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HAMLET

LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.

  • O tema básico de Hamlet está resumido nas palavras do próprio Príncipe: a virtude não pode ser inoculada no velho tronco do pecado original sem que reste algum mau sabor, e a única coisa que pode eliminar esse odor é a completa reversão da Queda — matar o dragão, isto é, a vingança.
    • A iniciação nos Mistérios consiste precisamente no enxerto de um broto da natureza primordial do homem no velho tronco da natureza decaída, e os ritos e disciplinas dos Pequenos Mistérios são o cultivo e a proteção desse broto contra os parasitas que o velho tronco desenvolveria para restabelecer-se.
    • A revelação do Espectro ao Príncipe tem, no sentido alegórico, o caráter de um quebra-cabeça com peças faltando: o jardim com suas árvores, a serpente, a mulher culpada — a narrativa do Gênesis está ali, e a própria Queda pode ser considerada um assassinato, assim como o fratricídio é seu primeiro fruto.
  • O Rei Hamlet morto tem duplo aspecto: como alma no Purgatório, é um peregrino a caminho do Paraíso; como símbolo do estado edênico perdido pelo homem, corresponde a Adão não apenas em sua queda mas também em sua perfeição original, e é em virtude desse segundo aspecto que age como guia espiritual do filho.
    • Gertrudes representa, alegoricamente, a passividade da alma humana decaída, voltada no estado primordial ao Céu e depois submetida à influência do demônio; ela é toda a linhagem ancestral de Hamlet, que remonta à própria Eva.
    • O fato de Gertrudes haver consentido em casar-se com Cláudio significa que sufocou em si a memória das qualidades do primeiro marido — e sufocar é matar — o que dá a Hamlet o direito de acusá-la, indiretamente e sob o disfarce da loucura, de ter matado o pai.
  • A grandeza do Príncipe é revelada desde a primeira cena por contraste com a hipocrisia extrema de Cláudio: sua profunda sinceridade, sua inteligência vasta e implacavelmente objetiva, sua alergia a qualquer forma de falsidade, e a nobreza com que se dirige a Horácio e Marcelo após o encontro com o Espectro distinguem-no como alguém feito para ser Rei.
    • No princípio da peça, porém, Hamlet é mais sacerdote do que rei: possui uma rica natureza real, mas ela carece de plenitude numa direção, e o crescimento para adequar-se a esse aspecto é o principal tema do drama.
    • A loucura simulada serve a múltiplos propósitos: protege sua vida do perigo que o cerca, permite-lhe dizer coisas pertinentes que de outro modo não poderia pronunciar, e simboliza, em seu sentido mais elevado, a sabedoria espiritual que, do ponto de vista mundano, é uma espécie de loucura.
  • A grande cena do quarto é o centro da peça: Hamlet convence sua mãe da verdade sobre o assassinato do pai em menos de uma linha, com a fala vagarosa e enfática das quatro palavras-chave quanto matar um Rei, e quando Gertrudes finalmente declara ver pontos tão negros e granados em sua alma que nunca poderão ser apagados, o Espectro reaparece e incumbe o filho de ser o guia espiritual da mãe.
    • Martin Lings argumenta que as edições correntes do texto apresentam um problema dramático nessa cena por terem deslocado a ordem das falas no momento em que Hamlet levanta a cortina; na sequência correta, a revelação do corpo de Polônio serve de deixa para a compreensão imediata da Rainha, e a intimidade telepática entre mãe e filho torna a cena um dos maiores momentos da arte dramática de Shakespeare.
    • O arrependimento de Gertrudes a qualifica para entrar na via da purificação; o juramento que ela presta ao filho ao fim da cena é um dos momentos mais comoventes da peça, e a simplicidade da troca final — tenho de ir para a Inglaterra; já sabes? / Ai de mim, já havia esquecido — expressa uma norma profunda do relacionamento humano que havia sido rompida e que agora está perfeitamente restaurada.
  • A incapacidade de Hamlet de matar Cláudio no momento da oração ilustra como uma ação de grande importância pode ser paralisada pelo excesso de atividade mental, conforme ele próprio confessa no mais famoso dos solilóquios; mas o pretexto dado tem também um sentido profundo compatível com sua bondade: matar Cláudio quando o mal não se manifesta plenamente não constituiria uma vingança verdadeira, pois a purificação exige que as piores possibilidades da alma mostrem-se realmente como são para que lhes seja dado o golpe fatal.
    • A descida ao Inferno em Hamlet não é separada do Purgatório como na Divina comédia: o assassinato de Cláudio significará ao mesmo tempo alcançar o fundo do Inferno e o cume da Montanha do Purgatório, pois a vingança significa purificação.
    • O solilóquio da cena do convento, em que Hamlet diz a Ofélia que poderia acusar-se de orgulho, vingança e ambição, com mais pecados na cabeça do que pensamentos para concebê-los, é a expressão dramática da descida aos infernos mística: a descoberta de inclinações pecaminosas até então desconhecidas na própria alma.
  • A visão de Fortimbras, que conduz seu exército através da Dinamarca, é uma graça que revela a Hamlet a virtude que mais precisa desenvolver — a dimensão real que ainda falta à sua natureza predominantemente sacerdotal — e o solilóquio daí resultante tem um tom de confiança e resolução inédito na peça.
    • Daqui para a frente que sejam sangrentos meus pensamentos significa que em vez de o pensamento impor sua palidez à resolução, a resolução emprestará sua cor natural ao pensamento — e Shakespeare está de acordo com toda a antiguidade ao atribuir a resolução ao Coração, centro da alma e passagem para o Espírito.
    • A espiritualidade magnética do Príncipe arrasta atrás de si não somente sua mãe mas também Ofélia, cuja loucura pode ser vista como um refúgio no qual ela renunciou a toda mundanidade; a distribuição das flores na última cena de Ofélia revela uma intuição penetrante: alecrim e amor-perfeito para Laertes, erva-doce e aquileias para Cláudio, arruda para a Rainha, e violetas murchadas para Horácio porque a flor da fidelidade secou quando seu pai morreu.
  • A prontidão para a morte, expressa na recusa de Hamlet a protelar o combate de esgrima — nada disso: desafiamos os augúrios, existe uma providência especial na queda de um pardal — é o coroamento de seu desenvolvimento espiritual e o sinal de que a natureza real, antes apenas virtual, atingiu sua plena maturidade.
    • A troca de armas entre Hamlet e Laertes tem sentido simbólico: o florete de Laertes resume tudo o que o Príncipe tinha necessidade de desenvolver, e ao tomar posse dele é como se o tivesse absorvido em si mesmo.
    • Laertes passa por um purgatório breve mas pleno enquanto combate desesperadamente com um florete sem corte contra o Príncipe fatalmente armado; sua expiação culmina nas palavras o rei, o rei é quem deve ser culpado e na troca de perdão com Hamlet, que lhe responde com a absolvição que o céu o liberte disso.
  • A estrutura alegórica e anagógica da peça, segundo Martin Lings, corresponde à arquitetura da Divina comédia: o homem decaído encontra-se entre duas perfeições, o Rei Hamlet morto simbolizando a Era Edênica perdida e Fortimbras o Milênio por vir; o Inferno e o Purgatório juntos constituem os Pequenos Mistérios, e a oração de adeus de Horácio — que voos de anjos o conduzam, cantando, para o descanso — anuncia o Paraíso.
    • A Rainha, Laertes, Ofélia e até Rosencrantz e Guildestern são, cada qual, peregrinos ou obstáculos nesse percurso; a vasta tela sobre a qual é tecida a tragédia tem dimensões quase épicas que favorecem o reconhecimento de mais de uma Qualquer Pessoa, cada qual com seu próprio caminho individual.
    • O modo sintético de interpretação permite também ler Gertrudes como a alma decaída do próprio Hamlet, e Ofélia como tudo o que ele sacrificou nesta vida tendo em vista a próxima — para onde ela própria se transferiu antes do fim da peça.
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