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CONTEMPLATIO NATURALIS
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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A união com Deus constitui o objetivo final de toda via mística e, em princípio, de toda existência humana, mas a condição decaída do homem torna necessária a passagem por etapas intermediárias que o capacitem para esse contato com o Princípio divino.
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A natureza decaída do homem impossibilita o contato direto com Deus.
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As etapas da realização espiritual preparam o homem para essa união.
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As etapas fundamentais da realização espiritual, comuns a todas as tradições em seus aspectos essenciais, resumem-se a três principais: a purificação, que livra o homem decaído de seus pecados; a integração, que o reconcilia com o mundo e os seres, restaurando sua condição de microcosmo; e a união, que é o termo final do processo.
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A purificação é necessária para que o homem impuro possa aproximar-se da Pureza absoluta.
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A integração visa superar o estado de separação e conflito, harmonizando o homem com o cosmos e integrando sua personalidade verdadeira como microcosmo.
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Na integração, o homem adquire uma visão do mundo e de si mesmo análoga à de Deus, preparando-se para a união.
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A etapa da integração, ou cosmização do homem, possui importância capital na vida espiritual, como exemplificado na doutrina do yoga de Patanjali, onde a unificação das faculdades e a sintonia com o ritmo do cosmos, alcançadas por práticas como o pranayama, são condições indispensáveis para transcender a condição cósmica e alcançar a união.
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O yoga busca unificar o indivíduo, abolindo a fragmentação e a dispersão da vida profana.
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As práticas iniciais do yoga visam a cosmização do homem, colocando-o em uníssono com a harmonia universal.
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A união (yoga) não pode ser obtida sem a etapa intermediária da cosmização, que permite a passagem do caos profano à liberdade espiritual.
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A prática do pranayama (ritmo respiratório) cosmiza o corpo e a vida psico-mental, unindo o homem ao ritmo do mundo e aos ciclos temporais.
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A unificação dos canais sutis ida e pingala no canal central shushumna visa abolir o tempo e integrar os contrários, sendo a saída do tempo essencial, pois este é o maior obstáculo à união com Deus, segundo Mestre Eckhart.
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Um processo análogo de realização espiritual, envolvendo a integração do homem com o cosmos, encontra-se na espiritualidade dos Sioux, particularmente no rito do calumet estudado por Frithjof Schuon, onde a pipa sagrada, como símbolo macro-microcósmico, ritualiza o recolhimento de toda a criação no centro do homem.
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A pipa sagrada simboliza simultaneamente o universo e o homem total que o resume.
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O ato de encher a pipa com tabaco é acompanhado de preces oferecidas a todas as potências do universo e formas criadas.
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O fornilho da pipa é assimilado ao coração do homem, centro do homem e centro do mundo.
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O fumar ritual permite que cada participante reencontre seu próprio centro e reconheça sua identidade com o centro de cada homem e com o centro do mundo.
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Na mística cristã, as três etapas da realização espiritual correspondem, respectivamente, à ascése (praxis), à contemplação natural (theoria physiké) e à deificação (theosis).
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A primeira etapa é a ascése, ou praxis.
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A segunda etapa é a contemplação natural, ou theoria physiké.
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A terceira etapa é a deificação, ou théosis.
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O exame da segunda etapa, a theoria physiké, reveste-se de importância por ser menos frequentemente considerada do que as outras, fato possivelmente explicado pela ignorância moderna, no cristianismo ocidental, dos laços entre o homem e o mundo, uma ignorância que obscurece o sentido da criação do homem como imagem de Deus e microcosmo.
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A theoria physiké é menos abordada que a praxis e a théosis, apesar de sua importância.
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A atividade da contemplação natural imbrica-se com a das outras etapas, sem separação rigorosa.
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A ignorância moderna sobre os laços entre homem e mundo, consequência do individualismo, contribui para o relativo esquecimento da theoria physiké.
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Essa ignorância obscurece o sentido da criação do homem à imagem de Deus (Gênesis 1,26).
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O homem terrestre é “imagem da Imagem”, sendo o Verbo (Logos) a Imagem perfeita de Deus, no qual tudo foi criado (Colossenses 1,15-20).
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A condição de microcosmo faz do homem imagem da criação que ele resume e, por possuir um espírito capaz de conceber as ideias das coisas, é imagem do Verbo divino.
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O Verbo é chamado “Homem Universal” (Adam qadmon), arquétipo do homem terrestre, que é destinado a ser rei da criação visível e a passar da “imagem” à “semelhança” de Deus, o que implica o superamento do cosmos.
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O superamento do cosmos, que leva à semelhança divina, só pode ocorrer a partir da recuperação do estado edênico, que inclui a plena realização da natureza microcósmica do homem, sendo este o papel da via mística e, mais especificamente, da contemplação natural, que visa a cosmização do indivíduo.
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A posse da integralidade do estado humano, ou estado edênico, é condição para o superamento do cosmos.
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O estado edênico compreende a realização da natureza de microcosmo e senhor da natureza visível.
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O homem decaído deve refazer o percurso inverso da queda para recuperar esse estado.
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O batismo opera o retorno virtual ao estado edênico, que deve ser tornado efetivo pela via mística.
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A contemplação natural tem por objetivo a cosmização do indivíduo, com modalidade diferente, mas fundamentalmente idêntica à de outras tradições.
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A teologia mística, especialmente a partir de Máximo, o Confessor, considera o mundo natural como um complemento da Escritura, e a contemplação da natureza (theoria physiké) como via necessária para a conhecimento efetivo de Deus, fundamentando-se na analogia e identidade final das essências particulares com a Essência universal.
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Máximo, o Confessor, destaca a importância da theoria physiké como via única e necessária para a conhecimento de Deus.
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O fundamento metafísico da contemplação natural é a analogia entre as essências particulares e a Essência universal.
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Nicolau de Cusa afirma que a Essência simples e infinita é, em si, a Essência absolutamente simples de todas as essências, sendo a medida perfeitamente adequada de todas elas.
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Toda criatura é como que o aspecto finito do Infinito, ou o aspecto criado de Deus criador.
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A fonte cristã dessa perspectiva metafísica encontra-se em Dionísio, o Areopagita, que ensina a elevação à Causa universal por meio do conhecimento analógico, referindo todos os seres a essa Causa numa união transcendente e contemplando nela a unidade de todas as coisas, mesmo as opostas.
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O conhecimento analógico permite elevar-se até a Causa universal.
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Todas as coisas devem ser referidas à Causa universal segundo um modo de união transcendente.
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Na Natureza que abarca a totalidade do universo, as razões de cada natureza são reunidas numa unidade sem confusão.
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É possível remontar à Causa universal e contemplar nela, sob a forma de unidade, a totalidade das coisas, inclusive as opostas.
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Esta concepção metafísica do mundo desemboca numa visão espiritual, descrita por Calisto Cataphigiota, segundo a qual todas as coisas testemunham o Uno criador e conduzem a inteligência, persuadida por essa multiplicidade de testemunhos, à visão e à vida no Uno que está além do mundo.
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Não há coisa no universo que não testemunhe o resplendor e não porte um perfume do Uno criador.
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O Uno, sendo chamado por toda coisa e revelando-se através de todos os seres, conduz a inteligência para Si.
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A busca leva à visão, e a visão leva à vida, para que a inteligência exulte e se ilumine na luz divina.
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É no Verbo divino, o Logos, que se situa essa visão, pois nele residem as ideias (logoi) das criaturas, conforme ensina Máximo, o Confessor, ao descrever o duplo movimento de processão criadora do Logos uno que se torna múltiplo nos logoi e de ascensão retornante dos logoi múltiplos que se unificam novamente no Logos uno.
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O Logos uno é a multiplicidade dos logoi, e todos os logoi são o Logos uno.
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Segundo a processão criadora, o Uno é múltiplo.
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Segundo a ascensão do retorno ao Princípio, os múltiplos são o Uno.
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Mestre Eckhart refere-se ao Filho como modelo de todas as criaturas, o Arquétipo onde a essência delas está em suspensão.
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Máximo, o Confessor, fala de uma encarnação do Verbo nas próprias coisas, oculto nos logoi dos seres criados, e essa verdade metafísica é reativada para o homem decaído pela Encarnação humana do Logos em Jesus Cristo, que concentra em si o mistério do universo e opera a união do criado e do incriado.
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O Verbo esconde-se misteriosamente nas razões interiores (logoi) dos seres criados, presente em cada um totalmente.
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O Uno e eternamente idêntico está oculto no diverso.
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A Encarnação e a Cruz não são apenas o centro da história, mas a ideia fundamental do mundo.
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O mistério do universo concentra-se na relação entre as duas naturezas de Cristo.
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Cristo, pela Sua ascensão, une o céu e a terra, demonstrando a unidade da Criação na polaridade de suas partes.
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Cristo, como homem total, apresenta a Criação unificada ao Pai, mostrando a unidade do todo na unidade de um só homem, o Adão cósmico.
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O “mistério de Cristo”, segundo São Paulo e a tradição patrística, é a reintegração do homem e de toda a criação, já plenamente realizada no Homem-Deus, mas que deve se cumprir no homem individual por meio da via mística, a qual dispõe da Divina Liturgia e da oração como meios de graça, sendo a Liturgia a fonte da vida espiritual com sua dimensão cósmica.
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A reintegração do homem e da criação deve realizar-se no indivíduo por participação e identificação com a Pessoa do Filho.
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A Divina Liturgia é a fonte da vida espiritual, atualizando o mistério da via mística.
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A missa possui uma dimensão cósmica, pois os Santos Dons são as primícias do mundo restaurado e transfigurado.
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A oração, particularmente a “Oração do Coração” ou “Oração de Jesus” da tradição hesicasta, é o meio pelo qual a contemplação natural opera, buscando, pela invocação repetitiva do Nome de Jesus e fixação da atenção no coração, “reunir o que está disperso” e fazer descer o mental ao coração, centro do ser.
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A Oração de Jesus consiste na invocação repetitiva e contínua do Nome de Jesus ou da fórmula completa.
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O objetivo é concentrar a atenção no coração, centro do ser, e aí fixá-la.
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A prática visa “reunir o que está disperso”, fazendo o mental, que é dispersão no múltiplo e sucessivo, descer ao coração.
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O coração é o centro imóvel onde Amor e Conhecimento se unem, lugar da imagem divina no homem.
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O coração é o centro do corpo humano, microcosmo, e não uma realidade puramente individual, mas eclesial e cósmica, imagem do Coração do mundo, que é Deus.
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Ao fixar-se no coração e invocar o Nome, o homem estabelece-se no ponto onde sua visão se unifica e se universaliza, reativando a imagem divina e tornando-se gradualmente o “rei da criação” que, do coração transfigurado, faz irradiar a luz divina sobre o criado, contemplando a natureza em Deus.
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A fixação no coração faz cessar a visão dispersa do mundo em torno do eu.
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O mundo passa a ser visto em torno de Deus, cujo Nome é invocado.
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A invocação reativa a imagem divina originária.
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O homem torna-se capaz de contemplar a natureza em Deus, conhecendo as ideias das coisas criadas com uma ciência simples.
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Ele ultrapassa o véu das aparências, percebendo as coisas como que “em suspensão” em Deus.
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A realização desse estado se dá no cristianismo em modo bháktico, pela devoção no louvor do Nome e na oferenda devocional de todos os seres à Divindade, numa concepção litúrgica da existência fundada na beleza do mundo, beleza que é um Nome divino que em Cristo se torna divino-humano e divino-cósmico.
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A beleza é um Nome divino, uma modalidade da Presença divina.
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O Nome de Jesus contém o mundo, como as cores do prisma se fundem no raio de luz.
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A invocação do Nome de Jesus sobre tudo o que existe permite transfigurar o universo, “cristificá-lo” e devolver-lhe o seu verdadeiro sentido.
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O universo material anseia secretamente pelo Cristo e murmura o Nome de Jesus, cabendo ao cristão expressar essa aspiração e invocar o Nome sobre os elementos da natureza, transfigurando-a.
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O Nome de Jesus também transfigura os homens, permitindo ver neles a Face do Senhor.
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É primeiramente sobre os homens que o amor deve expandir-se, quando o coração espiritual compreende que a humanidade é um único espelho partido da imagem do Filho, e que todos são chamados a formar um só Homem perfeito em Cristo, sendo a invocação do Nome um meio de transfigurá-los em sua realidade divina e de recordar a identidade com a origem adâmica.
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São Gregório de Nazianzo compara a humanidade a um espelho partido onde se reflete a imagem do Filho.
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São Paulo afirma que todos são um só ser em Cristo, destinados a formar um só Homem perfeito.
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A invocação do Nome transfigura os homens em sua mais profunda realidade divina.
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A invocação é reminiscência da identidade com a luz celestial da imagem incorruptível e da coincidência intemporal com a origem adâmica.
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O amor aos homens é inseparável do amor a todos os seres para a recuperação integral da condição edênica, pois tudo deve ser reconduzido ao Uno, numa unidade onde o eu, Deus e o ser universal se contemplam simultaneamente, como descreve Plotino, ecoado por Angelus Silesius.
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Plotino descreve o retorno ao Ser, onde se tem o conhecimento intelectual dos seres por se ser esses próprios seres.
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Nessa unidade, todos são os seres e, juntos, não são mais que um.
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A ignorância dessa unidade provém de olhar para fora do Ser.
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A conversão permite ver a Deus, a si mesmo e o Ser universal, sem separação.
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Angelus Silesius afirma que o homem, sendo todas as coisas, pode, por si só, ser o céu e a terra.
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Os seres e as coisas participam da vida divina no Verbo, e a visão do mundo no espiritual ilumina todo o universo através do coração, um estado de paraíso reencontrado descrito pelo “peregrino russo”, para quem a criação inteira parecia louvar a Deus e testemunhar Seu amor, revelando a “linguagem da criação”.
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O “Peregrino Russo” relata que, em oração, tudo ao seu redor lhe aparecia sob um aspecto encantador, como se tudo orasse e cantasse glória a Deus.
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Ele compreendeu o que a Filocalia chama de “conhecimento da linguagem da criação”.
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O mundo exterior tornou-se um apelo a amar e louvar a Deus, e ele encontrava a imagem do Nome de Jesus em toda parte.
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Nessa perspectiva, seres e coisas celebram uma liturgia cósmica, na qual cada elemento murmura a essência divina, uma experiência viva da realidade metafísica que necessita da boca e do coração humanos para se exprimir, função exercida pela contemplação natural durante a Oração do Coração, que une o homem e, por ele, toda a natureza sensível e intelectual a Deus.
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A liturgia cósmica da natureza é uma prece muda que precisa do homem para exprimir-se.
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A Oração do Coração, com a postura do corpo e o ritmo respiratório, unifica interiormente o homem.
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O homem, como síntese e elo da criação, oferece a Deus, por meio dessa unificação, toda a natureza sensível e intelectual.
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A unificação interior do homem (microcosmo) acarreta o recolhimento de todo o visível (macrocosmo), prelúdio da oferenda a Deus.
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Esta oferenda consiste, segundo Máximo, o Confessor, em uma contemplação que imola o fenomenal para desvelar o espiritual, oferecendo a Deus as ideias espirituais (logoi) das criaturas, num ato em que o homem, com o Logos e sob Sua guia, oferece o universo a Deus em sua inteligência como sobre um altar.
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Os dons oferecidos a Deus são as ideias espirituais das criaturas.
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O espírito gnóstico oferece essas ideias como dons de Deus.
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O homem entra com o Logos e, com Ele, oferece o universo a Deus em sua inteligência.
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Em sua perfeição, a contemplação natural desemboca na “caridade cósmica”, onde o espiritual, unido a Deus, experimenta uma compaixão infinita por toda a criação e, tendo já penetrado para além do estado edênico na via da deificação, vê todas as coisas no Uno, numa visão que é o protótipo do “Deus será tudo em todos”.
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O espiritual torna-se um coração que arde de amor por toda a criação.
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Trata-se de uma amplificação cósmica do ser, absorvido na regeneração de todas as coisas.
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O espiritual realiza interiormente a morte e ressurreição do cosmos inteiro na plenitude do Logos.
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Aquele que purificou o coração conhece não só as razões dos seres inferiores, mas também, em certa medida, contempla o próprio Deus.
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Para aquele que vê no Uno, tudo é o Uno e ele vê tudo, inclusive a si mesmo e aos outros, nesse Uno, sem ver distintamente nenhuma coisa.
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