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QUALIDADE E QUANTIDADE
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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A relação de complementaridade entre qualidade e quantidade fundamenta-se na correspondência profunda entre a essência e a substância, princípios que constituem a primeira de todas as dualidades cósmicas e que a doutrina hindu identifica como Purusha e Prakriti.
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A dualidade entre essência e substância é o princípio fundamental da manifestação universal, sem a qual nenhuma existência seria possível em qualquer modo ou grau.
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Os termos essência e substância são aplicados analogicamente em níveis relativos para designar o que representa esses princípios em domínios particularizados ou seres individuais.
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No contexto microcósmico, a essência e a substância de um ser são determinações dos princípios universais adaptadas às condições específicas do mundo onde esse ser se manifesta.
A constituição de todo ser manifestado resulta da união entre forma e matéria, termos que a filosofia escolástica utiliza como equivalentes de essência e substância e que encontram correspondência direta nas noções de nama e rupa da tradição hindu.-
O emprego dos termos aristotélicos ato e potência também se refere à essência e à substância, sendo o ato a participação do ser na essência e a potência a sua participação na substância.
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A forma e a matéria, ou o ato e a potência, nunca se encontram em estado puro na manifestação, pois representam os polos ideais da existência universal.
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A preferência pela terminologia de essência e substância visa evitar as ambiguidades modernas e as imperfeições da língua latina associadas aos termos forma e matéria.
No domínio do ser individual humano, a essência e a substância manifestam-se respectivamente sob os aspectos da qualidade e da quantidade, sendo a qualidade a síntese dos atributos que definem a natureza do ser.-
A qualidade, enquanto conteúdo da essência, pode ser transposta universalmente para além das condições do mundo humano, como ocorre na teologia ao tratar dos atributos de Deus.
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A quantidade é uma condição estritamente ligada ao mundo sensível, sendo inconcebível a sua transposição para o domínio do princípio divino.
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Aristóteles inclui tanto a qualidade quanto a quantidade em suas categorias por considerar apenas as condições imediatas do mundo humano, sem proceder à transposição universal da qualidade.
O aspecto qualitativo da manifestação identifica-se com os arquétipos ou ideias, termos que em Platão representam as essências transcendentes e em Aristóteles as essências imanentes às coisas.-
O termo eidos, utilizado por Aristóteles para designar a espécie, refere-se a uma natureza puramente qualitativa que é independente do número de indivíduos e não sofre variações de grau.
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As ideias de Platão guardam uma filiação direta com os números de Pitágoras, que devem ser entendidos em sentido qualitativo e analógico, e não como números quantitativos ordinários.
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A oposição entre as perspectivas de Platão e Aristóteles é frequentemente exagerada por comentadores sistemáticos, pois ambos tratam do lado essencial e qualitativo da manifestação em níveis distintos.
A quantidade vincula-se ao lado substancial da existência, conforme a máxima de São Tomás de Aquino de que o número reside no lado da matéria, entendendo-se aqui matéria como a substância ou potencialidade pura.-
O conceito escolástico de materia prima é o equivalente de Prakriti na doutrina hindu, representando o polo passivo e puramente potencial da manifestação universal.
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A obscuridade que envolve o termo matéria decorre de sua natureza substancial e foi agravada pelos desvios conceituais da física moderna.
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A análise da relação entre quantidade e substância exige uma investigação sobre os diferentes sentidos do termo matéria, questão que se situa na raiz do estudo da crise do mundo moderno.
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