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REI LEAR
LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.
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“Rei Lear” tem em comum com “Hamlet” e “Otelo” o fato de que o tema do amor, em “Rei Lear” referente a pai e filha, emprega o mesmo simbolismo, com Lear e o Mouro representando Qualquer Pessoa, a alma humana, e Cordélia e Desdêmona representando o Espírito, sendo que em ambas a “pérola de grande valor” é desprezada, o que repercute na subtrama pela rejeição de Gloster a Edgar.
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O sentido alegórico da peça como imagem da história da humanidade afirma-se na primeira cena, com a consciência dessa alegoria mantendo-se ao longo do drama, que aponta para o “fim prometido” do ciclo do tempo.
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Diferentemente de “Hamlet” e “Macbeth”, onde a humanidade primordial é representada por personagens fora da ação principal (Rei Hamlet e Rei Duncan), Lear é o protagonista, exigindo que sua excelência primordial, anterior à peça, seja estabelecida por outros meios.
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O conde de Kent retrata a virtude da fidelidade em seu sentido mais elevado, uma devoção centrada na verdade e na bondade, prestada à perfeição virtual que Lear, como rei consagrado, traz em si, o que faz com que, por refração, Lear adquira uma dimensão de grande venerabilidade que se estende ao passado remoto.
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O simbolismo dos números também estabelece a harmonia primordial: antes da peça, o reino é santificado pelo número três, representado pelas três filhas de Lear, e o desprezo de Lear por Cordélia, a terceira filha, representa alegoricamente a Queda, com o rei se autoexilando do Paraíso e invertendo a ordem natural, como indicado pelas falas de Kent e do Bobo.
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O número celestial três simboliza a resolução das oposições em uma harmonia transcendente; ao trocar o três pelo dois, Lear troca a sabedoria espiritual pela sabedoria mundana da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, banindo a harmonia e deixando o reino à mercê da discórdia representada por Goneril e Regane.
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A abertura da peça, representando alegoricamente a Queda, é também um presságio do “fim prometido”, assumindo um ponto de vista providencial no qual os eventos da Queda e do fim estão textualmente próximos e em cena reduzidos a horas, sendo o fim já anunciado por Gloster na segunda cena.
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Gloster relaciona os eclipses recentes aos sinais evangélicos da segunda vinda de Cristo (sol escurecido, lua sem luz) e às predições de traição entre irmãos, pais e filhos.
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O período da peça abrange alegoricamente toda a extensão do ciclo do tempo, servindo como pano de fundo universalizante para os últimos dias decisivos de duas almas individuais.
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O tema de “Rei Lear” em relação ao próprio rei está resumido em sua intenção inicial de jogar fora as preocupações da idade e rastejar rumo à morte, uma jornada que ele imagina fácil e agradável sob os cuidados de Cordélia, mas que se revela totalmente diferente devido à sua extrema falta de preparo para morrer, demonstrada na primeira cena.
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A primeira cena não representa a Queda em si, mas sua reencenação, servindo como uma aguda recordação da degradação do homem decaído e marcando um primeiro passo no caminho para a sabedoria, exigindo uma reafirmação da barreira que a alma ergue entre si e o Espírito.
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A disposição de Lear para o sacrifício ao tratar Cordélia com monstruosa falta de proporção deve ser retratada como tal, e sua fala posterior a Goneril revela que ele vê sua ação como uma ofensa causada por cegueira momentânea, não como um ato contínuo.
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A ignorância de Lear sobre a verdadeira natureza de Goneril e Regane é ecoada na subtrama pela ignorância de Gloster sobre a natureza de Edmundo, mas nenhuma delas chega a ser uma falha, dadas as circunstâncias e a astúcia dos vilões.
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A verdadeira raiz das insuficiências de Lear reside na superficialidade de seu amor por Cordélia e no fracasso em valorizá-la como ela merece, um amor desprovido de luz e calor que estão enterrados sob sua natureza decaída, mas que emergem poderosamente no final.
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“Rei Lear” é uma peça de verdade e erro, de visão e cegueira, com Lear identificando ironicamente Cordélia com a verdade, ecoando as palavras de que a luz brilhou nas trevas e as trevas não a compreenderam.
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O Bem em “Rei Lear” é personificado por Cordélia, Edgar, Kent, o Bobo, o Duque da Albânia e o Rei da França, enquanto o Mal é representado por Goneril, Regane, Edmundo e Cornualha, com a presença do diabo sentida em cada vilão como a raiz de todo o mal.
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Edmundo, o vilão humanista, declara a Natureza como sua deusa, expressando uma perspectiva que reduz a natureza humana à razão e ao mundo, em contraste com a visão medieval de Hamlet sobre haver mais coisas no céu e na terra do que sonha a filosofia.
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Goneril, Regane e Cornualha são tão autocentrados quanto Edmundo, seguindo a lei da selva e sendo totalmente cruéis, com Goneril sendo a mais terrível e Regane a superando em maldade ao seguir a conduta dos outros, como demonstrado na progressão da redução do séquito de Lear e na cegueira de Gloster.
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A cena da cegueira de Gloster é crucial: enquanto Cornualha arranca um olho e Regane insiste pelo outro, um servo intervém e fere mortalmente Cornualha, sendo morto por Regane; Gloster, ao saber que Edmundo o traiu, lamenta suas loucuras e a injustiça contra Edgar.
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A perda dos olhos de Gloster é uma parte necessária de seu Purgatório, uma expiação purificante pelo pecado de ter gerado Edmundo, que intensificou sua cegueira interior; sua cegueira exterior é um sinal de sua consciência da cegueira interior e de sua necessidade de um guia, personificada por Edgar disfarçado que o conduz, numa imagem direta da essência dos Pequenos Mistérios.
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Com o retorno de Cordélia à Inglaterra, a virtude e a sabedoria podem se manifestar como são, e o Duque da Albânia finalmente entra no drama, condenando a falta de piedade filial de Goneril e sua irmã e prometendo vingar os olhos de Gloster, ganhando a confiança como um homem dotado para ser um rei ideal.
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A descida ao Inferno é representada de três modos: a descoberta de Lear dos defeitos de Goneril e Regane reflete a descoberta das possibilidades inferiores em sua própria alma, com ele as chamando de doença em sua carne e úlcera em seu sangue corrupto.
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O estado do país, em virtude da realeza de Lear, reflete a alma de Qualquer Pessoa, com a discórdia simbolizada pelo número dois em seu aspecto negativo de oposição não resolvida, sustentada por boatos de hostilidade entre Albânia e Cornualha e pelo ódio entre Goneril e Regane por Edmundo.
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A ação de Edgar, personificando o Inferno no palco ao acusar a si mesmo de pecados e vincular as superfícies humanas do mal às suas raízes infernais, joga luz sobre o mal oculto na alma de Qualquer Pessoa, funcionando como um espelho para Lear e preparando o cenário para sua descida ao Inferno.
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Edgar prega que o estado do homem decaído é o de ser possuído pelo demônio, e sua função é desfazer a ilusão de independência humana, mostrando a alma como campo de batalha entre Céu e Inferno, sendo ele um guia tanto para a descida ao Inferno quanto para a ascensão ao Purgatório, com a tempestade expressando a cólera do céu e purificando pelos elementos.
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Quanto mais baixo Lear desce no Inferno, mais ascende no Purgatório, mas sua ascensão é gradual, e ele é lento para ver o paralelo entre o tratamento que recebe e o tratamento que deu a Cordélia, embora comece a se desprender do mundo e a desenvolver uma perspectiva mais objetiva sob a força universalizadora da tempestade.
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Lear começa a sentir compaixão pelo Bobo e pelos pobres infelizes desnudos, reconhecendo que antes cuidara muito pouco disso, e mais tarde recorda como foi adulado na corte, percebendo que não é à prova de febre.
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A pobreza espiritual e o desapego das coisas mundanas, atributos do homem primordial, são personificados por Edgar em sua indigência, e Lear, ao vê-lo, reconhece “a coisa em si” e começa a rasgar suas próprias vestes, numa referência à beatitude da pobreza em espírito.
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Shakespeare é obcecado pela Idade do Ouro, e seu ideal é sempre o ideal primordial do rei-sacerdote, o legítimo senhor da natureza virgem, sendo que em “Rei Lear” a natureza sacerdotal desponta no rei, aproximando-o de Edgar, seu “filósofo”, e sua “loucura” marca o abandono da sabedoria mundana e o envolvimento com a sabedoria espiritual.
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Lear passa do estado de noviço em relação a Edgar para uma condição mais avançada, e o momento em que Gloster pede para beijar sua mão e ele responde que precisa limpá-la primeiro, pois tem o mau cheiro da mortalidade, é um ato que engloba a totalidade do Purgatório, preparando-o para pregar a paciência a Gloster.
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A reentrada de Cordélia indica a reversão à ordem normal, e na presença dela, a sabedoria recém-adquirida de Lear se mostra como tal, não como loucura, e ele recobra a sanidade, mas no momento da mudança, Shakespeare expressa o sentido mais profundo do encontro como uma visitação celeste a uma alma no Purgatório, com Lear vendo Cordélia como uma alma na bem-aventurança e um espírito.
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A aparição súbita de Cordélia como Rainha da França, após um longo intervalo, tem um efeito indescritivelmente comovente, agindo como um fragmento do Céu descido à terra, devido ao contraste criado pela exposição dos vícios infernais de Goneril e Regane.
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Lear, ao final, expressa a perfeição composta de humildade, amor e sabedoria, oposta à sua subjetividade anterior, em sua fala a Cordélia sobre viverem na prisão, cantando, rezando e rindo, assumindo o mistério das coisas como espiões de Deus.
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Lear declara que sobre um sacrifício como o de Cordélia os próprios deuses jogam incenso, numa alusão disfarçada ao arquétipo de todos os sacrifícios para o Ocidente, com Cordélia tendo deixado o “melhor” pelo “pior” para que Qualquer Pessoa pudesse ser salva.
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Cordélia, com o véu de humanidade quase transparente, é incorruptível, impossível de ludibriar, tem desapego do mundo e sua observação sobre descarrancar a carranca do falso destino, junto com a fala de Edgar sobre as mutações do mundo, lembram o sermão de Lear sobre a paciência e a necessidade de desapego deste mundo.
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Na longa última cena, Edmundo, em solilóquio, revela seu plano de se livrar de Goneril e Regane, que estão enciumadas, e de matar Lear e Cordélia após a batalha, enviando-lhes uma sentença de morte com a assinatura de Goneril.
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Paralelamente, as cartas incriminadoras de Goneril a Edmundo são interceptadas: Oswaldo, seu portador, é morto por Edgar, que entrega a carta ao Duque da Albânia, revelando a trama para matá-lo.
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Após a batalha, o Duque da Albânia está no comando, questiona Edmundo sobre os prisioneiros e, diante da recusa de Edmundo em responder e das pretensões de Regane, prende Edmundo e Goneril por traição capital.
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O Duque da Albânia propõe que a culpa de Edmundo seja decidida por ordálio através de combate, e Edgar, ainda disfarçado, aceita o desafio, acusando formalmente Edmundo de traição contra os deuses, o irmão e o pai.
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No ordálio, Edmundo, o humanista que acreditava apenas em habilidade e força, experimenta um mundo onde os valores são diferentes e vê que sua culpa torna impossível provar sua inocência vencendo; Edgar o golpeia e o fere mortalmente.
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Goneril protesta, mas o Duque da Albânia a confronta com a carta, e ela sai, desesperada, cometendo suicídio após ter envenenado Regane.
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Edmundo, vencido, admite a verdade das acusações e, ao saber que Edgar é seu irmão, reconhece a justiça dos deuses que usam os vícios para flagelar, aceitando que a roda se tornou um círculo completo.
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Edgar relata como cuidou do pai cego, e Edmundo, comovido, numa última tentativa de fazer o bem, ordena que enviem alguém ao castelo para suspender a sentença de morte de Lear e Cordélia, entregando sua espada a Edgar como sinal.
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A entrada de Lear com Cordélia morta nos braços é um evento de proporções cósmicas, e Kent, ao vê-lo, refere-se espontaneamente ao mundo, perguntando se é este o fim prometido, ecoando a fala anterior de Gloster sobre o mundo se gastar rumo ao nada.
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Lear, em seu desespero, alterna entre acreditar que Cordélia está morta e, em seu último suspiro, exclamar para que olhem para seus lábios, sugerindo que ele a vê viva.
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A morte de Lear e Cordélia, diferentemente da peça primitiva, deve-se à “justiça poética” e ao fato de que o velho e alquebrado Lear não pode representar a alma em sua união imortal com o Espírito; ele deve morrer em vida, e onde ele está, Cordélia deve estar.
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A reunião com Cordélia antes da batalha é um antegozo, e no final, a sugestão da vida após a morte é vigorosa: Lear, no limiar da morte, transmite notícias do mundo vindouro ao indicar que Cordélia está viva não nesta vida, mas na vida após a morte, morrendo num estado de bênção.
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