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lings:tempestade

TEMPESTADE

LINGS, Martin. The secret of Shakespeare. 1. paperback ed., rev.exp ed. Wellingborough: Aquarian Pr, 1984.

  • A tempestade é consensualmente considerada a última peça completa de Shakespeare, e seus paralelos mais significativos são traçados com Como gostais e Medida por medida.
    • Em Como gostais e A tempestade, o duque reinante é afastado por um irmão usurpador e a trama gira em torno do amor da filha virtuosa exilada.
    • A semelhança mais importante entre as duas peças é que ambas se passam além dos confins da civilização, num espaço próximo ao Paraíso Perdido.
    • A ilha encantada de A tempestade, como a floresta de Arden, é o cenário ideal para o amor que simboliza a união do celeste com o terrestre.
  • O barco da abertura representa o mundo inteiro a bordo, e a fala de Gonzalo sobre rezar junto ao rei e ao príncipe é calculada para ressoar na alma de toda a plateia.
    • Nápoles e Milão simbolizam este mundo; no centro deles estão Alonso, rei de Nápoles, e seu filho Ferdinando.
    • A tempestade revela o barco deste mundo em sua verdadeira luz, como lugar profundamente precário e perigoso.
    • Gonzalo é definido como honesto e idoso conselheiro e funciona ao longo da peça como um prolongamento de Próspero.
  • O Purgatório está concentrado na tempestade da abertura, e a ilha encantada, em especial a cela de Próspero, transcende o Purgatório e constitui um santuário.
    • Até Caliban tem consciência de que a ilha é abençoada, como demonstra sua fala sobre os ruídos, sons e árias suaves que deliciam e não ferem.
    • Antônio, irmão traidor e usurpador, tem muito em comum com o Cláudio de Hamlet, tendo seduzido a alma, personificada por Alonso, para uma aliança profana.
  • Ferdinando, separado do pai ao crer que este morreu, encontra-se numa situação paralela à do Príncipe Henrique ao coroar-se diante da Câmara de Jerusalém, ambos às portas do Paraíso.
    • O barco em chamas que Ferdinando abandona é a pira funerária, o Athanor dos alquimistas.
    • A água representa o primeiro termo da fórmula alquímica solve et coagula, o mercúrio a ser penetrado pelo fogo do enxofre, e a própria tempestade já é a obra alquímica.
    • Próspero é o mestre alquimista; Ferdinando é a Fênix recém-nascida que se ergue das chamas e das águas, e vai referir-se ao futuro sogro como aquele de quem recebeu uma segunda vida.
  • Miranda não leva seu nome por acaso: o maravilhamento é uma característica essencial do homem primordial, e a heroína é ao mesmo tempo aquela que sente maravilha e aquela que a causa.
    • Ferdinando, ao ver Miranda pela primeira vez, imagina que ela é uma deusa e a nomeia antes de saber seu nome, chamando-a de oh, maravilha.
    • A canção de Ariel sobre o pai sepultado a cinco braças prepara Miranda para a visão de algo rico e estranho, anunciando a morte da velha alma e o nascimento da alma nova e perfeita.
    • Os epítetos rico e estranho resumem a nota-chave da cena e de toda a peça, reaparecendo no clímax quando Próspero entrega Miranda a Ferdinando como um rico presente.
  • O amor de Ferdinando e Miranda é comparado ao de Romeu e Julieta, mas enquanto este se encontra em conflito trágico com o mundo, aquele é expressamente abençoado pelo Céu e pela Terra.
    • Em A tempestade, as circunstâncias são totalmente favoráveis: Juno e Ceres, trazidas por Íris, abençoam as núpcias; em Romeu e Julieta, a união celeste colide tragicamente com uma impossibilidade cósmica.
    • A união de Ferdinando e Miranda é um casamento de dois mundos, Milão e Nápoles, com sentido macrocósmico adicional: para Miranda, Ferdinando é quase literalmente o único homem; para ele, ela é a essência da virtude feminina.
    • A exclamação de Próspero, belo encontro de dois raros afetos, é a síntese da peça.
  • O simbolismo dos amantes é reversível, como nas outras peças maduras, mas Próspero representa o Espírito-Intelecto, Miranda é sua extensão e discípula, e Ferdinando, futuro Rei de Nápoles, representa o Espírito em relação à alma-Miranda.
    • Alonso representa o chumbo da alma, o metal comum do qual Ferdinando é o ouro potencial, segundo a correspondência estabelecida pelo místico muçulmano Muhiddin Ibn Arabi.
    • A separação temporária de Ferdinando e Alonso é alquimicamente necessária: a combinação bruta e unilateral deve ser dissolvida para que espírito e alma se casem novamente após o divórcio.
    • O arrependimento completo de Alonso, induzido por Ariel sob ordens de Próspero, marca o fim de seu Purgatório e é condição para que Próspero consinta com o casamento de Ferdinando e Miranda.
  • Gonzalo, na última cena, traça uma síntese que abarca o maior número possível de pessoas na bênção do trabalho alquímico, afirmando duplamente o significado transcendente da peça.
    • A frase gravai-a a ouro em lápides duradouras é uma clara referência alquímica, retomando o ditado de que a essência do chumbo é o ouro.
    • As palavras encontrar a si mesmo remetem ao preceito de Santo Agostinho que eu me conheça, Senhor, e assim possa Vos conhecer, e ao Duque de Medida por medida definido como aquele que luta especialmente para conhecer a si mesmo.
    • Encontrar o verdadeiro eu é o objetivo dos Pequenos Mistérios, mas é apenas um estágio no caminho de um conhecimento mais elevado.
  • No noivado de Ferdinando e Miranda, Próspero os prepara para os Grandes Mistérios do Paraíso Celeste, ensinando que todas as glórias da vida terrena não são mais do que um sonho.
    • A fala de Próspero sobre os atores que se dissolvem no ar e sobre nossa vidinha que se completa com um sono só é colocada exatamente no momento em que o Paraíso Terreno é atingido, indicando que há algo além.
    • Em A tempestade não há personagem correspondente a Hermione de Conto de inverno; em seu lugar a ênfase recai sobre a diferença entre noivado e casamento.
    • A peça inteira compensa sua inclinação para baixo elevando-se em direção ao Paraíso Celeste, isto é, à união final dos amantes que está além do noivado.
  • As palavras finais de Próspero, cada terceiro pensamento deve ser a minha sepultura, são identificadas por Martin Lings com a condição do mestre espiritual supremo que já morreu a grande morte interior antes de morrer corporalmente.
    • Próspero abandona sua arte e retira-se para Milão assim como Shakespeare abandona a sua arte e retira-se para Stratford.
    • A morte como portal não é digna de meditação em si mesma, mas como passagem para o estado desperto de ver face a face e não através de um vidro opaco.
    • O terceiro pensamento tem um significado celestial: primeiro, a consciência de uma certa separação da União; segundo, a gratidão reiterada pela bênção do estado espiritual; terceiro, a oferenda de cada terceiro pensamento à morte eventual da natureza humana e à reabsorção final no Espírito.
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