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A UNIFORMIDADE CONTRA A UNIDADE
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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A manifestação universal afasta-se progressivamente da unidade principial em direção ao polo substancial, resultando em existências cada vez menos qualitativas e mais quantitativas, aproximando-se da multiplicidade atômica e puramente numérica.
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A unidade essencial contém sinteticamente todas as determinações qualitativas, enquanto a quantidade pura implica uma multiplicidade desprovida de distinções internas.
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Geometricamente, esse domínio pode ser figurado por um triângulo: o vértice representa a qualidade pura (unidade), e a base representa a quantidade pura (multiplicidade indefinida).
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O estado atual do mundo corresponde a um nível de afastamento tal que o vértice (qualidade) é perdido de vista, tendendo para uma base que, embora inalcançável na manifestação, exerce uma atração constante.
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O princípio dos indiscerníveis, formulado por Leibniz, estabelece que não existem no universo dois seres idênticos, pois a repetição é impossível na ilimitação da possibilidade universal e a identidade absoluta fundiria dois entes em um só.
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A distinção entre os seres exige necessariamente uma diferença qualitativa, o que prova que a quantidade pura está abaixo de toda existência manifestada.
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Leibniz argumenta que entes que diferissem apenas pelo número (solo numero) não seriam propriamente seres, mas entes de razão (entia rationis) sem existência real.
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A definição leibniziana de espaço como ordem de coexistência e tempo como ordem de sucessão é insuficiente por reduzi-los a esquemas lógicos homogêneos, ignorando sua natureza ontológica como condições da existência corpórea.
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A uniformidade absoluta é irrealizável na prática, mas os esforços modernos para atingi-la resultam na despojação das qualidades dos seres, transformando-os em unidades mecânicas similares a máquinas.
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As concepções democráticas e igualitárias partem do absurdo de que os indivíduos são equivalentes, o que nega a diversidade natural das aptidões.
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O nivelamento social e educacional opera sempre por baixo, sufocando possibilidades superiores para impor um padrão uniforme que se aproxima da matéria bruta.
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A imposição desse modelo ao mundo inteiro pela civilização ocidental não gera unificação, mas sim uma uniformização paródica que acentua a separabilidade e a fragmentação.
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A indústria moderna representa o triunfo da quantidade sobre a qualidade, tanto nos seus métodos e ferramentas quanto no produto final e na atividade humana que ela exige.
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A máquina é o instrumento que minimiza a intervenção qualitativa, reduzindo o operador a uma função puramente mecânica e repetitiva.
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O ideal moderno inverte o sentido original da ideia (no sentido platônico), dirigindo a aspiração humana para o polo inferior da substância em vez do polo superior da essência.
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A modificação artificial do mundo pela técnica moderna só é possível porque o próprio meio terrestre sofreu um amofinamento qualitativo decorrente das condições cósmicas atuais.
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As transformações artificiais realizadas pelo homem contemporâneo pressupõem modificações naturais no ambiente cósmico, em virtude da correlação constante entre a ordem humana e a ordem cíclica do tempo.
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A eficácia da ação técnica atual sugere que a natureza do ambiente mudou em relação a épocas anteriores, tornando-se mais vulnerável às determinações quantitativas.
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A miopia intelectual da ciência profana impede-a de reconhecer essas mudanças cíclicas, aprisionando-a em barreiras temporais que ela considera universais.
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O conhecimento das determinações qualitativas do tempo permite compreender que o passado e o futuro se correspondem analogicamente, sem necessidade de faculdades divinatórias.
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