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ESPIRITISMO E PSIQUISMO
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A realidade dos fenômenos invocados pelos espíritas não é contestada, pois se admite em princípio a possibilidade de tudo o que não implica contradição, e a existência desses fenômenos é atestada por testemunhos anteriores ao espiritismo e provenientes de meios a ele estranhos, sendo o estudo dos fenômenos, portanto, algo absolutamente independente das teorias espíritas.
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A definição do critério de possibilidade: tudo o que não é intrinsecamente absurdo ou contraditório é possível, em um sentido metafísico, lógico e matemático.
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A distinção entre a possibilidade geral de um gênero de fatos e a veracidade de exemplos particulares, cuja crítica cabe aos experimentadores e é irrelevante para o ponto de vista adotado.
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A existência de testemunhos de fenômenos anteriores ao espiritismo e oriundos de meios onde ele é desconhecido como prova de que tais fenômenos independem da doutrina espírita.
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A ocorrência de fraudes nas sessões espíritas, reconhecida pelos próprios espíritas, não constitui argumento para negar a realidade de todos os fenômenos, pois a fraude é sempre imitação de algo real e os casos de simulação podem ser explicados por fatores como o interesse financeiro do médium profissional, a vaidade, ou, mais profundamente, por estados patológicos que levam a mentiras automáticas ou inconscientes, fruto de auto-sugestão ou sugestão do meio.
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A constatação de que a existência de fraudes não implica que tudo seja fraude, pois a simulação pressupõe um modelo real.
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A classificação das fraudes: as conscientes, por interesse ou vaidade; as semiconscientes, devidas a impulsos mórbidos; e as inconscientes, resultantes de auto-sugestão ou sugestão do meio.
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A observação de que a psicologia anormal dos médiums, que explica essas simulações, carece de estudos aprofundados.
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O estudo dos fenômenos pode ser empreendido de forma independente das teorias espíritas pelos chamados psiquistas, que se pretendem experimentadores sem ideias preconcebidas, embora a própria denominação fenômenos psíquicos seja inadequada por sua vagueza e por não corresponder à psicologia clássica, e a tentativa de criar termos como metapsíquica seja condenável por sua falsa analogia com a metafísica, que é de ordem inteiramente distinta.
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A existência de uma corrente de experimentadores, os psiquistas, que estudam os fenômenos sem necessariamente aderir às teorias espíritas.
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A crítica à terminologia: psíquico é vago e não se confunde com psicológico; metapsíquica é um termo mal formado por analogia ilegítima com metafísica.
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A ressalva de que a metafísica, por definição, está além de qualquer experiência possível, não podendo ser confundida com o estudo de fenômenos, que é de ordem física.
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O domínio do psiquismo é mais vasto que o dos fenômenos espíritas, abrangendo fatos como os de telepatia, que são manifestações de seres vivos e nada têm a ver com espíritos de mortos, embora os espíritas, por seu espírito invasor, tentem anexar toda sorte de fenômenos, inclusive os do magnetismo e do hipnotismo, criando confusões no público e contribuindo para que se percam as distinções necessárias.
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A extensão do domínio psíquico a fenômenos como a telepatia, que são manifestações de vivos e não de mortos.
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A crítica à pretensão dos espíritas de se apropriarem de fenômenos alheios às suas práticas e teorias, como os do magnetismo e hipnotismo.
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A contribuição dessa atitude invasora para as confusões do público, que chega a identificar espiritismo com magnetismo e hipnotismo.
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A observação de que fenômenos como a encarnação, nas sessões espíritas, não passam de casos de estados segundos, explicáveis pela sugestão e pelo magnetismo, sem necessidade da hipótese espírita.
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As dificuldades do psiquismo como ciência experimental residem não apenas na ignorância sobre as forças em jogo, mas sobretudo na inadequação dos métodos científicos habituais para lidar com fenômenos que não se repetem à vontade e que exigem condições especiais, o que torna os cientistas especialistas, apesar de sua competência em seus domínios, particularmente vulneráveis a mistificações e a perigosos desvios, inclusive a adesão ao espiritismo, por falta de uma direção doutrinal segura.
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A incompetência dos cientistas especialistas fora de seu domínio restrito, exemplificada por casos como o de Crookes e Richet, que se deixaram mistificar.
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A inadequação dos métodos experimentais para fenômenos que não obedecem às condições habituais de reprodutibilidade e controle.
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O perigo de, ao experimentar com forças desconhecidas sem a devida direção doutrinal, sofrer graves desvios, incluindo a perda da razão ou a conversão ao espiritismo.
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A propensão dos psiquistas de mentalidade fenomênica a aceitar a hipótese espírita como possível, o que os torna vulneráveis à influência sugestiva do meio mediúnico e a incidentes sentimentais, levando-os a aderir ao espiritismo, ainda que muitos o ocultem por receio de descrédito.
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Além da adesão ao espiritismo, muitos psiquistas manifestam afinidades com o neoespiritualismo em geral, seja filiando-se à Sociedade Teosófica, como Crookes, seja exibindo tendências anticatólicas e antirreligiosas, como Gibier, ou ainda professando um cientificismo que beira o misticismo, o que revela que o domínio mal conhecido do psiquismo favorece o extravio intelectual e a aproximação com as doutrinas que se propõe a estudar.
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A menção a psiquistas que aderiram à Sociedade Teosófica, como Crookes, e a outros que, como Richet, tiveram passagem por ela ou manifestaram tendências humanitárias afins ao neoespiritualismo.
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A citação de Gibier como exemplo de psiquista com tendências anticatólicas e antirreligiosas, expressando um cientificismo que beira o misticismo.
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A observação de que essas tendências, embora pareçam distantes, são formas de desequilíbrio intelectual análogas às aberrações neoespiritualistas.
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Os filósofos que se dedicam ao psiquismo não estão imunes aos mesmos perigos, como demonstram os casos de William James, que no fim da vida admitiu a possibilidade da hipótese espírita e fez promessas de comunicação post mortem, e de Bergson, cuja declaração sobre a probabilidade da sobrevivência é inquietante e revela o quanto a filosofia, tanto quanto a ciência, é incapaz de compreender a impossibilidade da hipótese espírita.
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O exemplo de William James, cuja promessa de comunicar-se após a morte e cujas variações de ideias o aproximaram do espiritismo no fim da vida.
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A referência à declaração de Bergson sobre a possibilidade de estabelecer a probabilidade da sobrevivência, considerada uma posição perigosa e reveladora da impotência da filosofia diante do problema.
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A maioria dos psiquistas, na França, sofreu forte influência do ocultismo, como evidenciam as teorias de estudiosos como Grasset, Durand de Gros, Dupouy, Baraduc e de Rochas, o que leva à conclusão de que, embora em direito o psiquismo seja independente de qualquer teoria neoespiritualista, na prática os psiquistas são frequentemente neoespiritualistas mais ou menos conscientes, um estado de coisas que desacredita esses estudos e abre campo para charlatães e desequilibrados.
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A enumeração de psiquistas franceses (Grasset, Durand de Gros, Dupouy, Baraduc, de Rochas) cujas teorias se aproximam do ocultismo.
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A conclusão de que, de direito, o psiquismo pode ser independente de toda teoria, mas, de fato, os psiquistas são, em sua maioria, neoespiritualistas, o que prejudica o crédito desses estudos.
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