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RUMO À DISSOLUÇÃO

REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS

  • A marcha do fim do ciclo exige distinguir duas tendências simultâneas e apenas aparentemente contraditórias: solidificação e dissolução.
    • A solidificação já dominou e estruturou a época materialista.
    • A dissolução corresponde necessariamente ao termo de toda manifestação cíclica.
    • A dissolução parece tornar-se predominante já no presente.
    • A passagem de predominância indica que o máximo de “solidez” efetiva foi ultrapassado.
  • O materialismo, forma mais grosseira da solidificação, perde terreno nas teorias científicas e filosóficas, embora persista na mentalidade comum.
    • A noção de matéria começa a dissolver-se nas teorias recentes.
    • A segurança típica da vida ordinária enfraquece com a aceleração dos acontecimentos.
    • A instabilidade torna-se impressão dominante em todos os domínios.
    • A solidez implica estabilidade, e a instabilidade generalizada aponta para a dissolução.
  • A aceleração do tempo intensifica a dissolução sem alterar a direção descendente do ciclo.
    • A rapidez crescente das mudanças conduz espontaneamente a estados mais instáveis.
    • As teorias físicas tornam-se mais quantitativas e mais matemáticas.
    • Quanto mais “convencionais” e quantitativas, mais se afastam do sensível que pretendem explicar.
    • A quantidade pura situa-se abaixo da realidade sensível, não acima dela.
  • O sólido, mesmo no máximo de densidade, não se confunde com quantidade pura, pois conserva elementos qualitativos e implica espacialidade.
    • A corporeidade supõe espaço, ainda que comprimido.
    • O espaço não é assimilável à quantidade pura.
    • Mesmo reduzindo corpo a extensão, permanece a quantidade contínua.
    • A quantidade discreta, o número, é o modo mais próximo da quantidade pura.
    • A passagem ao discreto rompe a condição própria do sólido e do corporal.
  • A redução total ao quantitativo tem um limiar em que deixa de produzir solidificação e passa a produzir dissolução.
    • Reduzir o contínuo ao discreto conduz à impossibilidade de subsistência dos corpos como tais.
    • O mundo corporal resolve-se numa poeira “atômica” sem consistência.
    • Essa forma de dissolução pode ser figurada como pulverização.
    • A pulverização ainda deixa resíduos, mesmo impalpáveis.
    • A dissolução plena do ciclo exige desaparecimento completo do manifestado enquanto tal.
    • Por isso, além de pulverização, a dissolução pode ser concebida como volatilização.
  • Na consumação do ciclo, os resultados dividem-se em dois destinos complementares: fixação superior e rejeição inferior.
    • Os resultados positivos são cristalizados e depois sublimados.
    • A cristalização prepara a transmutação em germes do ciclo futuro.
    • O que não pode ser utilizado é precipitado como caput mortuum.
    • Esse resíduo cai nos prolongamentos mais inferiores do estado individual.
    • Trata-se de uma zona sutil infra-corporal.
    • Em ambos os casos, há passagem para modalidades extra-corporais.
    • Assim, a manifestação corporal do ciclo evapora-se integralmente como tal.
    • O duplo par hermético se impõe: coagulação e solução em ambos os lados.
    • No lado benéfico: cristalização e sublimação.
    • No lado maléfico: precipitação e retorno à indistinção caótica.
  • A dissolução não se efetiva apenas pela continuação automática do reino da quantidade; requer intervenção mais diretamente eficaz de influências sutis.
    • A intensificação quantitativa descreve uma visão teórica parcial e unilateral.
    • Para desfazer os “nós” produzidos pela solidificação é preciso ação extrínseca a esse domínio restrito.
    • Esses nós evocam coagulações de ordem mágica.
    • A ação decisiva provém de influências sutis já atuantes há muito no mundo moderno.
    • Magnetismo e espiritismo ilustram a coexistência precoce desse fator com o materialismo.
    • A diminuição do materialismo não constitui melhora, mas passagem de fase.
  • As fissuras que se abrem no sistema fechado só podem abrir-se “por baixo”, trazendo interferências do psiquismo cósmico inferior.
    • O que interfere no sensível provém do inferior sutil, não do superior.
    • Essas influências inferiores são as verdadeiramente aptas a operar a dissolução.
    • Favorecer tais interferências corresponde a etapa mais avançada da perdição.
    • O materialismo foi um estágio menos avançado, embora parecesse dominante.
  • Alguns tradicionalistas celebram erroneamente a saída parcial do materialismo e a abertura às influências sutis, sem julgar sua qualidade.
    • Imaginam conciliação futura entre ciência profana e ciência tradicional.
    • Tal conciliação é impossível por razões de princípio.
    • Confundem ciência tradicional com deformações modernas e pseudo-tradicionais.
    • Depositam esperanças na metapsíquica como remédio ao mundo moderno.
    • Atribuem os males exclusivamente ao materialismo, erro que encobre a fase seguinte.
  • O plano da perdição exige ir além da negação materialista: liberar forças inferiores para consumar a dissolução.
    • O materialismo interditou o acesso às possibilidades superiores.
    • A negação pura torna-se insuficiente para completar a obra de dissolução.
    • O desencadeamento de forças inferiores é o instrumento final do desordenamento.
    • Trata-se de desenvolvimento lógico, porém de lógica “diabólica”.
  • O materialismo oferece imunidade limitada, pois sua espessura bloqueia influências sutis indistintamente, produzindo sensação de segurança.
    • A segurança do materialista provém do fechamento na “concha”.
    • A concha é composta por teorias convencionais e hábitos mentais.
    • O endurecimento repercute na constituição psico-fisiológica.
    • Abrir a concha por baixo permite entrada imediata de influências destrutivas.
    • A preparação materialista removeu qualquer proteção superior.
    • A fase materialista foi sobretudo preparação teórica.
    • A fase do psiquismo inferior constitui pseudo-realização invertida.
    • A segurança da vida ordinária revela-se ilusão já ameaçada.
    • Substituir essa ilusão por outra é pior se conduz a espiritualidade ao revés.
    • Os movimentos neo-espiritualistas são precursores ainda fracos dessa subversão.
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