PERSISTÊNCIA DA MENTALIDADE PRIMORDIAL OU MENTALIDADE ONTOLÓGICA NOS PRIMITIVOS ATUAIS
É preciso indicar que encontramos, nos primitivos atuais, uma mentalidade análoga à das primeiras gerações humanas? — E é isso que justifica, nesta ocorrência, a denominação de primitivos. — Esses povos, também eles, concebem o mundo, não como um mundo de matéria densa, mas como um mundo energético, como um mundo vivo, cheio de forças misteriosas, com as quais devem se harmonizar. Em seu pensamento, os eventos se produzem não por contatos da matéria espacial, mas pela influência de uma energia interna sobre outra energia interna. E sua principal preocupação não é, como se acreditou por muito tempo, alimentar-se ou lutar, é entrar em relação com o que imaginam ser o mundo verdadeiro, e torná-lo propício. Os selvagens que se situam, aos olhos dos etnólogos, no nível mais baixo da escala humana, têm cerimônias que duram meses, e uma riqueza de ritos que supera a de muitos povos civilizados. Toda a sua inteligência acaba por se absorver nas ideias religiosas, como foi, muito verossimilmente, já o caso, para o primeiro homem e seus descendentes imediatos. Spencer e Gillen, falando do indígena australiano, nos dizem, por exemplo 1), que “desde o dia de sua iniciação, sua vida é dividida em duas partes bem distintas. Primeiramente, o que poderíamos chamar de vida ordinária, comum a todos, homens e mulheres, e associada à busca de alimento e à realização dos acessórios… Em seguida, o homem eleva-se ao que deve tornar-se gradualmente para ele de uma importância cada vez maior: àquela parte de sua vida consagrada às coisas de natureza sagrada ou secreta. Com o tempo, ele se interessa cada vez mais por estas últimas, até que esse aspecto de sua vida acabe por ocupar a maior parte de seus pensamentos. As cerimônias rituais, que, para o homem branco, têm apenas uma importância secundária, são para ele assuntos muito sérios”. É, com efeito, por essas cerimônias que se estabelece para ele o contato com o universo dos seres reais.
O mesmo ocorreu com toda a humanidade até uma data relativamente recente — até que prevalecesse na antiguidade a civilização material. Durante milênios, a grande preocupação das sociedades humanas foi conciliar os detentores da energia substancial e colocar-se em seu ritmo. Durante dezenas de séculos, os homens mais importantes em todos os povos foram aqueles que entravam em contato com o mundo dinâmico e podiam captar suas forças. Religião e magia uniam-se então de forma estreita: derivando da mesma fonte originária, permaneciam tanto mais solidamente acopladas quanto, por um lado, a ciência transcendente inicial, fundamento da magia, havia sido adquirida durante o estágio humano préternatural, quando os seres eram vistos imediatamente no Ser, e, por outro lado, essa ciência se mantinha graças a qualidades de natureza religiosa. Ambas foram, além disso, durante muito tempo, domínio dos mesmos homens, e reservadas às personagens sagradas, que nelas se tornavam mestres por uma submissão rigorosa às disciplinas teocráticas.
Atualmente ainda, apesar da total degenerescência da instituição primitiva, o ser que detém a maior consideração no conjunto das sociedades selvagens não é o homem mais forte, nem o homem mais hábil, nem o homem mais corajoso, nem mesmo o homem mais rico 2); é o sonhador e o místico. Quer se trate dos Xamãs da Sibéria, dos Angakut esquimós, dos feiticeiros da América do Norte, dos Oko-jumu (ou “sonhadores”) das ilhas Andamã, dos Nganga (ou adivinhos) dos povos Bantu, etc., em toda parte nos encontramos diante de indivíduos que se arrogam poderes sobrenaturais — poderes que, aliás, adquiriram muito penosamente, atravessando períodos de distúrbios físicos e mentais bastante graves, destinados a produzir os êxtases e as visões reveladoras.
Não podemos certamente ver nesses seres, bastante frequentemente tarados, os descendentes dos primeiros ascetas humanos, com os quais verossimilmente nada têm em comum. Mas os sentimentos reverenciais de que beneficiam, sem, muito frequentemente, os merecer, ligam-se, gradualmente, sem qualquer interrupção, ao primeiro ancestral, e só se explicam, em última análise, pelas altas noções advindas do cosmos visto como radiante, cosmos que momentaneamente desapareceu, mas cujo perfume ainda subsiste. O primeiro homem dificilmente reconheceria como herdeiros esses tristes neuróticos; mas, em contrapartida, ele reconheceria como seus filhos aqueles que os respeitam: pois é, na realidade, à lembrança do que ele foi, não a esses seres degenerados, que a veneração, presentemente, se dirige 3).
