pallis:vida-ativa-4
VIDA ATIVA (4)
PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.
-
A Vida Ativa, por não ser autossuficiente, atua exclusivamente como um meio que exige a ritualização constante para não se converter em obstáculo, encontrando sua origem e seu fim na Vida Contemplativa.
-
A eficácia da ação depende de sua vinculação ininterrupta ao princípio superior.
-
Contemplação e Ação representam as atividades interna e externa do ser, tratando, respectivamente, do conhecimento do “eu” e da relação com o “outro”.
-
O simbolismo evangélico de Maria e Marta, bem como os preceitos de amor a Deus e ao próximo, ilustram a hierarquia necessária entre essas duas dimensões.
A Vida do Prazer constitui um estado subumano regido pela passividade dos sentidos e pela dualidade atração-repulsão, sendo frequentemente confundida com a Vida Ativa devido à valorização moderna do movimento frenético.-
Prazer e dor não são nocivos em si, mas tornam-se agentes de escravidão quando não referidos ao princípio; o prazer pode coroar a obra e a dor servir como instrumento de sacrifício.
-
A agitação frenética e o uso de distrações para evitar o tédio são formas de passividade, assemelhando-se ao movimento de uma cortiça ao sabor das ondas.
A Vida Passional, etimologicamente ligada ao sofrimento e à passividade, é um provocador de reações que a mentalidade sentimentalista confunde com atividade, enquanto o desapego ou despaixão representa a afirmação da atividade suprema.-
A paixão é algo sofrido pelo ser, uma resposta passiva às pressões do ambiente.
-
O autodomínio é erroneamente rotulado como escapismo por aqueles que desconhecem a natureza concentrada da atividade espiritual.
O obscurecimento da supremacia do Conhecimento sobre a Ação entrega a humanidade ao domínio da Reação e da violência, extinguindo as condições de silêncio e solidão favoráveis à meditação.-
A multiplicação de aparatos práticos restringe a sobrevivência da natureza selvagem e altera o ritmo da existência social, gerando medo e desinquietação.
-
Manter o curso da ação sob o ditame de ressentimentos e resultados tangíveis é persistir em uma via de destruição.
A posição dominante do homem na esfera terrestre confere-lhe a escolha entre ser mediador da ordem ou tirano explorador; a desordem interna do ser manifesta-se inevitavelmente em conflitos externos com o próximo e com o ambiente.-
O homem é a medida das coisas e carrega o poder de elevar ou degradar sua circunstância.
-
A sede de distração e o consumo da Vida do Prazer revelam o sabor amargo do desejo não saciado que impulsiona o ser a ciclos intermináveis de aquisição.
A ausência do princípio contemplativo marca instrumentos e instituições contemporâneas com o selo da Vida do Prazer, transformando luxos, serviços humanitários e até atividades religiosas em formas de passividade.-
A imagem que o homem faz de si mesmo é a pedra de toque que distingue a ação normal da mera busca por satisfação sensorial.
-
Omitir o princípio contemplativo, ainda que sem negação formal, equivale a um desautorizamento virtual da vida humana autêntica.
A Razão discriminativa deve identificar compromissos e diluições entre a atividade normal e os subprodutos da Vida do Prazer, evitando o dualismo radical entre espiritual e material.-
Muitas ações participam de um caráter misto que exige inquisição constante para detectar insuficiências.
-
A neutralidade moral é frequentemente um expediente inconsciente para evadir dilemas e justificar a “glutonaria moral” do sentimentalismo.
A ética e os códigos morais possuem valor relativo e instrumental para a ordem da individualidade, mas tornam-se becos sem saída se tomados como fins absolutos ou alimento final para a alma.-
Virtudes e méritos sociais não são o alimento que, segundo Platão, permite à alma ganhar asas para o voo final.
-
A perfeição transcendente pertence à Vida Contemplativa; no plano da ação, a perfeição é apenas a conformidade aos limites inerentes de um ato.
O ato perfeito, conforme a doutrina do Islã, deve ser “tudo o que deveria ser e nada mais”, cumprindo as condições de necessidade, habilidade, exclusão de irrelevâncias e referência ritual ao princípio.-
Esta fórmula constitui a teoria mais concisa da Ação e serve como disciplina severa para a vida cotidiana.
-
O cumprimento integral da Vida Ativa leva à sua própria negação final no fogo da Contemplação pura.
A morte para a Ação representa o cumprimento supremo do viajor, pois fora do propósito de transcendência, qualquer atividade resume-se a agitação e dispersão sem rumo.-
O princípio do sacrifício exige que a vida seja perdida para ser encontrada.
-
A Contemplação é o Alfa e o Ômega que justifica e encerra o ciclo da manifestação ativa.
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/pallis/vida-ativa-4.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
