lings:otelo
OTELO
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
-
A característica essencial do estado primordial do homem era a união de sua alma com o Espírito, e o símbolo universal da recuperação desse estado é o matrimônio, cujo protótipo cristão está nas referências de Cristo a si mesmo como o Esposo e na concepção medieval da alma como esposa de Cristo.
-
A obra de Ruysbroek, O adorno do matrimônio espiritual, é citada como síntese desta concepção: o Esposo é Cristo, a esposa é a natureza humana feita à Sua imagem e posta no Paraíso, seduzida por um demônio na forma de serpente e depois redimida pelo Filho enviado à terra.
-
Na Divina comédia, Beatriz personifica a sabedoria espiritual que desce do céu para encontrar Dante no paraíso terrestre; em The faerie queene, a vitória do Cavaleiro da Cruz Vermelha sobre o dragão culmina no matrimônio com lady Una.
-
Em Otelo, o mouro negro e sua esposa branca representam a alma e o Espírito, e Desdêmona é a pérola preciosa irresponsavelmente desprezada, assim como Cordélia em Rei Lear.
-
O matrimônio súbito e secreto de Otelo e Desdêmona no início da peça pega Iago de surpresa, mas a união é apenas virtual, marcando o início da via espiritual e não seu fim.
-
A primeira noite juntos é perturbada pelo tumulto encenado por Iago; desde a manhã seguinte ele começa a incutir no mouro a suspeita de infidelidade, de modo que os dois amantes nunca estarão em paz até cair mortos lado a lado sobre o leito matrimonial.
-
A chegada quase milagrosa de Otelo a Chipre, onde Desdêmona já estava, constitui um antegosto do Paraíso, e as palavras do mouro nesse momento antecipam a terrível tormenta que virá e, num certo sentido, garantem a paz final.
-
Cássio descreve a viagem de Desdêmona como protegida pelos próprios elementos, que omitiram suas naturezas mortais para deixar passar a divina Desdêmona.
-
Otelo declara que, se após cada tempestade vem tal calma, que os ventos soprem até acordar a morte e o barco escale colinas no oceano tão altas quanto o Olimpo.
-
Iago é a última e mais perfeita representação do diabo nas peças de Shakespeare, definido por um amor ao mal e um ódio ao bem que não tem medida comum com a ambição mundana de vilões posteriores como Edmundo.
-
Iago e Edmundo são igualmente humanistas ao extremo, representantes típicos da Renascença e rebeldes contra a tradição medieval; Iago nega a existência da virtude como ideal por implicar um poder acima do homem, e Edmundo proclama a natureza como sua deusa.
-
O humanismo racional que Iago prega a Rodrigo é precisamente o que o diabo procura instalar na mente do homem quando a civilização sagrada alcança o estágio de decadência que a Cristandade havia atingido no tempo de Shakespeare.
-
A relativa simplicidade de Otelo, confrontando um amor mútuo de imensa magnitude com um ódio diabólico de Iago e a devoção de Emília, produz um apelo esmagador e imediato que a faz ser considerada por Macauley a maior peça do mundo.
-
O simbolismo do amor em Otelo não é reversível como em Antônio e Cleópatra: Desdêmona representa o Espírito e Otelo representa a alma, sem ambiguidade.
-
O tema de Otelo é acrescentar à natureza real que o mouro já possui a sabedoria sacerdotal, pois ele amou não sabiamente mas muito bem, tornando-se vítima do ciúme forjado pelas maquinações de Iago.
-
Emília, dama de companhia de Desdêmona e esposa de Iago, é o segundo peregrino purgatorial da peça, dotada desde o início do elemento de resolução que falta ao amor do mouro: ela ama Desdêmona sabiamente, com a certeza de sua bondade.
-
Emília é ludiada por Iago para servir a sua causa, assim como Laertes em Hamlet; ambos são cúmplices involuntários e ambos passam por expiações definitivas análogas.
-
A falta de princípios de Emília ao reter o lenço de Desdêmona e entregá-lo ao marido apesar de saber o quanto ela o estimava é a culpa que necessita ser superada; quando finalmente reconhece que foi cúmplice do assassinato, seu grito é: ó céu, ó forças celestiais.
-
A cena da escuridão na penúltima noite, dominada por Iago em quase toda a sua extensão, culmina na fala em que ele declara que aquela noite ou o consuma ou o consome, revelando o ponto máximo de seu controle sobre os acontecimentos.
-
Iago persuadiu Rodrigo a matar Cássio, manteve-se próximo para garantir a morte de ambos, feriu a perna de Cássio e depois apunhalou o aparentemente moribundo Rodrigo ao ser reconhecido por este.
-
A cena estabelece o contraste entre o elemento de Desdêmona, que é o dia iluminado pelo sol do Espírito, e os demais personagens, cujo elemento é a noite.
-
A última fala de Desdêmona, em que declara ninguém a ter matado e pede que Emília a recomende a seu bondoso senhor, contém uma urgência precisa: é um pedido para que Emília fale bem dela a Otelo, e representa a Luz do Espírito ainda brilhando através de Emília após a morte de Desdêmona.
-
Quando Emília confronta Otelo com as palavras a pérola que foi atirada fora era mais preciosa do que toda a sua tribo, a verdade começa a irromper sobre o mouro.
-
A cena em que Emília repetidamente exclama meu marido ao ouvir que foi Iago o delator constitui, segundo Martin Lings, um dos momentos mais poderosos de toda a história do drama, pela força com que mantém a plateia presa.
-
A expiação de Emília consiste em confessar publicamente que foi ela quem achou e entregou o lenço ao marido, e ela morre por essa confissão, pedindo para ser posta na cama junto à sua senhora.
-
Há três estágios em sua percepção da verdade: a suspeita deixada de lado; a admissão de Iago de ter falado mal de Desdêmona; o conhecimento de que ele urdia toda a calúnia desde o princípio.
-
Emília entra pelo mesmo portal que Otelo nos Pequenos Mistérios, o leito matrimonial, mas a verdade desponta mais gradualmente sobre ela, permitindo-lhe um desenvolvimento purgatorial durante o descenso.
-
O descenso de Otelo ao Inferno é gradual, mas não há desenvolvimento gradual correspondente da alma: a verdade irrompe subitamente sobre ele no fundo do abismo, transformando-o num instante de tolo em homem sábio.
-
O Purgatório de Otelo é comprimido em poucas linhas de ânsia intensa, em que ele antecipa e esgota tudo que o havia separado de Desdêmona, a visão celeste, convencendo totalmente de sua expiação e purificação.
-
O adeus do mouro revela a perfeição do estado primordial: a dimensão da sabedoria sacerdotal é acrescentada à sua natureza real, e uma solene dignidade entrelaça-se com sua majestade enquanto ele renuncia interiormente a este mundo.
-
Ao apunhalar-se enquanto relata como matou um turco que batia num veneziano, Otelo une o ato de justiça contra si mesmo à fala de alguém que atirou longe uma pérola mais preciosa do que toda a sua tribo, consumando simbolicamente o encontro com Desdêmona além da porta estreita da morte.
-
lings/otelo.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
-
