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ALIMENTO E ESPIRITUALIDADE
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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O estranhamento moderno diante da relação entre alimentação e espiritualidade decorre da separação habitual entre o mundo material e o espiritual, uma perspectiva que ignora os laços objetivos que unem o homem ao cosmos e este à realidade transcendente, laços que são a base do pensamento analógico e do simbolismo religioso, os quais permitem compreender a universalidade dessa conexão.
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A mentalidade moderna tende a considerar os fatos materiais como totalmente separados do domínio espiritual.
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Ignoram-se os laços objetivos que unem o espírito humano ao mundo material e o mundo material à realidade transcendente.
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Esses laços fundamentam o pensamento analógico e o simbolismo religioso.
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É somente a partir dessa perspectiva que se pode explicar a universalidade da relação entre alimento e espiritualidade.
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A função da alimentação, apesar de sua aparente materialidade, encerra um mistério que remete à natureza do mundo, o que deveria ser particularmente evidente para os povos cristãos, que possuem na Liturgia do Pão e do Vinho o testemunho mais extraordinário da união entre o alimento comum e a mais elevada espiritualidade.
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A alimentação e seu processo fisiológico ocultam um mistério que remete ao mistério da natureza e do mundo em geral.
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A Liturgia cristã do Pão e do Vinho é o testemunho mais extraordinário do vínculo entre o alimento mais comum e a espiritualidade mais alta.
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Existem várias maneiras de abordar a questão dos alimentos sacralizados, como o estudo dos principais alimentos nos cultos, o exame dos tabus ou a análise do sacrifício, mas a abordagem mais eficaz consiste em ir diretamente ao cerne do problema, buscando suas razões na natureza do espírito humano em sua relação com o mundo exterior e com o invisível.
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O estudo dos principais alimentos sacralizados nos cultos religiosos seria uma tarefa enorme e fastidiosa.
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O exame dos tabus alimentares, embora esclarecedor, tomaria o problema por um aspecto secundário.
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O tratamento do tema do sacrifício, embora diretamente relacionado à alimentação, é um assunto vasto e complexo.
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A via mais expedita é buscar as razões da relação entre alimento e espiritualidade na natureza do espírito humano e seus vínculos com o mundo exterior e o invisível.
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Os principais alimentos sacros e o tema do sacrifício serão abordados, mas subordinados a essa perspectiva geral.
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A reflexão de um religioso do século XX sobre os repousos diários, ao destacar a necessidade de o corpo participar plenamente da vida do espírito, oferece um ponto de partida para o tema ao apresentar os dois aspectos essenciais da questão: o vínculo entre o homem e o mundo no ato de comer e beber, e a presença espiritual que ao mesmo tempo se oculta e se revela nesse ato.
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Comer sem consciência do que se faz é profanar uma coisa santa e interromper o fluxo de vida que da terra se eleva para frutificar em bondade.
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Existe uma mentalidade do repasto, feita de clarividência e nobreza, que considera a origem da vida e seu termo final.
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O repasto é um rito augusto que cria um parentesco entre os comensais pela comunhão vital das mesmas substâncias.
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Comer e beber é aceder às formas sensíveis da Vontade divina.
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O ato de comer e beber revela o liame entre o homem e o mundo e a presença espiritual que nele se manifesta.
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O homem é invadido e informado pelo jogo multiforme do universo, que entrelaça corpo e espírito, e é através do corpo, especialmente nos atos de comer e beber, que ele assimila o universo inteiro, pois todos os seres se alimentam uns dos outros numa fome universal que traduz a necessidade de captar a energia vivente que provém de Deus.
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O homem está inserido no universo e o apreende em suas formas mais elementares de expressão.
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A afirmação de que “o homem é uma transformação de alimentos” expressa, em certo sentido, a realidade da assimilação do universo pelo homem.
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O espetáculo da criação é o de todos os seres que se alimentam uns dos outros.
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A fome universal expressa a necessidade de todo ser manifestado de captar a energia vivente e vivificante veiculada pelas substâncias.
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A razão profunda da sacralidade da alimentação reside no fato de que o alimento é força de vida, uma ramificação da energia vivente universal que vem de Deus, tornando o ato de comer e beber um ato quase sacramental que coloca o homem em contato com as forças criadoras da vida e, indiretamente, com a vida eterna da Divindade.
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A alimentação é força de vida, uma das mil ramificações da energia vivente universal que emana de Deus.
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Comer e beber é um ato sacramental.
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O repasto coloca o homem em contato com as forças criadoras da vida e, indiretamente, com a vida eterna da Divindade.
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A atitude de respeito e silêncio de certos povos ao se alimentar reflete o reconhecimento dessa sacralidade.
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A meditação de Santo Efrém, o Sírio, para acompanhar o repouso, ilustra a atitude da alma religiosa ao perceber o milagre e o prodígio ocultos no pão e no vinho, convidando a louvar a Deus pelo trabalho da natureza e do homem, e a evocar, a partir dos frutos terrestres, o arquétipo celeste do Paraíso verdadeiro.
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Há um milagre no pão e um prodígio na bebida que devem ser admirados pelo coração.
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É preciso louvar a Deus pela origem terrestre do pão e do vinho e pelo trabalho do fogo que os prepara.
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A potência oculta do fogo nas coisas cozidas figura um mistério evidente.
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Os frutos e suas magnificências devem fazer evocar o fruto do Paraíso e o próprio Paraíso verdadeiro.
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A prática monástica, ao inserir o repouso na série dos ofícios divinos e cercá-lo de orações específicas, confere-lhe um caráter sacramental, valorizando-o como uma celebração que, por meio da ação de graças e da bênção, manifesta o reconhecimento da origem divina dos alimentos e a necessidade de reativar sua sacralidade pela invocação divina.
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O repouso é inserido duas vezes ao dia na série das sete celebrações do Ofício divino.
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As orações do benedicite e das graças constituem um pequeno ofício, com esquema análogo ao dos grandes ofícios.
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A ação de graças reconhece a origem divina e o caráter sagrado dos alimentos.
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A bênção invoca a ação divina vivificadora sobre o objeto, aumentando seus efeitos benéficos e reativando sua sacralidade.
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A ideia expressa por Santa Teresa d'Ávila, de que o Senhor anda entre as panelas, ilustra a presença divina mesmo nas atividades mais cotidianas.
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Nas práticas religiosas que envolvem as refeições, a atividade do espírito se desdobra em duas direções: uma horizontal, do homem para o mundo, correspondente à tomada do alimento, e uma vertical, que compreende o dom divino da comida e da bênção que desce sobre ela, bem como o movimento inverso da ação de graças que sobe do homem a Deus e o conhecimento analógico que, a partir dos objetos visíveis, busca exprimir a realidade invisível.
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A direção horizontal corresponde à relação do homem com o mundo por meio da absorção do alimento.
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A direção vertical descendente é a do dom divino do alimento e da bênção que sobre ele desce.
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A direção vertical ascendente é a da ação de graças do homem que sobe a Deus.
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A direção vertical ascendente também é a do conhecimento analógico, que parte dos objetos visíveis para alcançar a realidade invisível.
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No movimento ascendente do conhecimento analógico, a alimentação que sustenta o homem terreno torna-se a imagem da substância misteriosa que alimenta os que já partiram, dando origem à imagem universalmente difundida do banquete celeste ou “festim de imortalidade”.
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A imagem do banquete celeste surge nas pequenas liturgias monásticas, que pedem para participar da mesa celeste e do banquete da vida eterna.
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O tema do banquete celeste aparece no Novo Testamento, na parábola do festim das núpcias, na palavra de Cristo sobre os que virão sentar-se à mesa com os patriarcas e na descrição das Núpcias do Cordeiro no Apocalipse.
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O tema pertence também à tradição judaica (Zohar) e passou para o Islã.
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Na Antiguidade clássica, Platão evoca o “banquete dos santos” e a “embriaguez eterna”, cenas representadas em estelas funerárias e também em frescos cristãos das catacumbas.
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Antes de ser situado no Além, o banquete sagrado era celebrado na terra como prática essencial em diversos tipos de sacrifício e na maioria das religiões de mistério da Antiguidade, onde o alimento servido, qualquer que fosse, era sempre considerado o alimento de imortalidade, a comida da vida divina e eterna.
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O repasto sagrado era o rito fundamental da iniciação nos mistérios de Sarapis, Cibele e Átis, e provavelmente nos de Mitra.
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O alimento servido no banquete divino é sempre o alimento de imortalidade, a comida da vida divina e eterna.
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A palavra “ambrosia”, no mundo indo-europeu, designa expressamente a imortalidade, sendo o protótipo do alimento ritual.
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O soma védico, a bebida sagrada, era louvado por seu poder imortalizante, como nos hinos do Rig-Veda.
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Esses alimentos de imortalidade são um dom do céu, como o soma trazido por uma águia da montanha polar, o haoma persa descido do monte Alborj, ou o trigo, a água e a vinha dados por Anu na Mesopotâmia, e, por serem dons, participam da natureza do doador, podendo inclusive ser identificados com o próprio doador, como ocorre com o soma, o haoma e o pão e o vinho mesopotâmicos, que se tornaram deuses.
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O soma é dom de Indra e Agni, descido da montanha polar.
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O haoma persa, análogo ao soma, desceu do monte Alborj para dar a vida bem-aventurada.
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O trigo, a água e a vinha mesopotâmicos são dons de Anu, deus do céu.
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O dom, por conter algo do doador, pode ser visto como contendo sua essência ou como tornando-se o próprio doador.
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O soma torna-se um deus princípio de vida e luz, assim como o haoma e o pão e o vinho na Mesopotâmia.
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Essa identificação não é uma personificação ou divinização do objeto material, mas um processo de pensamento analógico, uma “metonímia teológica”.
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A identificação do alimento sagrado com a divindade representa o ponto culminante da tensão da consciência religiosa, que busca uma certeza tangível de participar da vida divina, seja para o bem-estar e a sobrevivência, seja para assimilar-se ao deus e tornar-se o próprio deus, o que constitui o cerne das religiões de mistério, onde se busca “comer o deus” para assimilar sua vida, poder e ser.
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O homo religiosus necessita de uma certeza concreta e tangível de sua participação na vida divina.
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O objetivo das religiões de mistério é possibilitar ao fiel assimilar-se ao deus pela virtude do alimento sagrado identificado a ele.
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O propósito é “comer o deus” para assimilar sua vida, sua potência e seu próprio ser.
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Nos mistérios de Cibele, a comunhão íntima com a Grande Mãe era o objetivo do banquete sagrado.
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Nos mistérios órficos de Dionísio, o iniciado comia a carne do animal e bebia o vinho, considerados hipóstases do deus, identificando-se a ele.
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Nos mistérios de Mitra, a participação se dava pelo “sacrifício do pão” e absorção do vinho.
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O rito asteca Teoquallo, que significa “comer o deus”, consistia em comer uma estatueta do deus feita de pasta de sementes.
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A escolha da absorção de um alimento como matéria do rito de assimilação ao divino deve-se ao fato de que o ato da nutrição, por ser misterioso e o exemplo mais flagrante de assimilação, constitui o suporte simbólico mais adequado para significar e operar essa assimilação, pois a percepção da intimidade das coisas pela sensação alimentar corresponde analogicamente à intuição espiritual da substância de ordem espiritual.
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O ato de nutrição é um exemplo marcante de assimilação, uma verdadeira transubstanciação.
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A interiorização própria do ato alimentar ajuda a postular uma interioridade nas substâncias.
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A percepção do princípio ativo na intimidade das coisas é resultado de um conhecimento intuitivo.
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A sensação alimentar, por ser uma percepção imediata, corresponde analogicamente à intuição espiritual.
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Compreende-se, assim, que Cristo, para instituir o rito central de sua religião, a forma mais elevada das religiões de mistério, tenha escolhido o sacrifício do pão e do vinho, assimilados por sua ordem à sua própria pessoa, apresentando-se como o “pão vivo” descido do céu, cuja ingestão faz o homem permanecer nele e ele no homem, num processo que inverte a relação comum: se o homem “come o deus”, é na verdade o deus que “come o homem”, elevando-o ao seu plano sobre-humano.
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Na prédica de Cafarnaum, Cristo se autodenomina o “pão vivo” descido do céu.
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O pão que ele dá é a sua carne para a vida do mundo.
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Quem come a sua carne e bebe o seu sangue permanece nele e ele no homem.
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A relação entre o homem e o alimento é invertida no banquete sagrado: o deus, superior, domina o homem.
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Embora se diga que o homem “come o deus”, é, na realidade, “o deus que come o homem”, elevando-o ao seu plano sobre-humano.
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São João Crisóstomo expressa essa união dizendo que o coração do homem “bebe o Senhor e o Senhor bebe o seu coração”, tornando-se ambos Um.
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O vinho, na liturgia, foi escolhido como suporte da presença real do sangue de Cristo devido à sua relação com o fogo e, por conseguinte, com a própria vida, sendo uma “água ígnea” transformada pelo calor solar, símbolo natural do sangue e, no simbolismo eucarístico, o elemento principal correspondente ao espírito de Cristo que anima o corpo representado pelo pão.
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O vinho é uma água ígnea, compenetrada e transformada pela chama solar.
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O vinho é o símbolo natural do sangue, também uma água ígnea que veicula o calor da vida.
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O sangue, na simbologia eucarística, é o elemento principal, correspondente ao espírito de Cristo.
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O vinho, como substituto ritual do sangue, recupera suas significações e propriedades.
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Por sua natureza estimulante, o vinho eleva o homem acima de seu estado normal, fazendo pressentir a beatitude do excessus mentis, a entrada no mundo divino, e, identificado ao sangue da divindade, torna-se o agente de uma alquimia espiritual que transforma o homem mortal e o faz aceder à imortalidade, passando a designar, em muitas tradições místicas, os “mistérios ocultos”.
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O vinho “alegra o coração” do homem, insuflando-lhe vitalidade e ardor.
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A doce embriaguez faz pressentir a beatitude resultante do excessus mentis.
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Identificado ao sangue da divindade, o vinho torna-se agente de uma alquimia espiritual que conduz à imortalidade.
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O vinho passa a designar os “mistérios ocultos” em tradições místicas, como no Zohar e na poesia sufista.
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São Bernardo interpreta a “embriaguez” do “celeiro de vinho” do Cântico dos Cânticos como o quarto grau do amor, a embriaguez de amor da extase.
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A embriaguez espiritual tem sua fonte no festim eucarístico, razão pela qual a comunhão ao cálice, que contém o vinho celeste, sangue e fogo portador do mistério da vida, reveste-se de grande importância, sendo o banquete eucarístico a antecipação do banquete eterno onde a glória divina proporcionará aos eleitos a “eterna embriaguez” de conhecimento e amor.
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Uma antiga oração dos missais romanos pedia: “Sangue de Jesus Cristo, inebria-me”.
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A comunhão ao cálice é de grande importância para o fiel, pois contém o vinho celeste, sangue e fogo portador do mistério da vida.
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O rito bizantino de derramar água quente (zéon) no vinho consagrado invocando o Espírito Santo simboliza o fogo do Espírito que inflama o vinho.
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O banquete eucarístico antecipa o banquete eterno, onde a irradiação da Luz primordial proporcionará aos eleitos a “eterna embriaguez” de que falava Platão.
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