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MEDIDA-POR-MEDIDA

LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.

  • A peça “Medida por medida” foi por muito tempo considerada uma “comédia amarga” devido a uma interpretação superficial que subordinava tudo aos papéis de Ângelo e Isabel, mas produções mais recentes demonstraram que, quando permitem que o Duque de Viena domine a peça, ela é permeada por uma profunda serenidade e anuncia as últimas peças do poeta.
    • A semelhança básica de “Medida por medida” com “Sonho de uma noite de verão” e “A tempestade” reside no fato de que os eventos podem ser vistos tanto de um ângulo celestial quanto terreno, com a “clarabóia” que permite a visão superior sendo, nesta peça, o Duque de Viena.
    • Escrita na mesma época de “Hamlet” e “Otelo”, “Medida por medida” difere ao representar o diabo dentro da alma, e não como um personagem separado, o que apresenta o dilema de pintar o diabólico sem afastar as simpatias da plateia do herói.
    • Shakespeare resolve esse dilema retratando Qualquer Pessoa três vezes, em três tramas entrelaçadas (Isabel, Ângelo e Cláudio), de modo que a presença do diabo em Ângelo, mesmo afastando a plateia dele, serve para estabelecer, por refração, a presença interior do mal nos outros.
    • As vias espirituais de Otelo e Ângelo são “ritmicamente” idênticas: uma lenta descida ao Inferno que ocupa quase toda a peça, terminando com um lampejo súbito da verdade, seguido por um Purgatório comprimido em poucos versos, mas totalmente convincente por sua intensidade.
  • O aspecto anagógico dos Pequenos Mistérios, que se sobrepõe ao sentido literal, está relacionado à recuperação de joias perdidas, isto é, à liberação da substância psíquica redescoberta e resgatada do domínio do diabo.
    • Em “Otelo”, a degradação do homem caído é representada como cegueira; em “Medida por medida”, a ênfase está na incompletude, especialmente no caso de Ângelo.
    • Ângelo, no início da peça, parece quase perfeito, mas é um mero fragmento humano; o Duque, consciente disso e do desejo de perfeição de Ângelo, concede-lhe a vice-regência não para prejudicá-lo, mas para ajudá-lo a se conhecer, iniciando sua descida às profundezas ocultas de sua própria alma.
    • A via espiritual exige que os elementos psíquicos pervertidos, antes adormecidos, sejam despertados para serem resgatados e purificados, mas esse despertar num estado de perversão raivosa traz o risco de subjugar toda a alma, o que ocorre com Ângelo quando, ao ver Isabel, é subitamente subjugado por uma cobiça irresistível.
    • A queda momentânea de Ângelo diante de seu ego inferior era necessária para que seu orgulho fosse quebrado, e ele é salvo por sua sinceridade básica que segue a Graça Divina personificada pelo Duque.
    • O caos na alma de Ângelo é reduzido à ordem na cena final pelo lampejo de verdade trazido pela aparição do Duque, dando início a um Purgatório intenso onde Ângelo morre como se tivesse morrido dez mil vezes; sua alma, antes fragmentada, tornou-se completa com a adição de seus defeitos, que são então purificados, como observa Mariana ao dizer que os melhores homens são moldados a partir de seus defeitos.
  • Isabel, no início da peça, também é apenas um fragmento humano, apesar de sua aparente perfeição, e o sacrifício que planeja fazer em uma vida monástica mais estrita apenas aumentaria sua unilateralidade; a Providência exige dela sacrifícios de natureza totalmente diferente.
    • Na cena da prisão, Isabel está certa em recusar salvar a vida do irmão Cláudio ao preço de sua castidade, mas não está certa em dizer a ele, com dureza e desespero, que poderia perdoar a morte dele, mas não o pecado que ele lhe pede, condenando-o à morte.
    • O Duque, que ouve a fala, conhece o defeito específico de Isabel, seu traço duro e farisaico, e a “medida por medida” que ele arranja para ela na última cena visa corrigi-lo.
    • Na cena final, Isabel é chamada a fazer uma declaração falsa em público de que sacrificou sua castidade e a ajoelhar-se para rogar pela vida de Ângelo, o homem que ela acredita ter lesado a ela e a seu irmão e de quem anseia vingar-se.
    • Mariana, casada com Ângelo, ajoelha-se e implora por sua vida, mas o Duque rejeita o pedido duas vezes, esperando que Isabel intervenha espontaneamente; Isabel permanece imóvel como uma estátua, até que finalmente dá um passo adiante, ajoelha-se e implora pela vida de Ângelo com eloqüência objetiva, revelando uma nova dimensão em sua alma.
    • O Duque criou a situação para tornar as coisas o mais difíceis possível para Isabel, de modo que sua intervenção final fosse um verdadeiro triunfo sobre si mesma, simbolizando a vitória que em “Hamlet” é representada pela vingança.
  • O papel de Cláudio corre paralelo aos de Ângelo e Isabel, e para ele, a coisa mais difícil do mundo é resignar-se à ideia da morte.
    • O Duque resiste em dar esperança de vida a Cláudio até que ele tenha atingido a necessária resignação, ensinando-lhe que ser absoluto para a morte torna tanto a morte quanto a vida mais doces.
    • Cláudio, após ouvir o Duque, afirma que, ao rogar para viver, descobre que busca a morte e, ao buscar a morte, encontra a vida, mas depois se perturba novamente, sendo exortado pelo Duque a se preparar para a morte e não satisfazer sua decisão com esperanças falíveis.
    • Este tema resume a via espiritual como um “morrer em vida”.
  • “Medida por medida” representa uma continuidade mais direta com a Idade Média do que qualquer outra peça de Shakespeare, e suas primeiras plateias, ainda imbuídas do espírito medieval, não teriam problemas em aceitar, por exemplo, o casamento de Mariana com Ângelo, percebendo que ele se tornaria limpo como a neve ao final, nem desgostariam da demora de Isabel em ter misericórdia, compreendendo que sua queda de joelhos apagava sua última falha.
    • Para que a peça seja totalmente aceitável para uma plateia moderna, é essencial que ela sinta, tão incessantemente quanto possível, que toda a sabedoria espiritual está encarnada no Duque, que personifica a transcendência do mundo vindouro em relação a este mundo.
    • O Duque é triplamente um símbolo do Espírito: como guia espiritual de três almas em busca da perfeição; como noivo de Isabel no final, simbolizando a união da alma perfeita com o Espírito; e como juiz no trono na cena final, evocando a imagem do Juízo Final, com sua presença constante durante toda a peça apesar de sua suposta ausência, ecoando o Juiz do dia do Juízo Final.
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