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A GRANDE PARÓDIA OU A ESPIRITUALIDADE AO CONTRÁRIO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
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O triunfo aparente e momentâneo da “contratradição” consistirá no reinado da “espiritualidade ao revés”, uma paródia da espiritualidade que, ao contrário do que parece, não lhe é simétrica ou equivalente, sendo erro fundamental a concepção maniqueísta de dois princípios opostos em luta, pois tal dualidade nega a Unidade suprema, concepção que a “contra-iniciação” necessita difundir para se fazer passar por algo que não é.
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A constituição e triunfo aparente da “contratradição” serão o reinado da “espiritualidade ao revés”, uma paródia da espiritualidade que imita em sentido inverso, parecendo ser seu contrário, mas sem que haja simetria ou equivalência possível.
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Muitos se enganam com as aparências e imaginam dois princípios opostos disputando a supremacia, concepção maniqueísta que, em linguagem teológica, coloca Satanás ao mesmo nível que Deus, negando a Unidade suprema que está para além de todas as oposições.
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A “contra-iniciação” difunde essa concepção para fazer-se passar por representante de algo que pudesse ser equiparado à espiritualidade e até superá-la, o que é necessário para seu propósito, embora o domínio metafísico lhe seja completamente fechado.
A “espiritualidade ao revés”, a falsa espiritualidade em seu grau mais extremo, é o “renovo espiritual” e a “era nova” anunciados insistentemente, cuja vinda é preparada pelo estado de “espera” criado pela difusão de predições e pelo atrativo do “fenômeno”, que iludirá a maioria dos homens, tal como os “grandes prodígios” dos falsos profetas, demonstrando que os fenômenos, por si sós, nada provam quanto à verdade de uma doutrina, sendo o domínio da “grande ilusão”, onde a imitação pode ser perfeita.-
A “espiritualidade ao revés” é o “renovo espiritual” e a “era nova” cujo próximo advento é insistentemente anunciado, e que o estado de “espera” geral contribui para apressar.
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O atrativo do “fenômeno”, fator determinante na confusão do psíquico com o espiritual, será o meio pelo qual a maioria dos homens será iludida no tempo da “contratradição”, conforme a palavra sobre os falsos profetas que farão “grandes prodígios”.
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As manifestações da metapsíquica e do neo-espiritualismo são uma “prefiguração” do que virá, com a ação das mesmas forças sutis inferiores, mas com potência incomparavelmente maior.
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Os “fenômenos”, em si mesmos, não provam nada quanto à verdade de uma doutrina, pois podem ser simulados por forças inferiores; é o domínio da “grande ilusão”, onde a imitação pode ser perfeita, e a diferença está apenas na natureza das causas, que a maioria é incapaz de discernir.
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A mentalidade “experimental” dos contemporâneos, moldada pelo cientificismo da “antitradição”, torna-se um fator que contribui eficazmente para o sucesso da “contratradição”.
O neo-espiritualismo e a pseudo-iniciação que dele procede são uma “prefiguração” parcial da “contratradição” também pelo uso de elementos tradicionalmente autênticos, mas desviados de seu sentido, preparando a inversão completa que a caracterizará, a qual incluirá, no domínio social, a contrafação de uma organização como a do “Santo Império”, encarnada pelo Anticristo como um Chakravartî ao revés.-
O neo-espiritualismo e a pseudo-iniciação são uma “prefiguração” parcial da “contratradição” pela utilização de elementos autenticamente tradicionais, mas desviados de seu sentido, preparando a inversão completa que a caracterizará.
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A “contra-iniciação”, embora consciente da falsidade das ideias modernas da fase negativa da “antitradição”, as utiliza como fase transitória para preparar a vinda da “contratradição”, um resultado mais “positivo”.
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Já se esboça em produções de origem “contra-iniciática” a ideia de uma organização que seria a contrafação de uma concepção tradicional como a do “Santo Império”, expressão da “contratradição” na ordem social.
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É por isso que o Anticristo deve aparecer como o que se pode chamar, na linguagem da tradição hindu, um Chakravartî ao revés.
O reino da “contratradição” é exatamente o “reino do Anticristo”, que concentrará em si todas as potências da “contra-iniciação”, seja como indivíduo ou coletividade, sendo a “grande paródia”, a imitação caricatural e satânica de tudo o que é tradicional e espiritual, sob o pretexto de uma falsa “restauração espiritual”, reintroduzindo a qualidade em todas as coisas, mas uma qualidade tomada ao revés, numa “contra-hierarquia” cujo cume será ocupado pelo ser mais próximo dos “abismos infernais”.-
O reino da “contratradição” é o “reino do Anticristo”, que concentrará e sintetizará em si todas as potências da “contra-iniciação”, podendo ser concebido como um indivíduo ou uma coletividade, ou ambos.
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Será um “impostor” (dajjâl), a “grande paródia”, a imitação caricatural e satânica de tudo o que é tradicional e espiritual.
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Não será o “reino da quantidade” (fim da antitradição), mas, sob o pretexto de uma falsa “restauração espiritual”, uma reintrodução da qualidade em todas as coisas, porém de uma qualidade tomada ao revés de seu valor normal.
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Após o “igualitarismo” moderno, haverá uma hierarquia visível, mas uma “contra-hierarquia”, cujo cume será ocupado pelo ser que mais de perto toca o fundo dos “abismos infernais”.
O Anticristo, mesmo sob a forma de um personagem determinado, será menos um indivíduo que um símbolo, a síntese de todo o simbolismo invertido da “contra-iniciação”, encarnando a falsidade em seu mais extremo grau, o que se manifesta nas descrições simbólicas de suas deformidades, marcas visíveis de seu desequilíbrio interior e de sua proximidade da desintegração, constituindo a “qualificação” inversa para o cume da “contra-hierarquia”, num “mundo invertido” onde a “contratradição”, artificial e mecânica, feita de “resíduos” animados por uma vontade infernal, se situa nos confins da dissolução.-
O Anticristo, mesmo como personagem determinado, será menos um indivíduo que um símbolo, a síntese de todo o simbolismo invertido da “contra-iniciação”, encarnando a falsidade em seu mais extremo grau.
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É por essa extrema oposição ao verdadeiro que ele pode tomar os símbolos do Messias, mas num sentido oposto, sendo a substituição do aspecto benéfico pelo maléfico a sua marca característica.
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As descrições simbólicas insistem nas dissimetrias corpóreas, marcas visíveis de seu desequilíbrio interior, que são “desqualificações” iniciáticas, mas “qualificações” para a “contra-iniciação”, que vai no sentido de um aumento do desequilíbrio até a desintegração.
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O Anticristo, com sua individualidade monstruosamente desenvolvida mas quase aniquilada, realiza o inverso do desaparecimento do “eu” diante do “Si”, a confusão no “caos” em vez da fusão na Unidade, situando-se no limite inferior das possibilidades do estado individual.
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O cume da “contra-hierarquia” é o lugar que lhe cabe nesse “mundo invertido”.
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Como representante da “contratradição”, o Anticristo é necessariamente disforme, pois é uma caricatura, uma “marca do diabo” que permite, aos “eleitos” ao menos, distingui-la da verdadeira tradição.
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A “contratradição” terá o caráter “mecânico” das produções do mundo moderno, algo comparável ao automatismo dos “cadáveres psíquicos”, feita de “resíduos” animados artificialmente, nos confins da dissolução.
Chega-se, com a “contratradição”, ao último termo da ação antitradicional que conduz este mundo ao seu fim, após o qual, para atingir o momento final do ciclo atual, só pode haver o “endireitamento”, que, subitamente, porá todas as coisas em seu lugar normal e preparará a “idade de ouro” do ciclo futuro.-
Chega-se, com a “contratradição”, ao último termo da ação antitradicional que conduz este mundo ao seu fim.
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Após esse reinado passageiro da “contratradição”, só pode haver, para atingir o momento final do ciclo atual, o “endireitamento”, que, pondo subitamente todas as coisas em seu lugar normal, preparará a “idade de ouro” do ciclo futuro.
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