SANTOS MISTÉRIOS
HANI, Jean. La divine liturgie: aperçues sur la messe. Paris: Éditions de la Maisnie, 1981.
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O sacrifício do Cristo tem uma extensão maior que sua imolação e sua morte; condição de passagem a outro plano de existência, do mundo físico decadente ao mundo espiritual.
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Morte do Cristo é o prelúdio de sua ressurreição seu nascimento enquanto homem no universo divino, onde enquanto homem é glorificado.
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Deste modo deve-se compreender a doutrina do sofrimento expiadora e e redentora no domínio humano-divino.
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O sofrimento, salário do pecado, como a morte, nos destaca do sensível, do mundo fenomenal, se assumida a perspectiva sacrificial total: morte e ressurreição, abaixamento e exaltação.
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Esta perspectiva vale também para o ascetismo (askesis).
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A morte do Cristo é uma morte vivificante e o prelúdio da ressurreição: “Mistério da Salvação”.
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O mistério da salvação é a revelação de Deus no Logos, o Verbo incarnado; Deus se revela ao mundo na natureza humana para operar a salvação desta natureza.
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Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade; Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória. Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, Não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações: Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação; Tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos; E qual a sobre-excelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus. Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro; E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos. (Ef 1:9-23)
Mas a salvação não se deu uma única vez pela morte do Cristo; o fato da redenção deve viver na Igreja por uma presença mística e concreta a cada instante.Cristo instituiu o rito que devia perpetuar de modo concreto, objetivo, a cada instante, o mistério da salvação, e deus aos discípulos os poderes sobrenaturais de efetivar este rito: “faça isto em memória de Mim; pois cada vez que comeres deste pão e beberes deste cálice, anunciareis Minha morte e confessareis Minha ressurreição até Meu retorno”; “Comemoramos Tua morte senhor, confessamos Tua Ressurreição e esperamos Teu segundo Advento” (Palavras da consagração da missa siríaca).Por este rito, a Igreja nascida do Sangue de Cristo, é chamada a viver deste sangue, morrendo para o mundo e ressuscitando perpetuamente com Jesus.Uma Grande Obra une Cristo e Igreja, em três atos: Batismo, Confirmação, Eucaristia.O mais importante de todos a Eucaristia é um “sacrifício espiritual” (logiki thysia), identificado com uma liturgia exterior, a missa, ação sagrada realizada exteriormente, mas realizada interiormente em cada um de nós pelo Cristo, pela intermediação dos oficiantes.Esta ação sagrada se denomina “Santos Mistérios” (ta haghia mistiria, sacra mysteria), usa o mesmo termo mystirion que designa a ação sobrenatural do Filho de Deus pela salvação da humanidade e a ação ritual que se aplica ao homem de modo visível.Expressão “santos mistérios” herdada da antiga Grécia onde designava a liturgia de certos cultos, mais ou menos esotéricos, como o de Eleusis (Eleusinian_Mysteries), que visavam garantir a salvação do indivíduo.Ideia fundamental dos mystiria é de iniciação à vida divina com vistas à salvação e à imortalidade, fundados sobre um mito (relato sagrado), relatando as ações e sofrimentos de um deus próximo do homem, que viveu outrora, in illo tempore, partilhando os sofrimentos humanos: Zagreus, Osiris, e outros.O que constitui os mistérios de modo específico é a existência de um rito apropriado, vindo do passado, capaz de renovar e tornar presentes estas ações e estes sofrimentos divinos, como meio de perpetuar a eficacidade para os homens.Estes deuses realizaram e sofreram in illo tempore um ato pela virtude do qual todos aqueles que nele creem, os mystis, entram em relação ontológica coma divindade, refazem, na iniciação, o percurso e a experiência das provações e do triunfo do deus, e assim obtêm a a salvação e a imortalidade.Este rito se reveste de uma representação dramática, de caráter figurativo ou de caráter simbólico segundo o caso.Neste esquema geral reconhece-se aquele da liturgia cristã, liturgia dos mistérios que é a atividade central de nossa religião. Na celebração eucarística estão intimamente unidos dois elementos essenciais do cristianismo: a oração de louvor e de ação de graças e o sacrifício divino.
O modo deste rito de salvação é destinado como memorial: a missa é o “Memorial do Senhor”. Quer dizer que na Divina Liturgia, trata-se de “fazer memória” do sacrifício do Cristo e de toda economia da salvação (anamnesis).
Vê-se o erro da interpretação do protestantismo de Calvino, onde a liturgia da missa destina-se a reavivar a lembrança das benesses de Jesus, e a despertar nossa memória e reaquecer a piedade.
A concepção protestante é totalmente estranha à fé das Igrejas apostólicas do Oriente como do Ocidente para quem, quaisquer que sejam certas divergências teológicas de detalhe, a missa é um sacrifício real, operado pela presença real do Cristo nas oblações.
Deve-se rever o termo “memória” e “comemorar”, que nas línguas modernas têm um sentido diferente do das sociedades tradicionais. A comemoração é o que se pode denominar “memória ritual”; é a celebração de uma obra divina sobre a qual se funda uma comunidade religiosa, celebração que re-presenta, no sentido etimológico da palavra, quer dizer: tornar de novo presente, esta obra obra divina cuja meta é a união do deu e a imortalidade.
Na Grécia antiga, Mnemosyne, a Memória personificada, era a mãe das Musas. Mnemosyne permitia ao poeta estar presente ao passado divino, juntar-se ao tempo dos eventos antigos e sobretudo o mistério das origens. A rememoração para os gregos arcaicos buscava não situar os eventos em um quadro temporal, mas a alcançar o fundo do ser, o original, a realidade primordial, o que equivale a sair do tempo.
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