guenon:rqst:xxxviii
DA ANTITRADIÇÃO À CONTRA-TRADIÇÃO
REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS
-
As manifestações contemporâneas de falsificação da ideia tradicional, mais do que uma simples negação da tradição (antitradição), prenunciam a constituição de uma “contratradição”, que corresponderia à segunda fase da ação antitradicional, a subversão, cujo triunfo aparente, no entanto, segundo todas as profecias autênticas, será apenas passageiro, sendo destruído por uma intervenção espiritual que preparará o “endireitamento” final, o que impede a fixação de datas precisas para não contribuir para a inquietação atual.
-
As falsificações modernas da ideia tradicional vão além da mera negação da tradição (antitradição) e tendem a constituir uma “contratradição”, distinção análoga à entre desvio e subversão.
-
A “antitradição” teve sua expressão máxima no materialismo “integral” do fim do século XIX, enquanto a “contratradição” se anuncia pelos sinais precursores da contrafação da ideia tradicional.
-
Assim como a tendência à “solidificação” (antitradição) não atingiu seu limite extremo, a tendência à dissolução (contratradição) também não o atingirá, pois as condições da manifestação, antes do fim do ciclo, o impedem, e o fim do ciclo supõe o “endireitamento” que transmutará as tendências maléficas em resultado benéfico.
-
Todas as profecias autênticas indicam que o triunfo aparente da “contratradição” será passageiro, e que será destruído, no momento em que parecer mais completo, por uma intervenção espiritual que preparará o “endireitamento” final.
-
A “contra-iniciação”, após trabalhar na sombra para inspirar os movimentos modernos, chegará a “exteriorizar” algo como a contrapartida de uma tradição verdadeira, uma paródia, a mais extrema de todas, da qual as falsificações atuais são apenas “ensaios” parciais e “prefigurações” pálidas.
-
Não se pretende fixar datas, como os amadores de pretensas “profecias”, mesmo que fosse possível pelo conhecimento dos ciclos, pois seria contrário às razões que movem os propagadores de predições e contribuiria para aumentar a inquietação e a desordem.
A “contra-iniciação” distingue-se da mera “pseudo-iniciação” por não ser uma invenção puramente humana, mas sim uma degenerescência extrema da fonte única de toda iniciação, uma inversão que constitui o “satanismo” propriamente dito, cuja origem remonta provavelmente à perversão de antigas civilizações desaparecidas, e que, tendo perdido todo conhecimento do espiritual, conduz os seres, não aos estados supra-humanos, mas inevitavelmente ao “infra-humano”, à via “infernal” do sâher (feiticeiro) que, após fechar-se a porta do alto, opera nas possibilidades sutis inferiores até a desintegração total do ser.-
A “contra-iniciação” não é uma invenção puramente humana como a “pseudo-iniciação”, pois procede, em sua origem, da fonte única de toda iniciação, mas por uma degenerescência extrema até o “renversement” que constitui o “satanismo” propriamente dito.
-
Essa degenerescência é mais profunda que a de uma tradição simplesmente desviada ou morta, devendo remontar muito mais longe no passado, provavelmente à perversão de alguma das antigas civilizações de continentes desaparecidos no decurso do Manvantara atual.
-
Os representantes da “contra-iniciação”, tendo-se fechado para eles o “céu”, são ignorantes de toda verdade espiritual e metafísica, assim como os profanos, mas de modo mais irremediável.
-
Incapaz de conduzir aos estados “supra-humanos” como a iniciação, a “contra-iniciação” conduz inevitavelmente ao “infra-humano”, e é nisso que reside seu poder efetivo.
-
No esoterismo islâmico, aquele que se apresenta a certa “porta” sem via legítima vê essa porta fechar-se e é obrigado a retornar, não como um simples profano, mas como sâher (feiticeiro), operando nas possibilidades sutis inferiores, na via “infernal” que se opõe à via “celeste” e que, sendo uma “realização ao revés”, leva à “desintegração” total do ser consciente.
Para que a imitação por reflexo inverso seja completa, podem constituir-se centros unicamente “psíquicos” (não espirituais) aos quais se ligam as organizações da “contra-iniciação”, centros que, situados no domínio mais próximo da dissolução caótica, estão frequentemente em luta entre si, dando uma impressão de confusão e incoerência, e que, na sua pretensa oposição ao espírito, revelam a “tolice do diabo”: iludem-se ao crer opor-se àquilo a que, na realidade, estão subordinados, sendo instrumentos, ainda que involuntários, do “plano divino”, necessários à ordem total do mundo em seu ciclo de manifestação.-
Para que a imitação por reflexo inverso seja completa, podem constituir-se centros “psíquicos” aos quais se ligam as organizações da “contra-iniciação”, imitando as aparências exteriores dos centros espirituais.
-
Esses centros, por estarem no domínio mais próximo da dissolução “caótica”, onde as oposições se dão livre curso na ausência de um princípio superior harmonizador, estão frequentemente em luta entre si, dando uma impressão de confusão e incoerência que é uma “marca” característica.
-
Eles só se acordam negativamente para a luta contra os verdadeiros centros espirituais, no que se refere ao domínio que não ultrapassa os limites do estado individual.
-
Nisso reside a “tolice do diabo”: os representantes da “contra-iniciação” têm a ilusão de se opor ao espírito, mas estão, de fato, subordinados a ele, quer queiram quer não.
-
Eles são utilizados, contra seu grato, para a realização do “plano divino no domínio humano”, desempenhando o papel que convém à sua própria natureza, mas são conscientes apenas de seu lado negativo e inverso, o que os faz cair nas “trevas exteriores”.
-
Considerados em relação ao conjunto do mundo, eles são necessários à ordem total, como instrumentos “providenciais” da marcha do mundo em seu ciclo de manifestação, pois todos os desordens parciais concorrem para essa ordem.
A constituição de uma “contratradição”, possível graças à natureza da “contra-iniciação”, será eminentemente instável e quase efêmera, mas constitui, em si mesma, a mais temível das possibilidades, sendo o objetivo real e constantemente visado pela “contra-iniciação” após a preparação obrigatória da “antitradição” negativa, restando examinar as modalidades prováveis de sua realização a partir dos indícios concordantes atuais.-
Estas considerações ajudam a compreender como a constituição de uma “contratradição” é possível, mas também por que ela será eminentemente instável e quase efêmera, embora seja, em si mesma, a mais temível das possibilidades.
-
Esse é o objetivo que a “contra-iniciação” sempre se propôs, e a “antitradição” negativa foi a preparação obrigatória para ele.
-
Resta examinar, a partir de diversos indícios concordantes, as modalidades prováveis da realização dessa “contratradição”.
guenon/rqst/xxxviii.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
