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TEMPLO EGÍPCIO
HANI, Jean. Mythes, rites et symboles: les chemins de l’invisible. Paris: G. Trédaniel, 1992.
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O templo egípcio, como a basílica românica ou a catedral gótica, exerce um fascínio que arrebata o mundo profano e projeta na esfera do sagrado devido à força invisível de uma presença imanente à pedra, sendo esse o cerne de sua definição e função: ele era o coração animador e unificador do mundo egípcio, a fonte de sua sabedoria, e por isso interessa à história filosófica e religiosa da humanidade.
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O templo egípcio, mais ainda que o grego, possui a capacidade de transportar quem o contempla para a esfera do sagrado.
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Essa capacidade deriva da força invisível e misteriosa de uma presença imanente à pedra.
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O templo era o coração que animava e vivificava o mundo egípcio.
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Era a fonte da sabedoria egípcia e o unificador de seus elementos.
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A ida de filósofos e sábios gregos ao Egito para aprender com seus sacerdotes tinha como objetivo principal, não as ciências propriamente ditas, mas as concepções religiosas egípcias, das quais ideias importantes foram de fato incorporadas, como no caso dos Órficos e de Plutarco, sugerindo que o efeito quase mágico da sabedoria egípcia sobre os gregos estava ligado ao que representavam os templos de onde ela emanava.
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Filósofos e sábios gregos buscavam ensinamento com os sacerdotes egípcios em centros como Sais, Mênfis, Tebas e Heliópolis.
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Apesar de os historiadores minimizarem o que os gregos teriam aprendido em ciência no Egito, há incertezas sobre essa avaliação.
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O principal objetivo dos gregos provavelmente era obter conhecimentos religiosos, não científicos.
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Ideias religiosas importantes foram de fato emprestadas do Egito, como na cosmogonia órfica e na obra de Plutarco sobre Osíris.
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A “sabedoria egípcia” exercia um efeito quase mágico sobre os gregos, relacionado à natureza dos templos, sua fonte.
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O templo egípcio, materialmente, era um edifício complexo denominado “casa do deus” (per neter) ou “palácio do deus” (het neter), cuja estrutura, preservada em exemplares como o de Edfu, se desenvolvia do exterior para o interior passando pelo dromos, obeliscos, pilones, pátio, sala hipostila e santuário, cada parte com funções e simbolismos específicos.
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O templo egípcio era chamado de “casa do deus” (per neter) e “palácio do deus” (het neter).
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O templo de Edfu é um dos mais bem conservados e serve de modelo para compreender a estrutura clássica.
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O acesso se dava por uma via processional (dromos) ladeada de esfinges.
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Dois obeliscos de granito, símbolos solares, erguiam-se diante da fachada.
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A entrada principal era ladeada por dois pilones, que simbolizavam as deusas Ísis e Néftis guardando o deus.
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O interior dividia-se em três partes: o pátio (acessível ao povo), a sala hipostila (acesso restrito) e o santuário (onde ficava a estátua do deus).
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O recinto sagrado incluía ainda jardins, o lago sagrado, capelas, habitações de padres, a “Casa da Vida” e outras dependências.
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A decoração do templo egípcio, com bas-relevos coloridos, variava conforme a parte do edifício: cenas públicas nos pilones e pátio, cenas de oferendas e ritos na sala hipostila, e um simbolismo cósmico geral, com o teto representando a abóbada celeste (estrelas, pássaros), o solo a terra (buquês vegetais) e as colunas formas florais, configurando o templo como uma imagem do mundo.
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Os pilones e o exterior do templo exibiam cenas públicas dos atos de piedade do rei.
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A sala hipostila e áreas internas mostravam oferendas, entronizações e procissões, sem revelar segredos do santuário.
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O templo era concebido como uma imagem do mundo (microcosmo).
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O teto, como abóbada celeste, era decorado com estrelas e pássaros.
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O solo, como a terra, era ornamentado com buquês vegetais nas bases das paredes.
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As colunas tinham formas florais, integrando o simbolismo vegetal à arquitetura.
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A construção do templo obedecia a regras precisas de origem supra-humana, transmitidas por um livro mítico, e iniciava-se com um rito de fundação real que incluía a orientação pelos pontos cardeais, a demarcação do perímetro, a escavação e preenchimento com água para simbolizar o nascimento do templo do oceano primordial, o enterro de objetos votivos nos ângulos e a purificação final com incenso.
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Um “Livro de Fundação dos Templos”, atribuído a Imhotep e de origem celeste, continha as regras da arquitetura sagrada.
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O rei, como único sacerdote, realizava o rito de fundação.
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A orientação do templo era feita por visadas estelares para determinar os eixos cardeais.
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O rei demarcava o perímetro com estacas e corda, escavava o solo e o preenchia com água, simbolizando o surgimento do templo do oceano primordial.
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Objetos votivos (esquadro, nível, pedras preciosas) eram enterrados nos ângulos para assegurar a estabilidade espiritual do edifício.
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O rei purificava o templo com fumigações de incenso e o consagrava à divindade.
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O culto diário no templo, secreto e realizado pelo rei ou seu representante, compreendia três ofícios (manhã, meio-dia e tarde) que seguiam o ritmo solar, sendo o da manhã o mais importante, com a abertura do santuário, a imposição de mãos sobre a estátua para “devolver-lhe a alma”, a oferenda de alimentos e a indumentária do deus, num ritual de profundo simbolismo.
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O culto era secreto, com acesso apenas do rei ou do sacerdote que o representava.
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Havia três ofícios diários correspondentes aos momentos principais do ritmo solar.
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No ofício da manhã, o sacerdote abria as portas do santuário ao nascer do sol.
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O sacerdote impunha as mãos sobre a estátua para que a alma do deus (o sol) retornasse ao seu suporte terrestre.
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Ofertas eram depositadas, incenso queimado e a estátua era vestida e ungida.
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A “Casa da Vida” (per ankh), anexa aos grandes templos, era o centro intelectual e iniciático do Egito, onde o rei e os “Seguidores de Hórus” elaboravam e preservavam a sabedoria egípcia, que abrangia diversas disciplinas (astronomia, matemática, medicina, teologia, etc.) sempre subordinadas à teologia, uma metafísica expressa em linguagem simbólica.
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A “Casa da Vida” era o centro intelectual do templo e do Egito, um centro iniciático.
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Seus membros eram o rei e a elite religiosa e intelectual, os “Seguidores de Hórus”.
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Ali se cultivavam disciplinas como astronomia, geografia, matemática, medicina e arquitetura, todas sob a primazia da teologia.
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A teologia egípcia era uma metafísica expressa em linguagem simbólica.
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O objetivo do saber era encarnar a Conhecimento e manter o fluxo divino através dos mundos.
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A compreensão da ciência egípcia exige abandonar a perspectiva ocidental moderna, que a julga rudimentar com base em manuais técnicos como o Papiro Rhind, pois tal saber era sagrado, secreto, transmitido oralmente e voltado não para si mesmo, mas para a realização da Conhecimento superior e para a criação de técnicas que permitissem ao homem participar desse conhecimento.
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A ciência egípcia era fundada em princípios metafísicos ou teológicos.
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Havia uma distinção entre o mundo da Conhecimento (intuitivo, harmônico) e o mundo do saber (técnico).
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O saber egípcio não deve ser julgado por manuais elementares como o Papiro Rhind.
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A construção das pirâmides e templos atesta conhecimentos matemáticos e geométricos avançados.
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O saber era secreto e transmitido apenas a pessoas qualificadas, por ser uma ciência sagrada.
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O templo egípcio era definido como o lugar (akhet, “horizonte”) onde o mundo infinito e o mundo temporal estavam em contato, tendo por função fazer comunicar o céu e a terra para manter a harmonia da criação (Maât) e orientar a conduta humana, papel que se confundia com o do faraó, o único verdadeiro ministro do culto por encarnar a união dos princípios divinos.
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O templo era o “horizonte” (akhet), ponto de contato entre o infinito e o temporal.
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Sua função era estabelecer a comunicação entre céu e terra.
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O objetivo dessa comunicação era manter o equilíbrio da criação (Maât) e orientar a humanidade.
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O faraó, como “filho de Geb e Nut”, encarnava a união do céu e da terra.
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Por isso, o faraó era o único verdadeiro ministro do culto, responsável por manter o fluxo divino no Egito.
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O faraó, como rei sagrado, “recapitulava” em sua personalidade superior todos os seus súditos, permitindo-lhes aceder, em princípio, ao estado de “homem verdadeiro” e de “homem universal” ou “antropocosmo”, um papel iniciático que o templo desempenhava ao refletir em sua estrutura material uma sucessão de etapas espirituais que conduziam da periferia ao centro, do pátio ao santo dos santos.
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O rei sagrado integrava em si todos os seus súditos, permitindo-lhes o acesso ao estado de “homem verdadeiro”.
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O estado de “homem universal” (antropocosmo) era a meta a ser alcançada.
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O templo desempenhava um papel iniciático nesse processo.
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A estrutura material do templo (pátio → sala hipostila → santuário) correspondia a etapas espirituais.
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O acesso ao santo dos santos, na pessoa real, simbolizava a realização do estado antropocósmico.
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O estudo de Schwaller de Lubicz sobre o templo de Luxor revelou que seu plano, com desvios de eixo, corresponde à sobreposição da imagem de um esqueleto humano, identificando as diferentes partes do edifício com órgãos e centros nervosos, demonstrando que o templo era um livro sobre as funções secretas do corpo humano, entendido como imagem do Homem cósmico.
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O plano do templo de Luxor apresenta desvios de eixo inexplicáveis por razões utilitárias.
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Schwaller descobriu que o traçado do templo correspondia à sobreposição de um esqueleto humano.
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Diferentes salas e partes do templo correspondiam a órgãos como a cabeça, a cavidade bucal, o peito, abdômen, etc.
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Órgãos centrais do intelecto e comandos vitais situavam-se nos santuários.
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O templo de Luxor era um edifício consagrado ao microcosmo humano, ao Homem cósmico.
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A análise do templo de Luxor mostra que ele é uma imagem sensível do homem e do cosmos (símbolo micro e macro cósmico), um corpo humano ampliado às dimensões do universo, oferecendo ao homem individual a imagem do que ele é fundamentalmente como microcosmo, e que a consciência, reflexo do ser divino, deve unificar as funções corporificadas para penetrar na Unidade primordial.
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O templo é uma imagem sensível do homem e do cosmos.
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É um corpo humano ampliado às dimensões do macrocosmo, forma exterior do Homem universal.
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O homem individual encontra ali a imagem de sua natureza fundamental como microcosmo.
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A consciência no homem é o reflexo do ser divino, o “templo no homem”.
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O conhecimento dos elementos da gênese (simbolizados nos santuários) e de seu vínculo espiritual permite ao homem penetrar na Unidade primordial.
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A concepção do templo como instrumento de realização espiritual, ligado ao corpo humano e ao cosmos, não é exclusiva do Egito, encontrando-se também no templo hindu, cujo plano é identificado a Purusha (o Homem cósmico), com seus chakras e divindades localizadas nos membros e órgãos, e no templo cristão, que desde os primeiros padres é visto como imagem do cosmos e do corpo humano, particularmente o corpo de Cristo, o Homem-Deus e Homem universal.
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O plano do templo hindu é identificado a Purusha, o Homem cósmico.
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Os chakras (centros energéticos) no plano são pontos de ligação do homem individual com o Homem universal.
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Divindades são localizadas em carrinhos correspondentes a membros e órgãos vitais.
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A tradição cristã, desde os primeiros padres, vê o templo como imagem do cosmos e do corpo humano.
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As partes do corpo humano (cabeça, corpo, braços, coração) correspondem às partes do edifício (santuário, nave, cruzeiro, altar).
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Esse corpo é o de Cristo, o Homem-Deus e Homem universal, no qual se realiza o mistério teândrico.
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O templo egípcio, particularmente em sua forma mais elaborada como em Luxor, oferece a descrição mais impressionante da concepção geral do templo nas culturas tradicionais: um lugar onde o adorador, ao visitar a divindade, retorna ao centro de seu próprio ser num ato que prefigura sua ressurreição e regeneração final.
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O templo egípcio, em sua forma mais elaborada, exemplifica a concepção geral do templo nas culturas tradicionais.
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A visita à divindade no templo corresponde a um retorno do adorador ao centro de seu próprio ser.
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Esse ato de devoção prefigura a ressurreição e a regeneração final do indivíduo.
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