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MACBETH
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
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Macbeth é a única peça de Shakespeare em que os poderes das trevas aparecem em cena como personagens distintos dos humanos, personificando o Inferno no plano sub-humano das bruxas.
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As bruxas foram alçadas ao plano humano pelo mal já presente na alma de Macbeth, que havia formulado a intenção de matar o Rei antes de qualquer encontro com elas.
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Lady Macbeth repreende o marido por uma hesitação momentânea, revelando que o casal já havia planejado o assassinato anteriormente.
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Duncan personifica exclusivamente a santidade e representa o mais elevado dos três níveis hierárquicos do universo, contrapondo-se aos poderes das trevas sem que Shakespeare introduza nenhum personagem divino.
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A cena de abertura no Palácio de Fores apresenta Duncan como um homem de idade avançada que já tem um pé no Paraíso; Malcolm é seu prolongamento e deve ser representado com igual majestade.
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A cena mal escrita do Ato I, cena 2, é considerada por Martin Lings uma inserção posterior não devida a Shakespeare, e sua omissão tornaria a primeira visão do Rei ainda mais majestosa.
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A proclamação de Malcolm como Príncipe da Cumberlândia precipita a cristalização irrevogável das piores intenções de Macbeth, que, à maneira de Lúcifer, desdenha ser a mais brilhante das luminárias secundárias.
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O aparte de Macbeth ao deixar a cena retoma as palavras do Rei sobre honras que brilharão como estrelas e as rejeita orgulhosamente, marcando a escolha das trevas em detrimento da luz.
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O olho, na fala de Macbeth, é a luz da consciência; sua supressão voluntária tem paralelo imediato na fala de Lady Macbeth invocando a noite nebulosa para que o punhal não veja a chaga que produz.
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A partir da decisão de sufocar a melhor parte de suas naturezas, os dois protagonistas encenam a Queda do homem, e a vítima de seu crime exterior simboliza a natureza superior que eles procuram eliminar.
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A natureza inferior é súdita e anfitriã da natureza superior; o Espírito nunca pode estar em casa na Terra e é sempre hóspede da alma.
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A única razão não mundana que Macbeth dá contra o assassinato é a santidade de Duncan, cujas virtudes suplicariam como anjos de línguas de trombeta contra a profunda danação de sua eliminação; mas esta razão serve apenas para revelar retrospectivamente a fria deliberação de Macbeth na escolha do mal.
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A ausência de Qualquer Pessoa em cena torna Macbeth diferente de todas as outras peças, exigindo que a identificação da plateia seja alcançada por outros meios, o que produz uma intensidade insuperável de diálogo e situação dramática.
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A peça revela o esqueleto básico da realidade que a vida comum tende a esconder, abrindo uma magnitude de perspectiva que transcende o plano da moralidade.
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Afirmar que Macbeth é uma peça de moralidade sobre ambição, pecado mortal, ruína mundana e danação é verdade, mas simplificação: a presença do Espírito rejeita ser privada da dimensão mística de elevação e profundidade que é seu elemento.
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O sino que chama Macbeth ao assassinato tem duplo sentido: é o dobre de finados que convoca Duncan ao Céu e Macbeth ao Inferno, e é o sinal de que a bebida envenenada que ele preparou para Duncan é também a sua própria.
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A incapacidade de Macbeth de pronunciar Amém, quando ouve os guardas dizerem Deus nos abençoe, é a consequência da mesma compulsão que o força a completar a rima com ou para o Inferno.
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A batida na porta que se segue ao assassinato é o primeiro som fora do controle de Macbeth; quem bate é Macduff, o homem não nascido de mulher destinado a matá-lo, e a porta em que Macbeth bate é a porta do Inferno.
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O contraste entre o remorsoso Macbeth e a frieza calculada de Lady Macbeth constitui uma dupla acusação da plateia: ora é galvanizada pela culpa do pecado, ora pela culpa da inocência cega.
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O horror do assassinato restaura brevemente em Macbeth um pouco de sua melhor natureza, e nesse momento de auto-aversão incontrolada os espectadores identificam-se com sua sensação de culpa.
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A identificação é logo seguida de separação: Macbeth segue a via do desespero; os espectadores, que podem arrepender-se onde ele não pode, são impelidos para a via da expiação, e é assim que a dimensão do Purgatório é sub-repticiamente acrescentada à peça.
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A pergunta de Macbeth sobre se o oceano de Netuno poderia lavar o sangue de suas mãos, e as palavras sonâmbulas de Lady Macbeth sobre todos os perfumes da Arábia, enunciam a questão à qual há uma resposta implícita que aponta para além da peça.
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A resposta implícita é: não, mas há uma outra coisa que pode fazer isto; e nessa resposta desponta um Purgatório dentro da escuridão do Inferno.
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A fala de Macbeth sobre a vida como sombra que caminha, história contada por um idiota cujo significado é nada, seria recebida pelas primeiras plateias como paralela à inscrição do portão do Inferno de Dante: abandonai toda esperança, vós que entrai.
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Malcolm representa o ideal da realeza e é um prolongamento de São Eduardo, o santo Rei da Inglaterra que lhe deu abrigo, acrescentando a autoridade de um rei santo ao relativamente desconhecido herdeiro.
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O pai de Malcolm, Duncan, foi um rei santificado; a mãe morria a cada dia que vivia, quase sempre mais ajoelhada do que levantada.
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Sob o significado macrocósmico, o reino de Duncan corresponde à Era de Ouro e o reino de Malcolm, como o de Fortimbrás em Hamlet, corresponde ao Milênio.
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O significado macrocósmico de Macbeth, que representa o ritmo cósmico da história humana, era plenamente acessível às plateias do século XVI, para quem a Queda do homem e a espera pela restauração da ordem eram verdades vividas, não apenas doutrinas.
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O mundo de Shakespeare era o mundo de Platão e de santo Agostinho, no qual a lógica espiritual tornava inconcebível imaginar que o homem primordial não houvesse sido perfeito.
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Shakespeare e seus contemporâneos esperavam que o ritmo de harmonia, queda, discórdia crescente, castigo súbito e restauração continuasse no futuro, e reconheciam esse ritmo nos autos sacramentais e nas próprias peças.
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A verdade da Queda permanece indelevelmente inscrita na substância interior da alma mesmo nas pessoas doutrinárias com a teoria da evolução, pois o homem foi criado para viver a verdade, e embora possa vir a pensar o erro, não vive o erro.
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