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O DUPLO SENTIDO DO ANONIMATO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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O anonimato nas obras de arte tradicional, como as do período medieval, opõe-se radicalmente ao anonimato dos produtos industriais modernos, pois, embora ambos compartilhem a ausência de nomeação individual, procedem de causas inversas por força da analogia.
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O individualismo moderno busca retroativamente atribuir nomes a obras tradicionais, ignorando que o artista antigo não buscava a afirmação de sua personalidade, mas a conformidade a princípios superiores.
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A distinção entre o estar fora das castas como ativarna (acima) ou avarna (abaixo) ilustra como o anonimato pode ser supra-humano, pela transcendência do ego, ou infra-humano, pela redução à massa.
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O anonimato tradicional caracteriza-se pela elevação ao supra-humano, enquanto o anonimato moderno refere-se à queda no infra-humano e na multiplicidade puramente quantitativa das massas.
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O verdadeiro anonimato tradicional decorre da realização de estados supraindividuais, nos quais o ser se liberta das condições limitativas de nome e forma (nama-rupa) para que o ego desapareça diante do Si-mesmo.
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A prática do anonimato em instituições monásticas cristãs ou budistas permanece como um vestígio do esforço para imitar a vacuidade do eu e participar da ordem principial.
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Nas sociedades tradicionais, onde não existe a distinção entre sagrado e profano, o anonimato do artifex é a regra necessária para a realização de uma atividade que possui caráter ritual e sacerdotal.
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A submissão ao anonimato permite que a atividade humana seja integrada à tradição, servindo como suporte para a transformação espiritual do indivíduo.
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A conformidade da obra à natureza própria do artifex não contradiz o anonimato, pois a extinção do eu (Moksha ou Nirvana) não representa uma aniquilação, mas uma sublimação das possibilidades essenciais do ser.
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O artifex produz sua obra exercendo uma função orgânica e não mecânica, identificando-se com o papel que ocupa na organização tradicional.
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A identificação com a função social e profissional é o meio de ascese pelo qual a individualidade exterior (nama-gotra) é sacrificada em favor da participação na ordem universal.
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O anonimato relativo manifesta-se no desaparecimento do indivíduo profano durante o exercício do ofício, especialmente quando este é fundamentado em uma via iniciática.
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O anonimato industrial reduz o trabalhador a uma unidade numérica permutável e desprovida de nome real, uma vez que sua produção é mecânica e não expressa qualquer qualidade essencial de sua natureza.
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O operário moderno é um corpo sem alma no sentido literal, pois seu aspecto qualitativo (nama) foi esvaziado, restando apenas o aspecto substancial ou corporal (rupa).
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A tendência igualitária e uniformizadora da modernidade busca transformar todos os indivíduos em unidades numéricas equivalentes, realizando a igualdade pelo nível mais baixo da manifestação.
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A atividade industrial não reflete nada de supra-humano, tendendo, ao contrário, para a modalidade puramente quantitativa que caracteriza o infra-humano.
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A confusão dos indivíduos na massa quantitativa representa uma paródia satânica da fusão dos seres na unidade principial, assemelhando-se à indistinção potencial do caos.
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Na unidade principial, a distinção qualitativa atinge seu grau supremo em uma total ausência de separação; na quantidade pura, a separação é máxima sob uma aparência de uniformidade.
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A redução do indivíduo ao seu aspecto substancial aproxima-o de uma matéria sem forma, onde a realidade positiva da individualidade é ameaçada por uma dissolução final.
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O ideal de uniformidade moderna é uma inversão da unidade real, substituindo a plenitude do Si-mesmo pelo vazio de uma coletividade puramente aritmética e inerte.
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