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SIMBOLISMO DO TEMPLO
HANI, Jean. O Simbolismo do Templo Cristão. Lisboa: Edições 70, 1981
Introdução
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O problema da arte sacra na atualidade evidencia-se tanto pela sua ausência prática, apesar dos esforços em contrário, quanto pelo paradoxal aumento do conhecimento teórico sobre a arte sacra autêntica proveniente de diversas culturas e épocas.
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A arte religiosa contemporânea distingue-se radicalmente da verdadeira arte sacra, que deixou de existir.
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Estudos de historiadores da arte como Mâle e Focillon sobre as catedrais ocidentais foram contemporâneos das investigações de estudiosos como Éliade, Mus, Coomaraswamy e outros sobre edifícios sagrados de outras civilizações.
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As conclusões desses estudos, aplicáveis também aos monumentos ocidentais, revolucionam a compreensão tradicional destes, até então dominada por concepções individualistas e literárias oriundas do romantismo.
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A verdadeira arte sacra revela-se de natureza ontológica e cosmológica, e não sentimental ou psicológica, atuando como tradução de uma realidade supra-humana que transcende a individualidade do artista.
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A redescoberta do sentido e dos princípios da arte de construir urge ser aplicada, pois as igrejas contemporâneas não satisfazem nem a elite intelectual nem a maioria do povo, agradando apenas a certos “snobs”.
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A recuperação da arte sacra exige o reconhecimento da dignidade superior da arte como tradução sensível da Beleza ideal, a qual é um atributo divino e veículo do Espírito, podendo, em contrapartida, também veicular influências nefastas por meio da fealdade de formas de caráter demoníaco.
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A Beleza é definida como uma forma do Divino, um atributo de Deus e reflexo da Beatitude divina, conforme F. Schuon, sendo também fundamento do Ser por sua ligação à Verdade divina.
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A arte sacra permite a assimilação direta de verdades transcendentes e supra-racionais, ao contrário do conhecimento discursivo da razão.
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A fealdade de determinadas formas, como em produções derivadas do surrealismo, pode manifestar o satanismo, o polo invertido da Beleza divina.
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A causa primeira da arte sacra é o Verbo criador, o Artista supremo que, como princípio formal, imprime forma ao caos, sendo sua perfeição, segundo Dionísio o Areopagita, “forma enformante em tudo o que é informe”.
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O objetivo da arte é revelar a imagem da Natureza divina oculta no criado, realizando objetos visíveis que simbolizam o Deus invisível, o que faz da arte sacra um prolongamento da Encarnação, justificada pela lógica do II Concílio de Niceia.
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Numa arte de valor quase sacramental, o artista não se guia por inspirações pessoais, mas pela busca da forma perfeita que corresponda a protótipos sagrados, cujo conteúdo objetivo traduz, por meio do simbolismo, leis cósmicas e princípios universais, estabelecendo uma hierarquia que liga a estética à metafísica.
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O trabalho do artista não é a expressão da sua personalidade, mas a procura de formas baseadas em protótipos de inspiração celeste.
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O caráter sacro da arte é determinado pelo seu conteúdo objetivo, que consiste em visões correspondentes, no domínio sensível, a leis cósmicas expressivas de princípios universais.
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A estética subordina-se hierarquicamente à cosmologia, e esta à ontologia e à metafísica.
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A essência da arte sacra é ser simbólica, traduzindo em imagens polivalentes a correspondência entre as diversas ordens de realidade e conduzindo o homem do visível ao invisível.
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A igreja, enquanto santuário ou templo, não se limita a reunir fiéis, mas visa criar um ambiente propício à manifestação da Graça, atuando como um instrumento de recolhimento e elevação que, através do seu simbolismo total e da sua integração com a liturgia, permite a epifania do Espírito à corporeidade.
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A finalidade do templo é canalizar sensações, sentimentos e ideias para a comunhão com o Divino, num jogo de influências que prepara a descida da Graça.
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O santuário das grandes épocas serve de modelo por seu caráter de “instrumento” de recolhimento, alegria, sacrifício e elevação.
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O templo constitui um símbolo total, formado pela combinação harmoniosa de mil símbolos, que se funde com os símbolos da liturgia numa prodigiosa encantação que prepara a epifania do Espírito.
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A profunda unidade que preside à organização do templo e da liturgia é indissociável, pois um foi feito para a outra.
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O presente estudo sobre a arte sacra, particularmente a arquitetura, não assume um tom polêmico, mas visa recordar os seus princípios essenciais, cujo esquecimento causou a decadência atual, para que os artistas possam criar obras análogas às do passado por emanarem do mesmo foco espiritual, e não idênticas a elas.
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Os debates sobre arte sacra tendem a ser infindáveis e inúteis se não se recordar a verdadeira natureza dessa arte e seus princípios.
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A redescoberta dos princípios visa inspirar a criação de obras análogas, não idênticas, às do passado, por terem a mesma fonte espiritual.
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O objetivo das reflexões é transmitir verdades de ordem tradicional, não um ponto de vista individual.
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A intenção é ajudar o leitor a redescobrir o significado profundo de um santuário, traçando as grandes linhas do seu simbolismo em função da ação litúrgica.
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Este livro é dirigido ao público esclarecido, não a especialistas, razão pela qual se renuncia, em geral, à indicação de referências no corpo do texto, remetendo-as para a bibliografia final, a fim de não avolumar a leitura.
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As referências só são excepcionalmente indicadas no texto para opiniões muito particulares ou pormenores de erudição.
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As obras que fundamentam o estudo são citadas apenas na bibliografia final.
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A constante citação de trabalhos ao longo do texto foi evitada para não o tornar excessivamente pesado.
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Dentre as obras fundamentais para este estudo, destacam-se as de R. Guénon, que permitiram conhecer claramente o simbolismo dos princípios arquitectónicos, além dos contributos de F. Schuon, T. Burckhardt, A. K. Coomaraswamy, L. Benoist e, no plano técnico, as obras de Ghyka, cuja influência se reconhece e homenageia.
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As obras de R. Guénon são apontadas como basilares para o conhecimento do simbolismo arquitectónico.
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Os trabalhos de F. Schuon, T. Burckhardt, A. K. Coomaraswamy e L. Benoist, realizados no mesmo espírito, prospectivaram o domínio e deram contributos importantes.
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As obras de Ghyka foram indispensáveis do ponto de vista propriamente técnico.
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Reconhece-se e presta-se homenagem ao contributo de todos esses autores.
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