido de uma libertação e de uma transfiguração, detendo o fluxo confuso do devir e criando uma transparência que permite a visão da imóvel profundidade.
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O caráter sagrado do calendário na antiguidade, confiado à ciência da casta sacerdotal, e a consagração de certas horas, dias e anos a determinadas divindades ou destinos.
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A preservação de um eco daquela antiga concepção no catolicismo, com um ano recheado de festas religiosas e de dias assinalados por acontecimentos sagrados, onde o tempo é ritmado pelo rito e transfigurado pelo símbolo, formado à imagem de uma história sagrada.
O simbolismo cósmico e a origem do sistema unitário baseado no percurso solar-
A adoção tradicional das estrelas, dos períodos estelares e do curso solar para fixar as unidades de ritmo, não como apoio a interpretações naturalistas, mas como matéria para exprimir analogicamente significados divinos.
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A percepção direta de significados divinos por civilizações que, segundo Juliano Imperador, não consideravam o céu superficialmente ou como gado a pastar.
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A admissão de que o percurso anual do Sol foi primordialmente o centro e a origem de um sistema unitário, do qual a notação do calendário era um simples aspecto, estabelecendo interferências e correspondências simbólicas e mágicas entre o homem, o cosmos e a realidade sobrenatural.
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A hipótese de H. Wirth sobre uma série sagrada deduzida, nos tempos primordiais, dos momentos astrais do Sol como deus-ano, servindo de base para a notação do templo, para sinais de uma única língua pré-histórica e para significados de culto.
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As duas curvas da descida e da subida da luz solar no ano como a matéria mais imediata para exprimir o significado sacrificial da morte e do renascimento, o ciclo constituído pela via obscura descendente e pela via luminosa ascendente.
A tradição da Ártida e a dramatização da experiência do percurso solar-
A tradição segundo a qual a região que hoje corresponde à Ártida foi a sede originária das estirpes que criaram as principais civilizações indo-europeias.
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A dramatização da experiência do percurso solar causada pela glaciação árctica, que dividia o ano numa única noite e num único dia, substituindo o simbolismo polar por um simbolismo solar para exprimir significados metafísicos.
A imutabilidade das datas estelares fundamentais na transmissão tradicional-
A conservação praticamente imutável das datas que correspondem a situações estelares susceptíveis de exprimir significados superiores, como a situação solsticial, quando a tradição muda de forma e se transmite a outros povos.
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A correspondência e a uniformidade de festas e de ritos calendariais fundamentais, através dos quais se introduzia o sagrado entre as malhas do tempo, para fracionar a duração em imagens cíclicas de uma história eterna.
O aspecto mágico do tempo tradicional e a sua relação com o rito-
A apresentação do tempo, na concepção tradicional, com um aspecto mágico, onde cada ponto de um ciclo, devido à lei das correspondências analógicas, tinha uma sua individualidade, desenrolando a sucessão periódica de manifestações típicas de influências e poderes.
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A existência de tempos propícios e não propícios, fastos e nefastos, constituindo este elemento qualitativo do tempo uma parte substancial na ciência do rito.
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A execução de cada rito no seu tempo determinado, fora do qual a sua virtude se encontrava diminuída, paralisada ou produzia um efeito oposto, citando Macróbio sobre este assunto.
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A afirmação de autores como Hubert-Mauss de que o antigo calendário assinalava apenas a ordem de periodicidade de um sistema de ritos.
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A existência de disciplinas, como as ciências augurais, destinadas a inquirir se um dado momento ou período seria propício para a realização de um dado ato, como se manifestou na arte militar romana.
A intenção do homem tradicional de sintonia com forças não-humanas e a confirmação da concepção qualitativa do tempo-
A negação de que esta concepção corresponda a um fatalismo, exprimindo antes a intenção permanente do homem tradicional de prolongar e integrar a sua própria força com uma força não-humana.
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A descoberta de momentos em que dois ritmos, o humano e o das potências naturais, por uma lei de sintonia e de correspondência entre o físico e o metafísico, se podem tornar uma única e mesma coisa, arrastando para a ação poderes invisíveis.
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A confirmação da concepção qualitativa do tempo vivo, em que cada hora e cada momento tem a sua fisionomia e a sua virtude, e em que, no plano simbólico-sacro, existem leis cíclicas que desenvolvem identicamente uma cadeia ininterrupta de eternidades.
A consequência da ritmação do tempo empírico por um tempo transcendente: a passagem entre o histórico e o supra-histórico-
A consequência de que, tradicionalmente, o tempo empírico foi ritmado e medido por um tempo transcendente, contendo significados e não apenas fatos.
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O reconhecimento do tempo supra-histórico como o lugar em que os mitos, os heróis e os deuses tradicionais vivem e atuam.
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A possibilidade de uma passagem em sentido inverso, onde fatos ou personagens historicamente reais tenham repetido e dramatizado um rito, encarnando estruturas e símbolos supra-históricos.
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A pertença simultânea desses fatos ou seres aos dois tempos, tornando-se expressões novas de realidades pré-existentes, personagens e fatos ao mesmo tempo reais e simbólicos.
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O transporte desses elementos de um período para outro, antes ou depois da sua existência real, quando se tiver em vista o elemento supra-histórico por eles representado.
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A consideração das investigações modernas sobre a historicidade de acontecimentos ou personagens do mundo tradicional, as suas tentativas de separar o histórico do mítico e os seus espantos perante as cronologias tradicionais, como assentes absolutamente no vácuo.
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A afirmação de que, nos casos em questão, são precisamente o mito e a anti-história que conduzem ao conhecimento mais completo da história.
O verdadeiro sentido das lendas sobre personagens levadas para o invisível e a doutrina dos avatara-
A compreensão do verdadeiro sentido das lendas relativas a personagens levadas para o invisível e por isso nunca mortas, destinadas a despertar ou a manifestar-se de novo ao fim de certo tempo, como Alexandre Magno, o rei Artur, Frederico e o rei D. Sebastião, encarnações de um tema único transposto da realidade para a supra-realidade.
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A compreensão, na mesma base, da doutrina hindu dos avatara ou encarnações divinas periódicas sob o aspecto de personalidades diferentes, mas que exprimem uma função idêntica.
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