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UNICIDADE DO SER

LINGS, Martin. A Sufi saint of the twentieth century: Shaikh Aḥmad al-ʻAlawī : his spiritual heritage and legacy. 2d ed., rev and enl. 1st California pbk. ed ed. Berkeley: University of California Press, 1973.

  • A Unicidade do Ser (Wahdat al-Wujud), presente em todas as místicas ortodoxas da Ásia, ocupa lugar central também no Sufismo, como demonstra a observação de Nicholson sobre a identidade fundamental da mística em todas as épocas e lugares.
    • Nicholson (A Literary History of the Arabs, p. 384) observa que sistemas místicos sem relação entre si apresentam semelhança extraordinária e coincidem em modalidades de expressão.
    • A confusão reinante nos estudos sobre o Sufismo deriva da ignorância desse princípio de unidade fundamental.
  • O Corão formula a doutrina da Unicidade do Ser em versículos que afirmam diretamente a onipresença da Face de Deus e a extinção de tudo que não é Ele.
    • Versículos citados: “Adondequiera que os volvéis, allí está la Faz de Dios” (II, 115); “Todo perece salvo Su Faz” (XXVIII, 88); “Tudo o que está aqui se extingue, e apenas subsiste a Face do seu Senhor em Sua Majestade e Generosidade.” (LV, 26-27).
  • O Verdadeiro Presente é prerrogativa exclusiva de Deus, que é a Eternidade e a Infinitude que transcende, penetra e abarca todas as durações e extensões, de modo que no Eterno Agora tudo o que é perecível já pereceu, restando só Deus como único Senhor do Presente.
    • A Criação, submetida ao tempo e ao espaço, é “então” e “lá”, nunca verdadeiramente “agora” e “aqui”.
    • Desse versículo provêm os dois termos sufis fana' (extinção) e baqa' (subsistência), expressando respectivamente a extinção do santo em Deus e sua Vida Eterna como Deus.
    • Nota: Titus Burckhardt equipara baqa' ao moksha hindu e fana' ao nirvana budista em sua dimensão negativa (Introduction aux Doctrines Ésotériques de l'Islam, Derain, 1955).
  • A doutrina da Unicidade do Ser está também implícita no Nome Divino al-Haqq (a Verdade, a Realidade), pois afirmar a Realidade como atributo essencial da Divindade só tem sentido se nada distinto de Deus for real.
    • A palavra “Ser” refere-se ao que é, oposto ao que não é; a Unicidade do Ser é a doutrina segundo a qual por trás do véu ilusório da pluralidade criada está a única Verdade Divina.
    • Isso não significa que Deus seja formado de partes, mas que subjacente a cada elemento separado do universo está a Única Plenitude Infinita de Deus em Sua Indivisível Totalidade.
    • Nota: Massignon traduz wahdat al-wujud como “monismo existencialista” e entende erroneamente que o conjunto de todos os seres seria mais divino que cada coisa separada; para os que possuem visão mística, contudo, em cada mosquito está a Face de Deus.
  • O Tratado da Unidade (Risalat al-Ahadiyya) ensina que quando o segredo de um único átomo é claro, o segredo de todas as coisas criadas se torna claro e não se vê mais nada além de Deus.
    • O tratado é atribuído em alguns manuscritos a Ibn Arabi e em outros a Abd Allah al-Balyan (morto em 1287); é um dos mais importantes tratados sufis, existindo em grande número de manuscritos.
    • Formulação budista análoga citada: “Quando cresce uma brина de erva, o universo inteiro se revela nela” (D. T. Suzuki, Studies in Zen, p. 94).
  • Se algo pudesse mostrar-se distinto de Deus na Realidade do Eterno Presente, então Deus não seria Infinito, pois o Infinito consistiria em Deus mais essa coisa.
    • Al-Hallaj formula: “Tu encheste todo o 'onde' e tudo que está além do 'onde'. Onde estás Tu, pois?” (Diwan, p. 46).
    • O Xeique Al-Alawi cita extensamente as formulações de Muhammad Abduh em suas Waridat: “Não há mais ser que Seu Ser.”
    • Chuang Tzu: “Se escondes o Universo dentro do Universo não haverá lugar para que escape. Esta é a grande verdade das coisas.”
  • A doutrina da Unicidade do Ser ocupa-se exclusivamente da Realidade Absoluta, nada tendo a ver com as verdades menores e relativas que os sufis qualificam de “metafóricas”.
    • Ghazali: os Gnósticos se elevam das terras baixas da metáfora para as cimas da Verdade, onde veem que não existe nada salvo Deus, não só porque tudo perece num momento dado, mas porque não há momento em que não haja já perecido.
    • Ghazali acrescenta que os Gnósticos não precisam esperar a Ressurreição para ouvir a proclamação “De quem é o Reino esse dia? De Deus, o Único, o Irresistível” (Corão, XL, 16).
    • A citação provém de Mishkat al-Anwar, pp. 113-114 (Al-Jawahir al-Jawali, Cairo, 1343 da Hégira).
  • A doutrina da Unicidade do Ser está presente sempre que se faz referência explícita à Verdade Suprema, e no Cristianismo ela aparece implicitamente na via do amor dirigida à Segunda Pessoa da Trindade.
    • Quem possui a Cristo possui realmente o Todo, ainda que para os que seguem a via do amor essa Totalidade não seja o objeto imediato de seu fervor.
    • Quando a Verdade Suprema é concebida de forma mais direta, a doutrina da Unicidade do Ser aparece também inevitavelmente no Cristianismo.
    • Angelus Silesius (Cherubinischer Wandersmann) é citado: por mais vil que seja o pó e por mais pequenos que sejam seus átomos, o sábio vê nele a Deus com toda Sua Grandeza e Sua Glória.
  • Quando a Verdade Suprema se obscurece e se retira a segundo plano, a doutrina da Unicidade do Ser se obscurece também em todas as religiões, pois fora do Presente Eterno e Infinito ela carece de significado.
    • Esse obscurecimento resulta de um deslocamento do centro de consciência de um plano a outro.
    • Compreender as formulações dos místicos exige ter presente que esse deslocamento contínuo de plano é um fenômeno metodicamente praticado.
  • O noviço da tariqa alawiyya deve abandonar a agilidade da “inteligência profana” — comparada a “as piruetas de um macaco atado a um poste” — e adquirir uma agilidade de outra ordem, comparável à de um pássaro que modifica constantemente o nível de seu voo.
    • O Corão e as Tradições do Profeta são, no Islã, os grandes protótipos dessa mobilidade de planos de inteligência.
  • O rosário triplo da tariqa alawiyya, recitado duas vezes ao dia com cada fórmula repetida cem vezes, impõe metodicamente três planos de inteligência ao discípulo.
    • Primeira fórmula: petição de perdão a Deus — nível normal de percepção física, concernente ao ego como tal; é a fase de purificação.
    • Segunda fórmula: prece de bênção ao Profeta — o ego fragmentário cessa de existir, absorvido na pessoa do Profeta, que representa uma hierarquia desde a perfeição humana íntegra até o Homem Universal (Al-Insan al-Kamil), símbolo supremo do Infinito.
    • Terceira fórmula: afirmação da Unidade Divina — o próprio Profeta desaparece, pois essa fórmula concerne unicamente à Unidade Divina.
    • Nota: segundo Hasan b. Abd al-Aziz, discípulo do Xeique, esse rosário triplo é usado em todos os ramos da tariqa Shadhiliyya (Irshad al-Raghibin, p. 31); as mesmas fórmulas aparecem também em ramos da tariqa Qadiriyya.
  • Toda mística compreende necessariamente diferentes níveis de pensamento, pois é por definição a passagem do finito ao Infinito, e é improvável que as afirmações de um místico procedam todas de um mesmo ponto de vista.
    • Os mestres espirituais insistiram sobretudo na Wahdat al-Wujud porque ela é a Verdade Suprema e o fim último de toda mística, bem como o ponto de vista mais distante do discípulo e aquele para cuja adoção ele mais necessita de ajuda.
    • A insistência incansável sobre a doutrina tem valor metódico, quase “hipnótico”, ajudando o discípulo a situar-se virtualmente no Eterno Presente quando não pode fazê-lo de modo atual.
    • O Tratado da Unidade adverte que o discurso sobre a Unidade do Ser se dirige ao que tem resolução e energia para conhecer-se a si mesmo a fim de conhecer a Deus, não ao que carece de aspiração.
    • Nota: Ibn Arabi, ao criticar formulações de Junayd e Al-Hallaj sobre o Estado Supremo, não duvidava de que eles houvessem alcançado esse estado, mas julgava suas formulações insuficientemente adequadas do ponto de vista do método.
  • Quem verdadeiramente compreendesse a doutrina da Unicidade do Ser deixaria de rejeitá-la, pois Massignon a ataca por crer que ela nega a Transcendência de Deus e a imortalidade da alma, quando ao afirmar ambas ele afirma implicitamente a Unicidade do Ser, detendo-se apenas a meio caminho.
    • Meister Eckhardt é citado: “Há algo na alma que é incriado e incriável… E isso é o Intelecto.”
    • O Xeique Al-Alawi escreve em um de seus poemas: “Não vês quem és, pois tu és, mas não és 'tu'.”
    • Shustari é citado pelo Xeique: “Depois da extinção surgi, e agora sou Eterno, mas não enquanto eu. Porém, quem sou eu, ó Eu, senão Eu?” (Wa-man ana ya ana illa ana?).
  • A doutrina da Unicidade do Ser está mais próxima que qualquer outra de fazer justiça à Transcendência Divina, longe de negá-la.
  • Massignon afirma que a doutrina foi formulada pela primeira vez por Ibn Arabi, mas a doutrina em si ocupava lugar predominante no pensamento dos predecessores, e seu linhagem é puramente islâmico.
    • Ghazali (Mishkat al-Anwar, pp. 117-118), quase um século antes dos Fusus al-Hikam de Ibn Arabi, escreve: “Não há mais ele que Ele… 'Não há mais deus que Deus' é a proclamação da Unidade pela maioria, e 'não há mais ele que Ele' é a dos eleitos, pois a segunda é mais precisa, mais total, mais verdadeira e mais eficaz para fazer entrar quem a emprega na Presença da Singularidade Sem Mistura.”
  • A propósito do terceiro e supremo grau do Tawhid, o Xeique cita Abd Allah al-Harawi (morto em 1088 d.C.) nos Manazil al-Sa'irin: ninguém afirma verdadeiramente a Unidade de Deus, pois quem a afirma se coloca, pelo próprio ato de fazê-lo, em contradição com Ela; quem pretende descrevê-La blasfema ao criar uma dualidade pela intrusão de sua própria pessoa.
    • Essa formulação é quase idêntica à de Al-Hallaj (morto em 922 d.C.): “Quem pretende afirmar a Unidade de Deus Lhe dá, por isso mesmo, um associado” (Akhbar, núm. 49).
  • Al-Jarraz, em seu Livro da Veracidade, cita frase atribuída ao Companheiro Abu Ubayda (morto em 639 d.C.): “Nunca olhei nenhuma coisa sem que Deus estivesse mais próximo de mim do que essa coisa.”
    • A fórmula análoga do Tratado da Unidade (séc. XIII) responde à objeção sobre ver uma carniça ou um monte de lixo: o discurso se dirige ao dotado de visão interior (basira), não ao cego.
    • Chuang Tzu é citado em analogia: o Tao está na formiga, na erva, no excremento — “Não há nenhuma coisa na qual não esteja o Tao” (cap. XXII, trad. Yu-Lan Fung).
  • A citação de Al-Jarraz, feita por volta de 850 d.C., cobre os dois primeiros séculos do Islã com a doutrina corânica da Proximidade-Identidade-Unidade, confirmando que essa doutrina não aguardou formulações tardias.
    • A Tradição Sagrada confirma a identidade: “Quando Eu o amo, sou o Ouvido com que ouve, a Vista com que vê, a Mão com que combate e o Pé com que caminha.”
    • O “câmbio” não é de Deus, mas do místico que passa a perceber o que antes não percebia; a Divindade não está sujeita a mudança.
    • Nota: “Eu sou… Sua Vista”, ou, na frase corânica: “A mirada não pode alcançá-Lo, mas Ele alcança a mirada” (VI, 103).
    • Dois versículos apontam os dois planos de percepção: “Estamos mais perto dele do que sua veia jugular” e “Estamos mais perto dele do que vós, ainda que vós não o vejais” (LVI, 85); “Deus se interpõe entre o homem e seu próprio coração” (VIII, 24) significa que Ele está mais próximo do homem do que seu próprio eu mais íntimo.
  • Seria má psicologia supor que os Companheiros do Profeta não tenham captado os versículos corânicos que expressam a Unicidade do Ser, pois nenhuma geração do Islã os superou em medir o pleno sentido das frases desse Livro.
    • Alguns versículos corânicos admitem interpretação distinta, mas outros não; por exemplo: “Ele é o Primeiro e o Último, o Exteriormente Manifesto e o Interiormente Oculto” (LVII, 3) dificilmente podia ser entendido pelos Companheiros em sentido diferente da fórmula de Ghazali: “Não há outro objeto de referência mais que Ele.”
    • Abu Ubayda e o Profeta — “Tu és o Exteriormente Manifesto e não há nada que Te cubra” (Muslim, Da'wat, 16; Tirmidhi, Da'wat, 19) — exprimiam já, com as próprias palavras do Corão, essa verdade da Unicidade.
    • Nota: a afirmação do Profeta sobre o Exteriormente Manifesto não é incompatível com outras Tradições que falam de “véus” entre o homem e Deus; trata-se simplesmente de diferença de pontos de vista, um absoluto e outro relativo.
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