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ANTÔNIO E CLEÓPATRA
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
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Em três tragédias, Romeu e Julieta, Otelo e Antônio e Cleópatra, Shakespeare combina o simbolismo do matrimônio com o simbolismo da morte, sem que o casamento se complete antes do fim.
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Em Antônio e Cleópatra falta o próprio vínculo matrimonial: Cleópatra dirige-se a Antônio morto chamando-o de caro esposo apenas no momento de sua própria morte.
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Em Romeu e Julieta o renascimento do matrimônio após a morte é sugerido pelo sonho de Romeu, em que Julieta o ressuscita com beijos, e pela tumba comum; em Antônio e Cleópatra a tumba comum cumpre função análoga.
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A questão do simbolismo reversível entre os amantes distingue Antônio e Cleópatra de Otelo, onde a relação entre alma e Espírito é unívoca.
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Em Otelo, Desdêmona representa o Espírito e o Mouro representa a alma, sem reversão; em Antônio e Cleópatra cada amante tem um duplo aspecto segundo se considere a peça como história de um ou do outro.
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O casamento alquímico, segundo Titus Burckhardt, une enxofre e mercúrio, Sol e Lua, Rei e Rainha, e os símbolos alquímicos têm mais de um significado: podem denotar as duas potências da alma ou, analogicamente, o Espírito e a alma.
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A reversibilidade do simbolismo não é arbitrária, mas fundada na constituição do universo: os melhores símbolos são os mais perfeitos de seu gênero, reflexos mais claros da realidade superior que é seu arquétipo.
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Uma característica singular de Antônio e Cleópatra é que o significado exterior ou macrocósmico percorre o caminho contrário ao do significado interior, criando uma oposição que é ela própria simbólica.
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Externamente, é Otávio César quem tem razão desde o início e quem restaura a ordem como único senhor do universo; interiormente, o amor de Antônio por Cleópatra é a mais rica joia de virtude em sua alma.
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A fala de abertura de Philo, amigo de Antônio, expressa sem hesitação o desdém geral pela paixão desmesurada do triúnviro por uma cigana que o fez esquecer seu dever.
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Essa oposição entre significados reflete a verdade de que os Mistérios só podem ser compreendidos por poucos, ou, para quem desconhece os Mistérios, que os caminhos do Céu são por vezes inescrutáveis.
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Roma representa o dever, a sobriedade, a razão e a moralidade como virtudes de alcance meramente terreno, ao passo que o Egito simboliza o rompimento das barreiras das limitações humanas.
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As virtudes romanas são limitações: a racionalidade romana é a inteligência privada de sua dimensão supra-racional; a moralidade romana é ética feita para adequar-se às insuficiências dessa inteligência; a sobriedade romana é melancólica falta de intoxicação espiritual.
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O Oriente corresponde ao Céu e o Ocidente à terra; e a função do Egito, símbolo celestial, é transmitir o indefinível mistério do outro mundo, suas riquezas infinitas e sua liberdade ilimitada.
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Cleópatra, como Rainha do Egito, é virtualmente divina e concedia audiência nas vestes da deusa Ísis; há uma infalibilidade impalpável e uma retidão misteriosa nela que transcendem a retidão humana.
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A natureza de Cleópatra tem uma qualidade cósmica e coletiva que irrompe além dos limites da esfera de um indivíduo comum, tornando-a em certos aspectos mais um macrocosmo do que um microcosmo.
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Enobarbo descreve que a passagem das eras não pode murchá-la nem o hábito pode envelhecê-la, que sua infinita variedade satisfaz onde mais deveria fartar, e que os sacerdotes a abençoam mesmo quando está preparada para o conflito.
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Enobarbo também afirma que seus ventos e águas não podem ser chamados de suspiros e lágrimas, pois são vendavais e tempestades maiores do que os que os almanaques podem anunciar.
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A prodigalidade sem limites de Cleópatra manifesta essa qualidade macrocósmica: ela declara que despopularia o Egito se um dia esquecesse de enviar saudações a Antônio.
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O Purgatório de Antônio consiste na perfeição de sua devoção a Cleópatra, e sua via espiritual não se traça por desenvolvimento psíquico marcante, mas pela gradual ruína mundana.
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O momento mais significativo de seu desenvolvimento é quando, sem causa logicamente justificável, ele segue Cleópatra em sua saída da batalha de Actium, ato descrito por Escara como a maior vergonha que jamais viu.
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A analogia com Lear é apontada por Martin Lings: quanto mais Antônio fracassa, mais tem sucesso; quanto mais fraco, mais forte; quanto mais pobre, mais rico.
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Uma das falhas de Antônio é não amar Cleópatra com sabedoria suficiente, perdendo a fé nela duas vezes; Cleópatra queixa-se: não me conheces ainda?
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A purgação de Antônio dos pensamentos romanos é acompanhada pelo abandono sucessivo de seus seguidores romanos, configurando uma morte espiritual que o deixa à beira da extinção e da inexistência.
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Na agonia mais violenta, Antônio compara-se à túnica de Neso sobre Hércules, seu ancestral, e acusa Cleópatra de tê-lo vendido ao jovem romano, acusação que é injusta pois ela não o traiu.
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A cena em que Antônio descreve a Eros as nuvens que se desfazem no pensamento como água na água representa o ponto em que ele já não pode manter sua forma visível neste mundo.
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A falsa notícia da morte de Cleópatra é uma verdade disfarçada em duplo sentido: ensina a Antônio que ela pertence ao mundo vindouro e confirma que ela lhe é totalmente fiel.
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O aspecto espiritual de Antônio, que esteve em segundo plano durante toda a peça, é revelado a Cleópatra pela mediação de um mensageiro de Antônio que traz uma pérola, e depois pelo sonho que ela tem após a morte dele.
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Ao receber a pérola, Cleópatra diz que o grande remédio, a Pedra Filosofal, com sua tintura o fez ficar dourado, indicando a transmutação espiritual de Antônio.
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No sonho, Cleópatra descreve um imperador cujo rosto era como o céu, cuja voz era como todas as esferas harmonizadas, e em quem nunca havia inverno, pois o outono crescia a cada nova colheita.
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Ao ser contestada por Dolabella, que nega a existência de tal homem, Cleópatra responde: estás mentindo, apresenta-te ao interrogatório dos deuses.
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A morte de Antônio coloca Cleópatra diante da escolha literal entre Céu e terra, e a dificuldade de matar-se torna seu suicídio duplamente simbólico.
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Cleópatra tem uma natureza prática oriental profundamente enraizada: mantém aparências de submissão a César para possível vantagem futura, e mesmo após decidir pela morte tenta impedir que César ponha as mãos em seu tesouro.
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A traição de seu tesoureiro talvez a ajude a superar suas últimas fraquezas, e quando a sinceridade de propósito se cristaliza, ela declara que vai novamente a Cidno para encontrar Marco Antônio.
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O suicídio de Cleópatra equivale simbolicamente ao assassinato de Cláudio por Hamlet e à agonia deste: matar o dragão e atravessar a porta estreita.
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As palavras finais de Antônio e Cleópatra antes de morrerem estabelecem a morte como noivado e como passagem para o mundo das almas, consumando o matrimônio que não se completara nesta vida.
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Antônio declara que será um recém-casado em sua morte e que correrá para dentro dela como para um leito de amor.
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Cleópatra declara que tem dentro de si anelos imortais, que é fogo e ar, e que entrega seus outros elementos à vida mais básica.
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A última grande peça do período médio, Antônio e Cleópatra, chega perto de romper a forma trágica e cruzar a soleira do Paraíso, o que levará Shakespeare a trocar essa forma pelas últimas peças.
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