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ROSÁRIO

HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.

  • A prática do rosário constitui uma autêntica via de realização espiritual que foi obscurecida pela negligência e pela ignorância, tornando-se aparentemente uma devoção anódina e antiquada.
    • A desafeição pelo rosário, e mesmo o desdém, resulta da perda de sua verdadeira significação.
    • O rosário é um dos mais poderosos meios rituais à disposição dos cristãos.
    • Seu exercício se funda no exercício operativo essencial de todas as vias espirituais.
  • O rosário ou terço é um contador de orações presente em todas as tradições onde existem orações repetitivas, cada tradição possuindo sua própria forma e fórmula.
    • O terço dos brâmanes, aksha-mâlâ, repete a fórmula sagrada AUM ou a litania dos Nomes divinos de Vishnu.
    • No budismo, recita-se sobre o terço de cento e oito grãos a fórmula Namomitabhaya Buddhaya, saudação ao Buda Amitaba.
    • No islã existem dois tipos de terços de noventa e nove grãos: um com três séries de trinta e três grãos para as fórmulas Soubhan Allah, el hamdou l-illah e Allah akbar; outro para a litania dos noventa e nove Nomes divinos.
    • O kombologion grego, cujo nome combina logos e kombos, remonta a São Pacômio e São Basílio.
    • Os nomes ocidentais chapelet e rosaire datam da Idade Média e evocam a coroa de rosas portada em procissões marianas.
    • O terço cristão oriental de cem grãos recita a fórmula Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim.
  • A oração do rosário é uma prece de natureza particular, definida pela invocação do Nome divino e pela repetição rítmica desse Nome, com meditação como consequência natural.
    • A prece do terço se distingue da oração de pedido por constituir uma encantação: movimento de elevação da alma a Deus em vista da união, não de obtenção de um objeto definido.
    • A encantação é uma aspiração do ser ao universal para obter iluminação interior, expressa por palavras que lhe servem de suporte, constituídas por uma fórmula que encerra um Nome divino, denominada na Índia mantra.
    • O Nome divino tem poder ilimitado por ser idêntico ao próprio Deus, conforme Mestre Eckhart: o Pai não vê, ouve, diz nem quer nada além de Seu próprio Nome; o Nome contém todas as coisas e é o Pai Ele mesmo.
    • F. Schuon afirma que a razão suficiente da invocação do Nome é o souvenir de Dieu, que é a consciência do Absoluto; o Nome atualiza essa consciência, a perpetua na alma e a fixa no coração, transmutando e absorvendo o ser inteiro.
  • O Nome divino é invocado no rosário sob duas formas reveladas, no Pai-Nosso e na Ave-Maria, e essa origem revelada é capital pois confere às fórmulas uma potência que as humanas não possuem.
    • No Pai-Nosso a fórmula é Santificado seja o Teu Nome, no sentido bíblico de proclamado santo.
    • Na Ave-Maria o Nome essencial é o de Jesus, e a parte fundamental é a primeira, revelada, composta pela saudação do Anjo Gabriel e pela de Isabel ao ser preenchida pelo Espírito Santo; a segunda parte, oração de pedido, é adição tardia medieval.
    • O nome hebraico Yeshou'a significa Deus salva e contém em sua grafia consonantal YHShW(a) o Nome divino YH, pronunciado Yah, base do Grande Nome YHWH, invocado por todos os cristãos ao cantarem Aleluia, Hallelu-Yah.
  • O Nome de Maria possui importância capital e encerra um sentido secreto que só aparece a partir da forma hebraica Mariam, grafada MRIM.
    • Segundo São Jerônimo a liturgia latina adotou o sentido de stella maris, étoile de la mer, no hino Ave Maris Stella.
    • MRIM se decompõe em MIM e R: MIM com a vogal A produz Maim, as águas; M (mem) é o hierograma da passividade universal e da receptividade pura; I ou Y (yod) é o hierograma da atividade divina; R (resh) é o desdobramento da energia em movimento, originalmente hieróglifo da serpente se lançando para a frente.
    • O nome MaRIaM traduz o próprio ato criador: RI é a emissão ad extra da energia divina criadora sobre a Substância cósmica representada pelas Águas primordiais de Gênesis 1.
    • O Nome de Maria é, a seu modo, um Nome divino referente à atividade divina ad extra; Jean Borella identificou esse mistério com o da Imaculada Conceição: Maria é a manifestação humana da Possibilidade universal, concepção forçosamente imaculada, identificando-se à Prakriti ou Substância universal, à Materia prima ou Mãe universal no plano do Ser, ao Espírito de Deus sobre as Águas no plano cósmico, e ao casal Adão-Eva no plano humano primitivo.
  • A encarnação do Verbo não podia se realizar senão segundo o mesmo processo da Criação, razão pela qual a Mãe do Deus incarnado não podia ser senão a manifestação humana da Toda-Possibilidade e da Substância universal.
    • As palavras do Anjo Gabriel em Lucas 1, 35 se calca quase exatamente sobre o texto de Gênesis: o verbo grego episkiasei significa cobrir com conotação de incubar e fecundar, assim como o hebraico merakhepheth, traduzido inexatamente por pairava.
    • O mistério da Virgem-Mãe radica no mistério da reintegração do homem decaído, que deve viver em si mesmo o mistério da Virgem.
    • O ser manifestado, para reencontrar seu arquétipo eterno, deve realizar em si a Toda-Possibilidade em sua isenção de toda limitação, reencontrando a Pureza, a Beleza, a Pobreza e a Bondade principiais da Virgem.
    • O casal Espírito-Virgem Maria, ou Novo Adão-Nova Eva, ou Cristo-Igreja, preside ao novo nascimento como Adão e Eva ao nascimento ordinário; daí os títulos de corredentora, mediadora das graças e mãe dos homens.
    • A alma individual deve transformar-se para se identificar à Alma universal, pois o Espírito Santo só pode agir nela se participar das qualidades da Substância; essa alquimia espiritual opera-se pelos sacramentos e pela contemplação.
  • A finalidade da recitação do rosário é identificar a alma ao seio virginal para tornar-se o lugar da geração do Verbo em si mesma, conforme F. Schuon.
    • A repetição das palavras do Anjo transforma a alma em seu arquétipo virginal, pois as palavras da encantação são pronunciadas por Deus e realizam a concepção quando a alma consente a seu sentido.
    • O exercício não é autosugestão mas opera pela graça divina no quadro da Igreja, embora a atividade mental crie a ambiance psíquica favorável infundindo em si a imagem mariana.
    • O espírito da recitação é o de uma afirmação proléptica: afirma-se por antecipação como realizado o que deve se realizar, método presente em todas as vias espirituais, como na encantação hindu do mantra Eu sou Isso.
    • A segunda parte da Ave, na qual o homem se confessa pecador no sentido de criatura e nada criatural, preserva o recitante de toda convicção prematura.
    • F. Chenique desenvolveu a meditação suscitada pelas palavras da Ave: cada expressão corresponde a um movimento de aproximação da alma às qualidades da Substância universal e ao engendramento do Verbo em si mesma.
  • A eficácia do rosário reside essencialmente na virtude operativa dos Nomes divinos, mas a forma repetitiva é igualmente capital, sem ser essencial.
    • A repetição é comum ao japa-yoga e ao mantra-yoga, denominações hindus que mostram a importância da repetitividade ao associá-la à palavra yoga, que significa união.
    • Sem repetição não há encantação, pois a repetição cria a condição do psiquismo para receber a influência espiritual superior.
    • O ritmo regular canaliza a sensibilidade, reduz a dispersão mental, favorece a atenção e o recolhimento; é estabelecido medicalmente que a repetição modifica o estado de consciência e favorece a meditação.
    • O movimento repetitivo da encantação do rosário foi comparado ao de uma espiral: os elementos variáveis situam-se nas espiras externas e os Nomes divinos se identificam ao Eixo imóvel em torno do qual se desenvolve a espiral.
  • O ritmo do rosário é estruturado em profundidade por números de simbolismo significativo, pois Deus cria tudo com número, peso e medida (Sabedoria 11, 20).
    • O terço é construído sobre uma combinação dos números 1, 2, 3, 5 e 10.
    • A pequena haste com a cruz segue o esquema 1-3-1 simbolizando a Unidade divina, a Trindade e o retorno à Unidade, bem como a evolução do mundo e o retorno de tudo a Deus.
    • O esquema numérico da dezena é 1-10: a Unidade divina e a perfeição do criado ao término de sua evolução, a Décade pitagórica cuja raiz é a Tétractis (1+2+3+4).
    • O 10 é repetido cinco vezes para constituir o terço, 10×5=50: o 5 é o número do homem terrestre; 50 remete à Pentecostes, festa do 50º dia, e à união da Virgem com o Espírito Santo.
    • O rosário completo compreende 15 dezenas e 150 Ave-Marias; 15 é o valor numérico das letras do Nome divino Yah, Y(=10) e H(=5), primeiro elemento do Nome Yahweh, misteriosamente encerrado na recitação do rosário.
    • Somando os 150 Ave das dezenas aos 3 Ave iniciais obtém-se 153, número dos peixes da pesca milagrosa (Jo 21, 1-14), que Agostinho, no Tratado 122 sobre João, mostrou ser sinal da regeneração dos homens pelo Espírito de Jesus.
  • O simbolismo do chapelet como objeto estende o significado do rosário à dimensão cósmica, articulando a Criação em seu duplo movimento de saída de Deus e retorno a Deus.
    • A forma esférica dos grãos dispostos em círculo sobre o fio é iluminada pela Bhagavad-Gita VII, 7, onde Krishna diz que todas as coisas estão enfiadas Nele como um rosário de pérolas num fio.
    • O sutratma é Atma considerado como o fio (sutra) que penetra e liga todos os seres e todos os mundos; cada estado de existência é representado por uma esfera que o fio atravessa; a cadeia dos mundos é figurada em forma circular.
    • O fio é o elemento essencial do terço pois representa a Divindade; a fórmula pronunciada sobre cada grão corresponde a uma respiração, cujas duas fases simbolizam a produção e a reabsorção de um mundo; o intervalo entre duas respirações simboliza o pralaya.
    • O chapelet estático torna-se símbolo dinâmico pela recitação escandida pelos números significativos; a espiral é outra versão do simbolismo circular, com as espiras correspondendo aos grãos e o eixo imóvel ao fio ou sutratma.
  • A tradição ocidental enriqueceu a recitação do rosário com a meditação dos Mistérios da Virgem, que constituem as etapas da vida cristã como caminho espiritual.
    • Os mistérios joyeux são a Anunciação, a Visitação, a Natividade, a Apresentação no Templo e o Encontro de Jesus no Templo.
    • Os mistérios douloureux são a Agonia, a Flagelação, a Coroação de espinhos, o Caminho da Cruz e a Crucificação.
    • Os mistérios glorieux são a Ressurreição, a Ascensão, Pentecostes, a Assunção e a Coroação da Virgem no Céu.
    • A Virgem é símbolo e protótipo da alma humana, o puro espelho onde Deus pode Se refletir, o Espelho de Justiça que é também a Porta do Céu, conforme J. Borella.
    • F. Chenique comenta que nos mistérios joyeux a alma se abre ao Divino: recebe o germe do Verbo na Anunciação, concentra-se na presença divina na Visitação, engendra o Verbo na Natividade, submete-se à Lei exterior na Apresentação e encontra a alegria de Deus no Reencontro.
    • Os mistérios douloureux representam as tribulações do Verbo incarnado que o homem deve atravessar pessoalmente: flagelar seu Eu, coroá-lo de espinhos, fazê-lo carregar a cruz e crucificá-lo, correspondendo ao que a mística muçulmana chama de extinção, el-fana.
    • Os mistérios glorieux descrevem a transformação da alma: ressurreição após a extinção, elevação na Ascensão, deificação pela potência do Espírito Santo na Pentecostes, elevação através dos estados superiores do Ser na Assunção, e atingimento da Divindade no Coroamento.
  • O Padre Francisco del Castillo, religioso peruano do século XVII, elaborou técnicas contemplativas para a recitação do rosário que revelam uma profunda dimensão teológico-metafísica.
    • Sua biografia foi escrita em 1693 por um confrade jesuíta e descoberta numa biblioteca de Lima pelo pesquisador José F. Tudela.
    • Tudela destacou a distinção estabelecida pelo Padre entre visão imaginal e visão intelectual no sentido tradicional, sendo a segunda a que caracteriza sua experiência espiritual; percebe-se em sua obra um eco da doutrina dos Nomes divinos e das Hierarquias celestes de Dionísio Areopagita.
    • Sua vida espiritual foi centrada no culto da Virgem desde os cinco anos e se concretizou em grande devoção ao rosário; suas técnicas visavam fazer da recitação não apenas devoção mariana mas exercício de todas as virtudes.
  • A primeira técnica do Padre del Castillo distribui as dezenas do terço entre os Nomes divinos, contemplando o que deles resplandeceu em Maria como espelho puríssimo do Sol espiritual.
    • Os Nomes divinos enumerados, a Bondade, a Santidade, a Liberdade, a Presciência, a Justiça, a Majestade, o Poder soberano, a Excelência e a Misericórdia, encontram-se quase todos em Dionísio Areopagita, fonte de toda a teologia mística.
    • O Nome de Jesus, enquanto Deus, contém sinteticamente todos os Nomes ou Atributos divinos; a técnica do Padre é um aprofundamento desses Nomes incluídos no de Jesus; o Nome de Maria aparece como eco e reverberação do Nome de Jesus em seu espelho de Justiça.
    • A finalidade dupla da prece: individualmente, imitar a Virgem tornando-se espelho dos Nomes divinos; universalmente e cosmicamente, contemplar a Majestade soberana com todos os Seus Atributos como continens de todas as coisas criadas, numa perspectiva que evoca Dionísio quando diz que a todos os nomes convém à Causa de tudo para que tudo dependa dela e nela se funde.
    • Os dois movimentos, vertical de aproximação dos Atributos divinos e horizontal de universalização pela contemplação do criado, são inseparáveis e concomitantes em toda realização espiritual, como o Padre expressou ao descrever seu estado durante o exercício: corpo e alma inteiramente rodeados e penetrados por Deus como o pássaro pelo vento, o ferro pelo fogo na forja e a esponja pelo mar.
  • A segunda técnica do Padre del Castillo compara o rosário a uma escada de quinze degraus que conduz da terra ao céu e à união divina, correspondendo às quinze virtudes que resplandeceram em Maria superiormente a todos os ordens humanos e angélicos.
    • A imagem da escada é conhecida em todas as tradições como símbolo da ascensão espiritual; na tradição cristã remonta aos Padres primitivos, ao monge sinaíta João Clímaco e ao protótipo bíblico da Escada de Jacó (Gn 28, 11).
    • Nos doze primeiros degraus o Padre coloca as virtudes Fe, Esperança, Caridade, Força, Sabedoria, Justiça, Contemplação, Obediência, Pobreza, Pureza, Humildade e Fecundidade, homologáveis à maioria dos Nomes divinos.
    • A virtude espiritual tem por essência uma Qualidade divina e constitui aquisição de ser que estabelece o homem em estado espiritual superior, base para o estado seguinte.
    • Os três últimos degraus são ocupados pelos três ordens dos espíritos angélicos em seus nove coros: anjos, arcanjos e Virtudes; Potestades, Dominações e Principados; Tronos, Querubins e Serafins, segundo a tradição dionisiana que os descreve como estados do Ser.
    • Dionísio define a hierarquia como ordenação sagrada que confere às criaturas a semelhança divina e as une a Deus por intermediação dos seres hierarquicamente superiores.
    • A analogia entre a estrutura da inteligência celeste e a da inteligência humana, presente em Tauler e em Boaventura, funda a possibilidade dessa elevação progressiva.
    • A visada do Padre vai além da ordem dos Serafins, proclamando Maria superior a todos os seres incluídas as hierarquias mais elevadas, o que é rigorosamente ortodoxo: a liturgia a celebra como mais venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins.
    • Maria é ela mesma a Escada celeste e a Escada de Jacó; posicionada no Axis mundi e em seu cume, ela recapitula todas as hierarquias angélicas, razão de seus títulos Rainha dos anjos e Rainha dos céus, e constitui a Porta do céu, porta do sol pela qual se sai do cosmos para atingir a região da Divindade.
    • Sendo Maria filha da terra tornado filha do Pai, ela é o penhor da deificação do homem e o protótipo, ao lado do Filho, da humanidade glorificada, o que confere às duas técnicas contemplativas do Padre perspectivas surpreendentes sobre o papel do rosário na vida espiritual.
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