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ÍCONE DA NATIVIDADE

HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.

  • O ícone da Natividade apresenta uma síntese teológica e metafísica de grande alcance, articulada por um simbolismo rico e concentrado.
    • Unidade doutrinal expressa por formas e signos visuais
    • Convergência entre teologia e metafísica por meio de imagens
  • O centro do ícone recai sobre a gruta rochosa e não sobre a manjedoura, em consonância com a situação histórica e geográfica de Belém, onde o Cristo teria nascido em uma caverna aberta na encosta e usada por pastores, sobre a qual foi construída uma basílica célebre situada na cruz do transepto.
    • Centralidade da caverna como foco compositivo
    • Referência a Belém e ao uso pastoral do espaço
    • Basílica erguida acima da gruta como fixação cultual do lugar
  • O esquema do ícone organiza uma montanha triangular que domina o campo até o alto do céu, abriga ao centro uma caverna sombria com o Menino, recebe ao longo do eixo o raio de uma estrela, exibe a Virgem-Mãe em proporção muito ampliada ao pé da montanha, distribui anjos nos flancos superiores, dispõe boi e jumento na caverna e coloca pastores e por vezes Reis Magos na encosta, compondo um conjunto hierático que introduz imediatamente um mistério supra-humano pelo valor simbólico de todos os elementos.
    • Montanha como figura dominante e estruturante
    • Caverna escura com o Menino como núcleo inferior
    • Raio estelar axial como ligação vertical
    • Virgem-Mãe ampliada e integrada à massa da montanha
    • Presenças periféricas: anjos, pastores e eventualmente Reis Magos
    • Presenças na gruta: boi e jumento como testemunhas do mundo animal
  • A caverna do nascimento, bem como o Gólgota da morte, possui valor de signo além do aspecto histórico, pois a caverna associada à montanha é símbolo sagrado universal como túmulo e santuário, tendo servido tanto a enterramentos quanto a reclusão ritual do neófito para morrer à vida profana e renascer a uma vida superior, já que a caverna figura a Terra-Mãe e o seio materno, e também simboliza a imagem do mundo como polo obscuro da criação, prima materia e matriz universal cujo análogo mais acessível é a terra como elemento.
    • Rejeição do acaso como explicação do lugar e do modo dos eventos
    • Caverna como túmulo efetivo e túmulo ritual de iniciação
    • Caverna como imagem da Terra-Mãe e da gestação
    • Caverna como santuário e como microcosmo do mundo
    • Prima materia e matriz universal como sentido cosmológico do escuro
  • A montanha que contém a caverna é símbolo mais completo e luminoso do mundo por elevar o vértice triangular ao céu e representar a criação em movimento ascensional de retorno ao Criador, razão pela qual há santuários em montanhas e cavernas como formas da Montanha cósmica, e a montanha funciona ainda como símbolo axial cujo eixo praticamente se confunde com o Eixo do Mundo que passa pelos polos terrestre e celeste, sendo esse eixo imóvel imagem sensível de Deus como motor imóvel, de modo que o conjunto montanha-caverna exprime um polo ténébreo inferior e um polo luminoso superior.
    • Montanha como figura do retorno e da ascensão
    • Santuários em alturas e em grutas como expressões complementares
    • Eixo do mundo associado aos polos e à estrela polar
    • Motor imóvel como analogia metafísica do eixo imóvel
    • Polaridade: obscuro embaixo e luminoso no cume
  • O sentido profundo do ícone emerge quando o Menino-Deus na caverna cosmológica e o eixo luminoso do raio estelar que desce pela montanha e ilumina a gruta formam síntese do mistério da Encarnação como descida do Verbo divino às partes inferiores da terra para preencher tudo e fazer brilhar a luz nas trevas, sendo esse simbolismo reforçado pela localização temporal da natividade à meia-noite e ao solstício de inverno, pela liturgia da vigília da Epifania que associa silêncio e noite ao descenso do Verbo e pela leitura do Prólogo de João na missa do Natal, enquanto Crucificação e Ascensão ocorrem ao meio-dia como trajetória redentora das trevas à luz, e a fixação do Natal em 25 de dezembro coincide com a porta solsticiale descrita por Porfírio como porta dos deuses e se aplica ao Cristo como Sol de justiça que ilumina os que estão na sombra da morte, retomando a criação iniciada pelo Fiat lux sobre as águas primordiais e fazendo a caverna tornar-se céu segundo canto litúrgico bizantino.
    • Encarnação como iluminação do centro obscuro da natureza
    • Citações latinas e bíblicas: Lux in tenebris lucet e Fiat lux, com referência a João e Gênesis
    • Epifania e Natal como unidade festiva na vigília litúrgica
    • Meia-noite e solstício de inverno como imagens de ponto mínimo e reinício ascensional
    • Porfírio e a porta solsticiale como símbolo de acesso a estados superiores
    • Cristo como Sol de justiça e astre de cima segundo Lucas
    • Liturgia bizantina: a caverna convertida em céu
  • Um símbolo dessa ordem não se esgota em uma única leitura, e a figura da Virgem quase confundida com terra e montanha destaca o aspecto terrestre e ctoniano da Mãe de Deus como Mãe universal que oferece substância para a Encarnação, sendo a Virgem também assimilada à montanha na liturgia byzantina como montanha de onde é tirada a pedra indestrutível que rompe as portas do inferno, em eco a Daniel e à interpretação messiânica da pedra como Cristo, rocha de onde jorra água de vida, associada ainda à tradição de uma fonte surgida na Natividade junto à gruta de Belém.
    • Virgem como figura telúrica e materna universal
    • Liturgia byzantina e profeta Daniel: pedra tirada da montanha
    • Cristo como pedra e rocha da água da vida
    • Gruta de Belém e tradição da fonte ligada ao nascimento
  • A estrela é elemento essencial e, abstraídas questões históricas, seu sentido simbólico a vincula à estrela polar e ao Eixo do Mundo, de modo que o eixo passando pela gruta indica a gruta como centro do mundo e lugar de comunicação entre o alto e o baixo, céu e terra, e implica o Cristo como centro ou como o próprio Centro por sua função de Rei do Mundo, ligação que conduz ao simbolismo dos Reis Magos cuja presença na Natividade tem alcance superior ao folclore, pois vêm do Oriente e são associados a uma área tradicional indo-europeia, sendo interpretados com R. Guénon como representantes da tradição ortodoxa primordial e das três funções do Tribhuvana, rei, sacerdote e profeta, significadas por ouro, incenso e mirra, com os presentes identificando o Menino-Deus como Mestre supremo, Rei do Mundo.
    • Eixo do mundo: centro e comunicação vertical
    • Cristo como Centro e Rei do Mundo
    • Reis Magos vindos do Oriente segundo Mateus e associados a Irã e Ásia central
    • R. Guénon e o Tribhuvana como tripla função tradicional
    • Ouro, incenso e mirra como sinais de realeza, sacerdócio e profecia
  • Os elementos dispostos ao redor da gruta evidenciam a supremacia do Menino-Deus como Verbo divino ao reunir anjos no céu, homens na terra sob a forma dos pastores, árvores na montanha e os animais boi e jumento, compondo a escala inteira dos seres entre céu e terra e oferecendo uma síntese cósmica centrada no Cristo como recapitulação da criação, cuja descida restabelece a harmonia entre o alto onde se dá glória a Deus e o baixo onde se dá paz aos homens, conforme a fórmula Gloria in excelsis Deo et in terra pax hominibus.
    • Escala dos seres: anjos, humanos, vegetal e animal
    • Centralidade do Cristo como recapitulação da criação
    • Harmonia entre glória no alto e paz no baixo
    • Fórmula litúrgica latina do hino angélico
  • A presença do boi e do jumento confirma a articulação entre animais, anjos e Cristo como sinal de Éden reencontrado, paralelamente ao relato de Marcos em que Jesus está com as feras e os anjos o servem, mas permanece a questão específica do porquê desses dois animais na Natividade, cuja representação se apoia no Evangelho apócrifo de São Mateus ao narrar que ambos adoram o Menino na manjedoura e ao relacionar a cena a Isaías e Habacuque sobre o boi conhecer seu senhor e a manifestação entre dois animais.
    • Paralelo evangélico: Marcos e a coexistência com feras e anjos
    • Fonte apócrifa: Evangelho de São Mateus
    • Referências proféticas: Isaías e Habacuque aplicados ao motivo dos dois animais
    • Adoração do Menino como reconhecimento do senhorio
  • No contexto em que nasceram judaísmo e cristianismo, boi e jumento são os animais mais úteis aos povos sedentários, ligados a sacrifícios e alimento no caso do boi e a transporte e trabalho no caso do jumento, estando ambos incluídos na lei do repouso do sétimo dia em Êxodo e Deuteronômio, o que favoreceu sua leitura como símbolos de realidades superiores.
    • Utilidade cotidiana como base para simbolizações estáveis
    • Êxodo e Deuteronômio: descanso do sétimo dia estendido aos animais
    • Boi como animal sacrificial e jumento como animal de carga e labor
  • Uma interpretação associa boi a forças benéficas e jumento a forças contrárias, com boi à direita e jumento à esquerda do Menino em paralelo com o bom e o mau ladrão no Calvário e com o Cristo como Rei do Mundo assegurando equilíbrio, mas tal leitura encontra dificuldade porque o jumento não possui sentido uniformemente maléfico, embora em tradições como a egípcia possa ser ligado a Seth como inimigo de Rê, ao passo que no domínio judaico-cristão e no Próximo Oriente o jumento aparece como montaria de pessoas de condição e de príncipes, como em Débora, nos filhos de Jair e em Abdon, e na vida do Cristo surge na Natividade, na fuga ao Egito e nos Ramos, quando é explicitamente associado à realeza pela profecia de Zacarias em Mateus.
    • Interpretação de polaridades direita e esquerda em chave cosmológica
    • Egito: Seth e Rê como pano de fundo de um sentido negativo possível
    • Bíblia: Débora, filhos de Jair e Abdon como exemplos de montaria digna
    • Cristo e o jumento nos Ramos com referência a Zacarias e Mateus
    • Jumento como possível símbolo do poder temporal por associação régia
  • Um encadeamento simbólico liga o motivo medieval do jumento carregando relíquias ao motivo antigo do jumento portador de mistérios nos ritos de Elêusis, lembrado por Aristófanes na fala de Xântias a Dioniso nas Rãs, e esse elo favorece a leitura do jumento como imagem do poder temporal que sustenta e carrega o poder espiritual.
    • Continuidade de uma imagem ritual através de provérbios e usos culturais
    • Aristófanes, Xântias e Dioniso como testemunho literário do motivo eleusino
    • Elêusis como referência a objetos do culto e bagagens dos iniciados
    • Poder temporal como suporte do espiritual na analogia do portar
  • O poder espiritual encontra representação animal no boi ou no touro, símbolo da potência criadora divina em múltiplas tradições com nomes como Shiva, Indra, Dioniso, Rê e Zeus, e por consequência o animal pode designar o sacerdote, como na Índia onde é atribuído ao brâmane, o que se articula ao papel sacrificial, alcançando também o cristianismo medieval em que São Lucas tem por atributo o boi por tratar do sacerdócio do Cristo e em que bestiários associam o touro do Tetramorfo à redenção e ao sacrifício do Calvário, ao lado do cordeiro.
    • Boi e touro como símbolos de força vital e criação
    • Índia: brâmane e atribuição sacerdotal
    • Cristianismo medieval: São Lucas e o boi como signo do sacerdócio do Cristo
    • Tetramorfo, redenção e Calvário como prolongamentos simbólicos
  • Boi e jumento junto ao Menino-Deus simbolizam autoridade espiritual e poder temporal cuja fonte é o Cristo como sacerdote e rei, prefigurando ao mesmo tempo o triunfo dos Ramos com Jesus aclamado rei sobre o jumento e o sacrifício do Calvário em que ele se substitui às vítimas dos holocaustos, e esse simbolismo converge com os presentes dos Magos ao transmitir em nível animal o mesmo testemunho sobre o Rei do Mundo.
    • Cristo como fonte de sacerdócio e realeza
    • Ramos e Calvário como antecipações inscritas na cena natalina
    • Correspondência entre presentes dos Magos e testemunho do mundo animal
    • Unidade do tema do Rei do Mundo em múltiplos níveis da criação
  • O repouso sabático do sétimo dia anunciado pela Lei se refere ao descanso do Senhor após a criação e também à paz do mundo futuro em que toda a natureza será renovada, de modo que o restabelecimento edênico vinculado ao advento do Messias já se cumpre em princípio no primeiro advento e a Natividade responde à cena do Gênesis em que o homem recebe supremacia sobre os animais, supremacia perdida na queda que arrasta a criação à revolta, sendo restaurada pelo novo Adão quando os animais reconhecem, se submetem e adoram.
    • Sábado como figura de paz escatológica e renovação universal
    • Isaías e a participação dos animais na restauração da natureza
    • Gênesis: domínio humano e desordem após a queda
    • Novo Adão como restaurador da realeza do homem celeste
    • Reconhecimento animal como sinal do Éden reencontrado
  • A cena da Natividade se reveste de alegria com decorado rico e luminosidade de primavera apesar da noite mencionada por Lucas, e ao contrário de representações ocidentais mais realistas e familiares, o ícone antecipa a transfiguração futura do universo e do homem ao mostrar tudo penetrado por luz divina que ilumina por dentro.
    • Contraste entre naturalismo ocidental e visão transfiguradora do ícone
    • Lucas e a noite como pano de fundo de uma luz de glória
    • Luz interna e difusa como marca de uma realidade espiritual já presente
  • A gruta obscura funciona como invólucro do tempo novo à maneira de um ovo cosmogônico, contendo o Menino-Deus como germe vindo do céu e recebendo o eixo luminoso que desce da estrela até o coração da caverna para indicar a abertura da porta do céu e a irrupção da graça, e o canto angélico sintetiza o ensinamento teológico ao afirmar que a glória divina resplandece nos céus e aparece na terra como o Filho, chamado pela Escritura de resplendor da glória e luz da luz, trazendo paz e harmonia do Éden restaurado não só aos homens mas também à natureza que espera libertação conforme Romanos.
    • Ovo cosmogônico como figura do invólucro do novo ciclo
    • Eixo luminoso como sinal de abertura da porta do céu
    • Canto angélico: glória no alto e paz na terra como síntese
    • Romanos: expectativa de libertação da natureza e participação na glória
  • As implicações do simbolismo permanecem inesgotáveis, e uma observação final distingue no Ocidente a estrela de cinco pontas e no Oriente a de seis pontas, sendo a de seis o Selo de Salomão relacionado ao duplo simbolismo da montanha e da gruta pelos dois triângulos inversos que correspondem à pirâmide da montanha e ao esquema da caverna, exprimindo união do celeste e do terrestre e o Homem universal, enquanto a estrela de cinco pontas se relaciona ao homem individual e, aplicada ao Cristo, remete às duas naturezas nele.
    • Diferença iconográfica entre cinco e seis pontas
    • Selo de Salomão como figura de união céu-terra
    • Dois triângulos: montanha e gruta como complementares
    • Homem universal e homem individual como dois níveis de leitura
    • Duas naturezas do Cristo como aplicação cristológica do duplo símbolo
  • Diversas grutas marcam a vida do Cristo, incluindo as da Anunciação, da Tentação, de Getsêmani e do Gólgota, e a caverna do Gólgota sob o lugar da Cruz teria sido convertida em capela dedicada a Adão, com tradição hebraica acolhida por Padres como Ambrósio segundo a qual o crânio de Adão guardado por Noé e depositado por Sem estaria ali para ser lavado pelo sangue divino quando o rochedo se fendesse na morte do Messias, tema tradicional no cristianismo oriental e epílogo simbólico da Natividade ao reiterar a caverna no seio da montanha e a restauração da comunicação entre céu e terra pela Cruz, com atração de todos ao alto segundo a palavra do Cristo.
    • Grutas associadas a episódios: Anunciação, Tentação, Getsêmani e Gólgota
    • Capela de Adão e tradição do crânio de Adão ligada a Noé e Sem
    • Padre nomeado: Ambrósio
    • Sangue divino e fenda do rochedo como imagem de redenção do primeiro homem
    • Paralelo estrutural: caverna e montanha na Natividade e no Calvário
    • Cruz como reabertura da comunicação vertical e atração universal
  • A analogia entre caverna e coração é reafirmada por tradições que identificam o coração humano à gruta pela semelhança estrutural do órgão com alvéolos internos e pelo fato de ambos serem centros, de modo que macrocosmo e microcosmo se refletem e o coração é centro físico, sutil e espiritual onde o humano encontra o divino, conforme texto hindu que localiza Agni na caverna do coração como fundamento do mundo eterno.
    • Estrutura do coração como imagem cavernosa
    • Centro do mundo e centro do ser como correspondência analógica
    • Macrocosmo e microcosmo como princípio interpretativo
    • Texto hindu: Agni oculto na caverna do coração como fundamento do eterno
  • A cena da Natividade no ícone significa simultaneamente no plano macrocosmico o nascimento do Verbo no mundo e no plano microcosmico o nascimento do Verbo no coração como lugar da segunda nascença, em paralelo com o uso iniciático da caverna como local ritual de renascimento, de modo que o coração torna-se a gruta onde o Cristo nasce interiormente para transformar o ser, ecoado por hino latino das Laudes do tempo do Natal que pede o nascimento no coração e por versículo da segunda epístola de Pedro que conclama a esperar a estrela levantar-se nos corações como se levantou sobre a gruta sagrada de Belém.
    • Duplo plano: macrocosmo e microcosmo como leituras simultâneas
    • Segunda nascença: coração como lugar espiritual do renascimento
    • Rituais iniciáticos: caverna como matriz de renascimento simbólico
    • Laudes latinas do Natal: pedido de nascimento interior
    • Segunda epístola de Pedro: estrela levantando-se nos corações
    • Belém como paradigma exterior do acontecimento interior
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