guenon:rqst:xxxiii
O INTUICIONISMO CONTEMPORÂNEO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
-
As tendências filosóficas e psicológicas que caracterizam a segunda fase da ação antitradicional manifestam-se no apelo ao “subconsciente” e aos elementos psíquicos inferiores, exemplificadas pelo intuicionismo bergsoniano, que, em vez de buscar acima da razão o remédio para suas insuficiências, o procura abaixo dela, invocando uma pretensa intuição de ordem sensitiva e vital que se afina com o neo-espiritualismo na direção do infra-humano.
-
As tendências da segunda fase da ação antitradicional traduzem-se, na filosofia e na psicologia, pelo apelo ao “subconsciente” e aos elementos psíquicos mais inferiores do ser humano, como nas teorias de William James e no “intuicionismo” bergsoniano.
-
A crítica de Bergson ao racionalismo, embora justa, é pouco clara, e a parte “positiva” de sua filosofia busca abaixo da razão o que deveria remediar suas insuficiências, invocando uma pretensa “intuição” de ordem sensitiva e “vital” que mistura intuição sensível com as forças mais obscuras do instinto e do sentimento.
-
Este “intuicionismo” tem afinidades manifestas com o “neo-espiritualismo”, pois ambos são expressões diferentes das mesmas tendências: a atitude de um em relação ao racionalismo é paralela à do outro em relação ao materialismo, tendendo um ao “infra-racional” e o outro ao “infra-corpóreo”, sempre na direção do “infra-humano”.
As filosofias de caráter evolucionista, como a bergsoniana, ao colocarem toda a realidade no devir exclusivo, negam todo princípio imutável e a metafísica, assumindo uma aparência fugidia que contrasta com a solidificação racionalista e prenuncia a dissolução final, o que se evidencia na forma como reduzem a religião a um fato puramente humano, buscando combinar explicações psicológicas e sociológicas para distinguir uma pretensa religião “dinâmica” de uma “estática”.-
As teorias intuicionistas têm um caráter integralmente “evolucionista”, colocando toda a realidade no “devir” exclusivo, o que é a negação formal de todo princípio imutável e da metafísica, dando-lhes uma aparência fugidia e inconsistente que prenuncia a dissolução de todas as coisas no “caos” final.
-
A forma como a religião é envisada por essas filosofias, particularmente na obra de Bergson, ilustra essa tendência, pois todas as teorias modernas sobre a religião compartilham o traço comum de reduzi-la a um fato puramente humano, negando sua essência.
-
As teorias sobre a religião dividem-se em dois tipos principais: o “psicológico”, que a explica pela natureza do indivíduo, e o “sociológico”, que a vê como um produto da consciência coletiva.
-
Bergson combina esses dois tipos de explicação, aceitando ambos mas reportando-os a coisas diferentes designadas pelo mesmo nome de “religião”, distinguindo uma religião “estática” (ou “fechada”), de natureza social, e uma religião “dinâmica” (ou “aberta”), de natureza psicológica, à qual confere superioridade por estar de acordo com sua filosofia do devir.
A pretensa religião “dinâmica” de Bergson, desprovida de dogmas, ritos e moral, esvazia-se em uma vaga “religiosidade” de aspiração confusa, semelhante à experiência religiosa de William James, e encontra sua mais alta expressão em um “misticismo” mal compreendido, valorizado por seu caráter individual e propenso à divagação, enquanto ignora a base do misticismo propriamente dito que é seu vínculo com uma religião “estática”.-
A religião “dinâmica” de Bergson não possui dogmas (por serem imutáveis), nem ritos (pelo mesmo motivo e por seu caráter social), e a moral é posta à parte, restando apenas uma vaga “religiosidade”, uma aspiração confusa para um “ideal”, próxima da dos modernistas e protestantes liberais e da “experiência religiosa” de William James.
-
Bergson toma essa “religiosidade” por uma religião superior, crendo “sublimar” a religião quando na verdade a esvaziou de todo conteúdo positivo, pois é tudo o que uma teoria psicológica pode extrair do “sentimento religioso”, que não é a religião.
-
Essa “religião dinâmica” encontra sua mais alta expressão no “misticismo”, compreendido por seu pior lado, o que há de individual, vago e “anárquico”, com exemplos em ensinamentos de inspiração ocultista e teosofista.
-
O que agrada Bergson nos místicos é a tendência à “divagação”, e ele negligencia a base do misticismo propriamente dito, que é seu vínculo com uma “religião estática”, algo que o incomoda e que ele explica de forma embaraçada.
Em relação à religião “estática”, Bergson aceita acriticamente as explicações da escola sociológica sobre suas origens, atribuindo um papel central a uma pretensa “função fabuladora”, e, no que concerne à magia, embora a distinga da religião e a oponha à ciência, suas considerações invertem a verdade ao ignorar a realidade da magia como uma ciência particular e ao negar a priori sua eficácia com base em preconceitos modernos.-
Bergson aceita todas as narrativas da escola sociológica sobre as origens da religião “estática”, incluindo noções como “magia”, “totemismo” e “tabu”, e atribui a isso uma pretensa “função fabuladora”.
-
Sobre a magia, Bergson lhe busca uma “origem psicológica”, definindo-a como a “exteriorização de um desejo”, e afirma que magia e religião se relacionam, mas que a magia não tem nada em comum com a ciência, sendo, ao contrário, o inverso da ciência e um obstáculo contra o qual o saber metódico teve que lutar.
-
Essas afirmações invertem a verdade, pois a magia não tem relação com a religião e é uma ciência particular entre as outras, mas Bergson, convencido de que só existem as ciências enumeradas pelas classificações modernas, nega a priori a realidade das operações mágicas.
-
Bergson afirma que, se a inteligência “primitiva” tivesse concebido princípios mágicos, a experiência lhes teria demonstrado a falsidade, negando a possibilidade de que a experiência pudesse confirmar a eficácia da magia, tamanha a força de suas ideias preconcebidas e a limitação do mundo à medida de suas concepções.
O intuicionismo bergsoniano revela sua conexão efetiva com a segunda fase da ação antitradicional ao aceitar como reais, sem reconhecê-los, os fenômenos mágicos em sua forma mais baixa, reemergentes através das “fissuras” do mundo moderno sob o disfarce da “ciência psíquica”, chegando a atribuir a essa “magia” disfarçada um papel capital para o futuro de sua “religião dinâmica” e a aderir à teoria espírita da sobrevivência, demonstrando completa falta de discernimento e servindo como “intermediário” inconsciente para iludir outros.-
A magia, reemergente na época atual através das recentes “fissuras” do mundo, em sua forma mais baixa e rudimentar sob o disfarce da “ciência psíquica” ou “metapsíquica”, consegue ser admitida por Bergson como real e como devendo desempenhar um papel capital para o futuro de sua “religião dinâmica”.
-
Bergson fala de “sobrevivência” como um espírita, crendo em um “aprofundamento experimental” que permite concluir pela possibilidade e probabilidade da sobrevivência da alma, e proclama que a certeza absoluta da sobrevivência converteria a crença no além em realidade vivaz e agente.
-
A interpretação que Bergson faz desses fenômenos elementares é pura e simplesmente a teoria espírita, que ele, como William James, acaba aceitando com uma “alegria” que faz “empalidecer todos os prazeres”, fixando o grau de discernimento de que é capaz.
-
Os filósofos profanos, nesses casos, geralmente desempenham o papel de duplos e servem como “intermediários” inconscientes para enganar muitos outros, e essa aceitação da “superstição” espírita dá a justa medida do valor real de toda essa “filosofia nova”.
guenon/rqst/xxxiii.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
