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CASA
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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Não existe descontinuidade entre o templo e a casa, sendo ambos edifícios semelhantes e de mesma natureza em diferentes níveis, uma sacralidade da morada que, embora encoberta pela pseudo-cultura atual, permanece como intuição essencial e se manifesta inconscientemente na própria identificação entre a habitação e o habitante expressa na noção de “seu lar”.
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A casa, em diferentes níveis, é um edifício de natureza semelhante ao templo.
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A noção de “santuário familiar” expressava essa sacralidade no passado recente.
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A intuição da sacralidade da morada permanece encoberta, mas não destruída, pela cultura atual.
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A expressão “meu lar” identifica a habitação com o habitante, revelando uma percepção inconsciente dessa sacralidade.
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A morada humana é um prolongamento do corpo do homem e de sua família, ao mesmo tempo que uma porção do mundo, da terra, onde ele finca seu corpo e sua casa, e cabe reavivar no homem contemporâneo a convicção, presente na civilização tradicional, de que habitar um santuário é a realidade da vida em sua casa.
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A casa é um prolongamento do corpo do homem, de todo o seu ser e de sua família.
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A casa é uma porção escolhida do mundo, da terra onde o homem se implanta.
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O homem da civilização tradicional tem a convicção de que sua casa é um santuário.
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Construir uma casa é, para o homem tradicional, edificar um pequeno templo e repetir o ato cosmogônico, pois a casa é ao mesmo tempo uma imagem ampliada de seu corpo e uma imagem do mundo, construída à imagem do universo edificado pelos deuses, o que permite ao habitante viver em harmonia e paz por estar em acordo com a face, as leis e os ritmos do universo.
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Construir uma casa é repetir a criação e produzir um microcosmo.
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O microcosmo doméstico integra-se ao grande mundo por ser seu reflexo.
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A integração ao mundo permite ao habitante viver harmoniosamente.
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A harmonia só é possível se o homem estiver em acordo com a face, leis e ritmos do universo.
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Toda criação se desenvolve organicamente a partir de um ponto central que lhe permanece ligado como fonte, e analogamente, a construção de um edifício nas civilizações tradicionais começa pela fixação de um centro, que se identifica com o centro do mundo e o ponto primordial da criação, permitindo que o microcosmo edificado se desenvolva segundo o processo do Todo e nele integre seus habitantes.
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Toda criação parte de um ponto central e se desenvolve organicamente a partir dele, mantendo-se ligada à fonte.
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A construção tradicional começa com a fixação de um centro, que é o centro da casa.
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Esse centro identifica-se analogicamente com o centro do mundo, o ponto primordial da criação.
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O microcosmo em construção desenvolve-se segundo o processo análogo ao do Todo.
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O desenvolvimento analógico permite a integração do edifício e de seus habitantes no Todo.
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O centro da casa, identificado à fonte do universo, pode ser o fogo do lar, o poteio central ou uma abertura no cume do teto, mas em todos os casos o que importa é o eixo vertical, materializado ou não, que organiza o espaço ao redor e confere unidade ao edifício.
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O centro da casa pode ser o fogo do lar, o poteio central ou uma abertura no topo do teto.
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O eixo vertical, materializado ou sentido, é o elemento fundamental.
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É o eixo vertical que organiza o espaço circundante e dá unidade ao edifício.
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O espaço da casa, à semelhança do templo, é quase sempre determinado pela orientação segundo os quatro pontos cardeais, podendo essa orientação comandar a própria estrutura interna e a disposição das atividades e móveis, como se observa entre os Fali, os Malgaxes e em outras culturas.
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A orientação segundo os quatro pontos cardeais é comum à casa e ao templo.
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Povos como os Fali (Camarões) e os Malgaxes utilizam a orientação cardeal na construção.
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Na casa malgaxe, a sala grande divide-se em doze partes correspondentes aos meses lunares.
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Móveis e atividades distribuem-se na casa malgaxe de acordo com os astros.
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O centro da casa só se torna fonte de vida e captador de potência se for devidamente estabelecido em sua função por um rito, geralmente acompanhado de sacrifício, como na Índia, onde fincar o poteio central imita o ato primordial de Indra organizando o mundo a partir do caos, ou entre os Zakkar, onde sacrifícios são necessários para a fundação da casa.
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O centro necessita de um rito para estabelecer sua função de fonte de vida.
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O rito é geralmente acompanhado de um sacrifício.
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Na Índia, fincar o poteio central é a imitação do ato de Indra que organizou o mundo.
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Entre os Zakkar, na Argélia, sacrifícios são necessários para fundar a casa, especialmente para o pilar central, a viga mestra e o limiar.
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O caráter sacro não é apenas do conjunto da casa, mas de cada uma de suas partes, como o fogo do lar, o poteio central, o limiar e a porta, culminando no altar presente na maioria das moradas dos povos tradicionais.
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O fogo do lar e o poteio central são partes sagradas da casa.
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O limiar e a porta têm função protetora e marcam a passagem do profano ao sagrado.
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O altar, presente na maioria das moradas tradicionais, é o ponto culminante da sacralidade doméstica.
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A sacralidade confere à casa tradicional sua especificidade de unidade orgânica, onde uma potência de essência determina uma comunhão entre suas partes e os habitantes, possibilitada pela presença dos deuses na morada.
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A casa tradicional é uma unidade orgânica com uma potência determinada como essência.
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Existe uma comunidade de essência entre as partes da casa e seus habitantes.
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A participação que une cada membro da comunidade doméstica é fundada nessa potência.
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Os deuses habitam a casa, o que funda essa comunidade e permite a participação.
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A casa grega de peristilo, com seu pátio central, oferece uma imagem perfeita do microcosmo orgânico, cujo vínculo é a presença dos deuses, sendo o fogo do lar, também altar de Héstia, o centro e primeiro objeto do culto doméstico, com seu fogo perene e oferendas diárias.
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A casa grega clássica, com pátio central e cômodos ao redor, é um microcosmo orgânico.
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O fogo do lar, altar de Héstia, é o centro da casa.
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Héstia é o fogo divinizado, e a chama que sobe é expressão do sacrifício.
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O fogo do lar devia ser mantido sempre aceso, com cinzas e brasas.
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O culto a Héstia incluía preces e oferendas de lenha, vinho e azeite.
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Além de Héstia, a casa grega era habitada por diversos outros deuses, como Zeus (sob as formas de protector do recinto, invocado contra o raio e guardião da despensa), os Dióscuros, o Bom Génio e deuses protectores da entrada, como Apolo Agieu, Héracles e Hécate.
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Eschilo e Oreste mencionam os deuses que habitam o interior da casa e as imagens dos deuses paternos no vestíbulo.
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Zeus era honrado como protector do recinto (herkeios), contra o raio (kataibates) e guardião da despensa (ktesios).
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Os Dióscuros e o Bom Gênio (Agathos Daimon) recebiam libações.
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A entrada era protegida por Apolo Agieu (representado por uma pedra cônica), Héracles (com inscrições contra ladrões) e Hécate.
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A casa romana, desde sua origem, é dedicada ao culto dos Lares e Penates, ligados a Vesta, deusa do fogo, formando uma trilogia cujo culto se realiza no fogo do lar, onde o chefe de família oferece as primícias dos alimentos, e o Lar é honrado em uma capela própria.
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Os Lares e Penates são as divindades principais da casa romana.
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O Lar preside a existência da família, assegurando saúde e felicidade.
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Os Penates (dois) protegem a despensa (penus).
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Lares e Penates formam uma trilogia ligada a Vesta, deusa do fogo.
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O altar dos Penates é o fogo do lar, onde recebem as primícias das refeições.
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O Lar é honrado em uma pequena capela, geralmente no átrio, com preces diárias, oferendas e guirlandas.
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A casa dos Dogons, no Mali, revela uma concepção que assimila a habitação humana não só a uma imagem do mundo, mas também a uma imagem do próprio homem, onde o traçado do plano e as partes da casa correspondem às partes do corpo humano, e a agregação das casas forma o corpo dos construtores e se prolonga no universo.
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As partes da casa Dogon correspondem às partes do corpo de um homem ideal.
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As oitenta nichos da fachada correspondem aos oitenta descendentes dos ancestrais.
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A silhueta da casa reproduz a da criação desenvolvida a partir do Ovo primordial.
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A casa Dogon é descrita como “uma linguagem e uma exposição metafísicas”.
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O conjunto das casas forma o corpo dos construtores, e o país se desenvolve em espiral a partir do centro, com autais que o prolongam no universo.
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A casa dos Sré, no Vietnã, fundamenta-se na lei de “Fazer como o Espírito modela”, reproduzindo formas tradicionais ensinadas pelos Espíritos diretores, e sua construção, desde a escolha do local à consagração final, é uma continuação da obra criadora dos Espíritos, integrando o homem na ordem imutável.
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A lei fundamental da arte da construção é “Fazer como o Espírito modela”.
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O artesão Sré reproduz formas tradicionais ensinadas pelos Espíritos diretores.
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O mito de origem da casa Sré envolve o ensinamento das técnicas pelos Espíritos e pelos térmitas.
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A construção é uma continuação da obra criadora dos Espíritos.
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Agir em comunhão com a natureza permite ao Sré situar-se na Ordem imutável.
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A construção da casa Sré é um ritual que começa com a escolha do local propício por meio de um oráculo com folhas de bananeira e grãos de arroz, prossegue com a edificação no período seco e culmina na consagração, onde o chefe de família, com um tição, percorre a casa para iniciá-la como guardiã do fogo, seguindo-se libações, oferendas e o sacrifício de um frango.
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A escolha do local para construir a casa é feita por um oráculo com folhas de bananeira e grãos de arroz.
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A construção começa no período seco, entre o fim das colheitas e o novo ciclo agrário.
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Na consagração, o chefe de família percorre a casa com um tição de pinho para iniciá-la como guardiã do fogo.
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Libações de água, oferendas de cerveja e arroz são feitas aos Espíritos.
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O sacrifício de um frango, com o sangue friccionado no batente da porta, assegura a estabilidade da casa.
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A casa Sré é o local do culto familiar e agrário, onde se realizam ritos de participação do Espírito Lar (Yaang hiiu) e da própria casa, como oferendas de cerveja no batente da porta e, na Festa do Renovamento, a unção da porta e dos moradores com uma pasta que simboliza a comunhão dos reinos da natureza e a participação consciente da casa no ritmo vital.
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A casa é o local do culto familiar e agrário.
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Nas festas, há ritos de participação do Espírito Lar e da casa.
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A primeira medida de cerveja é vertida no batente da porta, convidando o Espírito para a festa.
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Na Festa do Renovamento, uma pasta de terra e plantas é ungida na porta e nos moradores, simbolizando a comunhão da natureza e a participação da casa no ritmo vital.
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A casa Sré é a figura (ruup) do Espírito Lar, assim como o corpo é a figura da alma.
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O caráter sagrado da casa Sré é tão intenso que ela é considerada inviolável, não possuindo fechaduras de segurança, e qualquer violação acidental exige um sacrifício de reparação para reconsagrá-la, sendo a beleza dessas moradas o resultado da presença de um elemento espiritual que gera harmonia profunda entre o homem, o habitat e a paisagem.
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A casa Sré é considerada inviolável devido à sua sacralidade.
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Não se colocam fechaduras de segurança na casa.
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Uma violação acidental profana a casa, exigindo um sacrifício reparador.
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A harmonia entre homem, habitat e paisagem é gerada pela tradição arquitetônica.
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A beleza das casas simples resulta da presença de um elemento espiritual.
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A antiga casa tradicional do Valais suíço, particularmente a do Val d'Anniviers, apresenta concepções e ritos análogos aos de outras culturas, com sua estrutura tripartida (cozinha, sala e adega), o fogo do lar como centro, a poutre centrale como “árvore do mundo” e autel doméstico, e o “fumage” como rito de inauguração.
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A casa do Val d'Anniviers compõe-se de cozinha (domínio da mulher), sala (domínio da família e do pai) e adega (domínio do homem).
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O fogo do lar, com suas três pedras, é o centro e representa a família nuclear.
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A poutre centrale da adega, muitas vezes com um crucifixo, é o “autel” doméstico, uma “árvore do mundo”.
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O “fumage” é um rito de inauguração para consagrar o fogo do lar.
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A assembleia anual na adega, com orações pelos defuntos, sugere um culto aos antepassados.
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Em terra cristã, enquanto a cultura tradicional não desapareceu, a concepção da casa não difere essencialmente de outras áreas de civilização, sendo a morada do cristão também um santuário, como atestam os rituais bizantinos para a fundação e bênção da casa, e a presença de ícones em lugar de honra, que continuam a função do antigo larário.
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A casa do cristão é um santuário, tal como em outras tradições.
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A liturgia bizantina possui um ritual para a fundação da casa, com referência explícita à cosmogonia.
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Uma oração é recitada ao término da construção para abençoar os habitantes.
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Os ícones colocados em lugar de honra tornam a casa um santuário com culto doméstico.
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Os ícones substituem e continuam a função do antigo larário das moradas clássicas.
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