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SAGRADO CORAÇÃO
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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O catolicismo ocidental recebeu do Céu intervenções particularmente poderosas ao longo dos séculos, mas seu relativo fracasso explica a inquietante situação religiosa atual.
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Duas intervenções celestes se destacam entre as mais importantes: a instituição solene do Rosário e a introdução do culto do Sagrado Coração.
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Essas devoções não estão totalmente esquecidas, mas foram reduzidas a simples exercícios de piedade exterior, perdendo sua significação, valor e eficácia mais profundos.
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O culto do Sagrado Coração apresenta desenvolvimento paradoxal: enraizado nas origens da dogmática cristã e autenticado pelo magistério supremo, foi votado a uma estranha incompreensão e, hoje, a uma real desafeição.
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Uma pesquisa dos anos 50 demonstrou que a desafeição provém do pietismo estreito e do sentimentalismo em que a devoção se enlameou, originados de equívoco sobre a mística afetiva dos santos que receberam revelações.
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Essa mística era na realidade o revestimento de uma doutrina e experiência de ordem teologal e intelectual no verdadeiro sentido do termo.
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A deformação gerou manifestações devocionais superficiais, livros piedosos, confusão do coração com símbolo apenas afetivo, cânticos melífluos e imagens de mau gosto representando o coração divino como víscera sanguinolenta, provocando repulsa.
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A formulação expressa da doutrina do Sagrado Coração foi objeto de revelações privadas antes de sua difusão pública, o que se explica por seu caráter eminentemente interior.
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O mistério do Coração foi reservado ao período da Fim dos Tempos para reativar a chama da caridade que estaria esfriada, conforme revelação recebida por Santa Gertrude do Apóstolo São João.
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São João teria dito a Gertrude que estava incumbido de anunciar a doutrina do Verbo incriado, mas que Deus Se reservou fazer conhecer o Coração sagrado nos últimos tempos.
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O culto do Sagrado Coração aparece como tentativa celeste de redirecionamento e renovação de toda a tradição cristã nos domínios espiritual individual, intelectual e social.
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O símbolo do Coração é a chave de toda a doutrina e de sua eficácia, e sua compreensão é indispensável para apreender o sentido do culto.
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Para os hebreus o coração é o centro metafísico do homem integrando todas as suas faculdades: razão, intuição e vontade; é antes de tudo o órgão da inteligência pura e intuitiva, sendo o sentimento apenas secundário.
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Essa concepção, herdada pelos Padres principalmente orientais, é comum a todas as tradições regulares por ser verdade de ordem ontológica e metafísica.
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Para a mística islâmica o coração é o órgão da vida contemplativa, o ponto de inserção do espírito na matéria, o lugar oculto da consciência, o Trono de Deus e seu templo no homem, conforme Al-Jili.
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Para as Upanishads o coração (hridaya) é a residência do Atman num espaço ínfimo chamado akasha; na Bhagavad-Gita 16, 61, Krishna declara habitar no coração de todos os seres.
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As invocações das Litanias do Sagrado Coração sintetizam admiravelmente o simbolismo e a significação do coração divino.
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O Coração é chamado Templo santo de Deus, Tabernáculo do Altíssimo, Casa de Deus e Porta do Céu, Fornalha ardente de caridade, Rei e Centro de todos os corações, Coração em que reside a Plenitude da Divindade, Fonte de vida e santidade, Coração em que se encontram todos os tesouros da sabedoria e da ciência.
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Essas denominações correspondem às expressões de Al-Jili sobre o coração como Trono de Deus e seu templo, e como centro da consciência divina e circunferência do círculo de tudo o que existe.
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A invocação Rei e centro de todos os corações converge com a afirmação do swami Adidévananda de que Atman é o coração dos corações, transcendente e imanente.
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Santa Mechtilde recebeu a revelação dessa universalidade ao ver no coração divino, num êxtase, todos os eleitos e toda a criatura.
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O Coração do Cristo é o centro do mundo, como o coração humano é o centro do corpo, e o simbolismo solar exprime essa realidade.
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São Clemente de Alexandria descreve a Deus como Coração do universo do qual partem extensões infinitas nas seis direções do espaço, evocando o desenvolvimento da criação a partir do ponto primordial através das seis fases cíclicas do tempo resolvendo-se no sétimo ou Sabbat.
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O ponto primordial é chamado na Cabala de Santo Palácio ou Palácio interior, não sendo outro senão o Coração do Verbo, centro do mundo, do espaço e do tempo.
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Proclos saúda o sol como detentor da chave da fonte da vida, ocupando o trono do meio acima do Éter com um círculo deslumbrante que é o Coração do mundo.
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Plutarco afirma que o sol dispersa calor e luz como se fossem sangue e sopro; Macróbio o chama de Coração do céu; Al-Jili considera que o coração está para as outras faculdades como o sol para os planetas.
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O mármore da cartuxa de Orques representa o Coração radiante no meio de dois círculos concêntricos, o das planetas e o do zodíaco, documentando a profundidade intelectual dos monges de São Bruno; gravuras do século XVIII trazem as inscrições Cor Jesu Cor Universi e Centrum Universi.
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Os raios do mármore de Orques são alternadamente retilíneos e ondulados: os retos simbolizam o Intelecto e os ondulados o calor e o amor, sendo a luz intelectual central; a ferida ao centro remete ao Olho do Coração e ao ponto onde reside a Divindade.
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Os textos escriturísticos fixados pela liturgia para a Festa do Sagrado Coração enraízam o culto autêntico na Escritura e na Liturgia eucarística.
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João 19, 34-37 narra a abertura do lado do Cristo pela lança do soldado, de onde saíram água e sangue, cumprimento das Escrituras; Crisóstomo comenta que dessas duas fontes se formou a Igreja e derivam todos os sacramentos.
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Guilherme de São-Thierry vê na abertura do Coração a revelação dos mais altos mistérios, a porta pela qual se entra na Misericórdia e na plenitude de Deus.
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Paulo em Efésios 3, 18-19 convida a compreender com todos os santos a largura, comprimento, altura e profundidade, expressões que remetem à extensão do cosmos segundo a exegese patrística.
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A lança é símbolo axial como a espada e a flecha; ela simboliza o Axis mundi e designa o centro do mundo; ao atravessar o centro cósmico abre a Porta do céu.
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O sangue do Cristo que flui da ferida é assimilado à rosada celeste, símbolo da influência emanada do Princípio divino que dá a vida eterna.
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A iconografia medieval representa o sangue do Cristo transformando-se em rosas: ferros de hóstias do século XII, vitral da catedral de Angers, cânon de altar da abadia de Fontevrault.
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Um emblema dos Rosa-Cruz mostra uma cruz portando cinco rosas representando as cinco chagas, com uma ao centro no lugar do coração; a mesma iconografia aparece numa escultura de Châtellerault do século XV.
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Em latim rosa é homófono de ros, orvalho; a rosada celeste designa na tradição hebraica e cristã a bênção celestial e a graça vivificante; Isaías 26, 19 fala da rosada vivificante de Deus; segundo a Cabala ela vem da Árvore da Vida.
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Angelus Silesius chama o sangue do Cristo de rosada de pérola da nobre Divindade e orvalho de Seu amor.
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O mito do Graal está fundamentalmente ligado ao sacramento eucarístico e à doutrina do Sagrado Coração, contendo a doutrina interior da Eucaristia em sua dimensão cósmica.
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O Graal é a taça contendo o sangue do Cristo recolhido no Calvário por José de Arimateia e ao mesmo tempo o cálice utilizado por Jesus na Ceia; o hieróglifo egípcio do coração é precisamente um vaso.
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A lenda conta que Adão recebeu o Graal mas não pôde levá-lo para fora do Paraíso após a Queda: vivendo no Paraíso, Adão vivia no Coração de Deus, que é o centro do mundo.
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O Graal permaneceu oculto até o tempo do Cristo porque designava o mistério escondido desde o início do mundo, o mistério do Homem-Deus tornando possível a reintegração do homem decaído no estado paradisíaco e sua deificação.
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A difusão da lenda do Graal é contemporânea da primeira difusão do culto do Sagrado Coração no Ocidente; São Bernardo foi um dos principais artesãos deste culto e inspirador da Cavalaria do Templo cujos laços com a tradição do Graal são bem conhecidos.
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Em hebraico yaïn, vinho, tem o mesmo número 70 que sod, o mistério; a supressão da comunhão sob a espécie do vinho para os fiéis pela Igreja Ocidental tem consequências negativas na vida espiritual.
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A quête do Graal é a quête do Coração do Cristo, o itinerário da deificação ou trajeto teantrópico.
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O habitat espiritual no Coração de Jesus e o intercâmbio dos corações constituem dois modos da via espiritual do Sagrado Coração.
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O habitat espiritual foi descrito por Santo Antônio de Pádua, pelo cartusiano Ludolf da Saxônia e por Dom Kempf como refúgio da alma nas aberturas da pedra do Cântico dos Cânticos 2, 13-14, assimiladas à ferida do Coração.
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O Coração é assimilado à Caverna: a alma deve se refugiar na profunda caverna que é a ferida do lado de Jesus e em Seu Coração.
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Santa Mechtilde viu seu próprio coração mergulhado no do Cristo; essa reintegração no Coração equivale ao retorno ao Paraíso, que é o centro do mundo, conforme René Guénon.
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O intercâmbio dos corações é atestado em Santa Catarina de Sena e em Santa Lutgarde, a quem o Cristo tomou o coração para dar-lhe o Seu; Tomás de Cantimpré explicou isso como a união do Espírito incriado e do espírito criado pela excelência da Graça, segundo 1 Coríntios 6, 17.
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O hesicasmo oriental com sua Prece do Coração visa fazer habitar Jesus no coração do fiel e identificar os dois corações pela invocação repetitiva do Nome de Jesus; o Ocidente instituiu uma Festa do Santo Nome de Jesus aproximadamente na mesma época da extensão da devoção ao Sagrado Coração.
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A revelação de Paray-le-Monial no século XVII visava a uma renovação total que abrangia os domínios social e intelectual além do espiritual individual.
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A missão foi confiada ao rei Luís XIV como lieutenant du Christ e Roi de France ocupando posição central na Cristandade e figurando o Rei do mundo, título pertencente ao Cristo.
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A lenda do Graal é uma elaboração da doutrina do Coração com visada temporal e social: especifica as modalidades de aplicação da potência do Verbo divino ao governo providencial do mundo, que o rei terrestre deve imitar.
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A não realização do grande desígnio teria evitado a catástrofe de 1789; sua causa principal deve ser buscada no estado geral dos espíritos moldados pela cultura humanista, racionalista e moralizante, incapaz de compreender o espírito tradicional.
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O projeto do Hiéron de Paray no século XIX constituiu uma tentativa grandiosa de reforma intelectual fundada na Tradição primordial, mas fracassou pela incompreensão que veio em grande parte do próprio clero.
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A Société du Règne e a Société des Fastes eucharistiques propuseram-se instaurar o reinado social de Cristo e do Sagrado Coração pela Eucaristia lutando contra as utopias revolucionárias.
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O projeto previa retomar o sistema do trivium e do quadrivium medieval adaptado ao mundo moderno, restaurando as ciências tradicionais, renovando o ensino artístico e a ciência política.
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Em 1927 os padres jesuítas transformaram a Sociedade numa Liga universal do Cristo-Rei que pouco tinha a ver com o desígnio dos fundadores; a devoção ao Sagrado Coração, em sua forma autêntica princípio e motor da reforma dos espíritos, afundou num pietismo indigno da revelação de Paray.
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O Papa Pio XI, sob influência do Hiéron, instituiu a Festa do Cristo-Rei e publicou a encíclica Haurietis aquas em 1925, expondo a doutrina tradicional dos princípios da organização social e condenando o laicismo moderno; sessenta anos depois, boa parte dos teólogos e bispos mostrou-se hostil à doutrina proclamada pelo Magistério.
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A restauração da ordem temporal exige, conforme demonstrou René Guénon, a constituição prévia de uma elite intelectual suficientemente numerosa e atuante capaz de reverter a ideologia dominante e fazer retornar os espíritos ao modo de pensar das sociedades tradicionais.
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O fracasso é provisório: o Coração do Cristo, Rei do mundo, após o fim do ciclo atual, operará a reintegração, sendo ele mesmo o Coração divino, centro do universo, como proclamavam as imagens dos séculos XVII e XVIII.
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