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SIMBÓLICA DA VIAGEM

Le Voyage

* O homem exilado na modernidade não tem acesso real à imensidão do mundo que as imagens televisivas lhe oferecem, pois sua imobilização é o preço pago pelo acesso aos bens de consumo.

  • Desmond Morris nomeou a megalópole pós-industrial de “zoológico humano”.
  • O habitante da torre-residência de concreto está sitiado pelas novas barbáries motorizadas, cada vez mais afastado das fontes da vida e da cultura.
  • Sua condição se aproxima à do rebanho que seu antepassado pastoreava, numa espécie de “estabulação livre” moderna.
  • A contração do espaço suprimiu os pequenos deslocamentos que ritmavam a vida cotidiana há milênios e congelou os intercâmbios seculares entre a casa, os vizinhos e o centro da comunidade.
    • O destino das sociedades contemporâneas é a congelação progressiva no programado e no itinerário sinalizado.
  • Para escapar ao destino, o homem precisa operar uma ruptura, partir e “tomar distância”, conquistando o tempo de viver em substituição à conquista do espaço longínquo, abolido pela técnica.
    • A modernidade inverteu a relação entre espaço e tempo: não se trata mais de descobrir o mundo, mas de encontrar o tempo.
    • O Apocalipse de João já respondia a essa falsa questão: no dia fixado os céus se redobrarão como uma tenda, como um livro que se fecha, e “a morte morrerá”.
  • A urbanização, obra dos filhos de Caim, o primeiro construtor de cidades, devora o espaço de modo irreversível e prolonga o assassinato do nômade Abel até o fim dos tempos.
    • A proibição divina de exercer vingança sobre a descendência culpada permanece como sinal do laço indissolúvel entre o sedentário, que desenvolve suas obras no tempo, e seu irmão nômade, senhor do espaço.
    • Em 2000, México contaria 31 milhões de habitantes e São Paulo, 26.
  • O homem das megalópoles sabe que é vão buscar alhures as respostas às questões que sente onde está; a mobilidade do emprego é puramente repetitiva, e o objeto produzido só é “peça destacada” quando está padronizado.
    • A atividade de serviços, que representava na França 63% da população ativa e 67,1% do produto nacional bruto, rompeu todo vínculo com forma e lugar determinados.
    • Para voltar à vida, é preciso atacar o calendário e abrir uma brecha no timing, por onde reaparecerão os limites da extensão transformados em símbolos do tempo.
  • O que distingue o viajante do fugitivo é a antecipação de um fim, o sentimento da existência de um lugar de reencontro ao qual se retorna sempre.
    • A palavra “etapa” designa ao mesmo tempo o espaço percorrido e o repouso ao fim do caminho.
    • A palavra “sentido” revela na direção tomada a significação, e a consciência desta dá continuidade ao itinerário.
    • A verdadeira viagem é sempre um retorno, e quem a empreende é um peregrino; o resto é extravio, marcha à morte.
  • O percurso de Landru levando suas conquistas ao campo com passagem só de ida ilustra, por contraste, o destino como destinação sem retorno.
    • A peregrinação a Jerusalém do cruzado medieval que ia morrer sobre o túmulo de Cristo tampouco comportava retorno, pois ele próprio era um.
    • As novas migrações sazonais mudaram de forma e velocidade, mas a regra do jogo permanece: a recreação das férias é bem-sucedida quando vivida como retorno às origens da natureza e aos elementos mais simples.
    • As agências de viagem mencionam a ida e a volta em seus anúncios para sublinhar o caráter completo e transformador do périplo.
  • As formas de viagem se multiplicam indefinidamente, desde a escolha dos meios de deslocamento, que simboliza o domínio dos diversos elementos, até a escolha do lugar ou dos signos trazidos do mundo visitado.
    • O céu foi atravessado pelos profetas, por deuses, pela Virgem Maria na Assunção e por objetos voadores como a casa de Maria transportada do Oriente para Loreto.
    • Segundo o Apocalipse de João, é uma cidade inteira, a Jerusalém celeste, que deve aterrissar nos últimos tempos.
    • O itinerário terrestre prestou-se por muito tempo à busca de um reino secreto, como o do misterioso Preste João ou o reino de Shambala nas lendas da Ásia central.
    • A encontro de outro povo pôde ser considerado mensagem dos deuses ou realização de uma profecia, como a aparição das naus espanholas assimilada pelos índios ao retorno da serpente emplumada.
  • O viajante dos tempos modernos que acumulava informações científicas e riquezas naturais para o progresso da humanidade não aboliu o mito, mas o inverteu, fazendo da transformação do mundo a condição de sua própria transformação.
    • O sentimento de perda engendrado pela modernidade contribuiu para fazer viver os antigos mitos.
    • Os teósofos do século XIX colocavam os instrutores espirituais numa cidade-refúgio subterrânea nos desertos da Ásia central.
    • Gurdjieff, entre o fim do século e a Revolução Russa de outubro de 1917, lançou em longa peregrinação iniciática pelo Tibet, Mongólia e Cáucaso os “buscadores de verdade” que havia reunido.
  • O turismo contemporâneo não representa uma simples transferência de estruturas simbólicas em formas modernizadas, pois o jogo dos elementos é diferente.
    • As funções de passagem dos rios e do mar se apagam, vitimadas pela circulação rodoviária e aérea, mas a água como substância fascina mais do que nunca.
    • A “boa encontro” nos lugares familiares, poço ou vau, que transforma a vida, torna-se difícil de praticar ao acaso dos semáforos ou na pressa do metrô.
    • Se as bases que deram sentido à errância desaparecem, só pode restar uma forma de marginalização, etapa do empobrecimento antes de chegar a Katmandu.
  • O convite à viagem nunca foi tão vivo, difundido pela escrita, pela imagem televisiva e por todas as novas técnicas de comunicação; mas o discurso mítico parece dissociado da prática.
    • O turista “consumidor” de imagens paradisíacas não busca colocar sua vida em conformidade com o instante vivido, mas fazer “um trecho do caminho” com uma ideia, confortado por um impasse que suprime a responsabilidade do itinerário.
    • Muitos admiradores de Dante não acreditam em Deus nem no diabo; para eles, a passagem do poeta pelo Inferno e pelo Purgatório é pura ficção literária.
    • O alargamento do campo do saber e a complexidade das técnicas intelectuais multiplicam as vias de acesso ao conhecimento tornando muito mais vagos os fins e o sentido.
  • O esfarelamento do pensamento e dos comportamentos no mundo contemporâneo retirou da narrativa mítica sua coerência.
    • A civilização ocidental é por natureza viajante, instável, mas sensível e aberta ao sentido do símbolo, sem ser capaz de seguir suas articulações, o que exigiria entrar no jogo da transformação: converter-se e não divertir-se.
    • O cruzeiro no Mediterrâneo não pode repetir, nem em jogo ritual, a Odisseia.
    • O jovem Telêmaco dos tempos modernos estará mais tentado a vangloriar diante de Mentor as qualidades técnicas do veículo do que a tirar lição das coisas vistas nos países atravessados.
  • O dilema entre ver ou ser visto, identificar-se ao mundo ou transformá-lo, é antigo.
    • Os gregos admiraram a perfeição do cosmos e lançaram as bases dos pensamentos conquistadores modernos; os judeus atravessaram a história como um vale de ossos em busca do paraíso perdido.
    • O cruzado deslumbrado pela magnificência de Constantinopla que pilhou a cidade cristã que devia proteger tem sua correspondência na cegueira dos peregrinos puritanos que ignoravam a presença dos índios no novo Israel que descobriam.
    • O turista contemporâneo age frequentemente da mesma forma, protegido da sociedade que visita por um hotel internacional; ele trocou a lança por um cartão bancário e resgata: não veio aprender a lição da pobreza, mas testemunhar sua riqueza diante dos pobres.
    • A destruição da natureza vai a par com a de seus habitantes; a morte acompanha o viajante e espreita ao longo das estradas.
  • Nunca o uso de um guia foi tão necessário nem tão difundido, com as confusões que se pode imaginar.
    • O Guia Azul, nas cores marianas, distribui viáticos e conselhos que antes cabiam à “condutora dos viajantes” das Igrejas orientais.
    • Muitas Beatrizes foram reduzidas ao papel de comissárias de bordo, e muitos criados transformados em gurus.
    • Quando a velocidade não permite mais distinguir os signos no labirinto, é impossível manter o caminho; milhões de Pequenos Polegares misturaram suas pedrinhas brancas nas estradas do mundo.
  • À medida que se apagam a coerência mítica do percurso, a visão clara do fim e a identificação dos obstáculos, a carga simbólica aumenta, portadora de todas as esperanças.
    • Os ritos da viagem afirmam sua vitalidade nos gestos eternos do viajante: o chamado, a partida, a passagem, o encontro e o guia, o retorno.
    • Esses ritos se manifestam também na relação do viajante com os elementos: o sol, o mar, a montanha, o céu, a floresta; e no olhar transformador lançado sobre cidades, jardins, ilhas e monumentos.
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