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ANTES DO INÍCIO

SCHAYA, Leo. Naissance à l’esprit. Paris: Dervy-Livres, 1987.

  • A afirmação profética de que “Deus era e nada com Ele”, complementada pela ideia de que Ele é agora como era, encontra paralelos na liturgia judaica e no Apocalipse de São João, referindo-se todas à eternidade divina que transcende as categorias temporais de passado, presente e futuro.
    • A fórmula judaica “Ele era, Ele é e Ele será” utiliza as letras do Tetragrama YHVH para designar a Essência eterna e infinita.
    • A variante joanina “Aquele que é, que era e que vem” conecta a eternidade de Deus à sua manifestação escatológica.
  • Para além do Ser eterno de Deus, situa-se a Essência supra-ontológica e absoluta, o Sobre-Ser eternamente não manifestado, que é o grau supremo da Toda-Realidade onde nada existe “com Ele”, pois tudo o que é, incluindo o Ser, é absolutamente idêntico a Ele.
    • O termo “antes” do Começo é uma prioridade hierárquica e não temporal, indicando uma presença na ordem dos graus da Realidade divina.
    • No Sobre-Ser, o Princípio ontológico e toda a relatividade cósmica são absolutamente idênticos ao Absoluto, de modo que nenhuma coisa está “com Ele”, mas tudo é Ele.
  • A verdade da absoluta solidão divina reflete-se no plano do Ser, que, como Princípio ou Começo eterno de toda relatividade, contém as coisas não “com Ele”, mas “nEle”, num movimento de descida da Transcendência à Onipresença e de retorno à Essência transcendente.
    • O Ser é relativo a Si mesmo, ao Sobre-Ser e à existência que Ele determina e manifesta como seus efeitos a partir de arquétipos transcendentais.
    • A analogia da água do oceano e das ondas ilustra como as coisas, em sua essência, são a própria água infinita, e sua atualização como ondas não afeta a realidade da água, que permanece idêntica antes, durante e depois.
  • Nada foi, é ou será “com” a Toda-Realidade, pois o finito é apenas a possibilidade do Infinito de assumir uma aparência ilusória e transitória de um “outro”, que, em essência, não é outro que Ele, sendo o Uno sem segundo.
    • O “outro” existe apenas existencialmente e de forma relativa, pois se fosse absolutamente outro, haveria dois absolutos, contradizendo a unicidade de Deus.
    • A descontinuidade relativa entre o Infinito e o finito é a causa da aparência de alteridade e de uma consciência própria ignorante de sua identidade essencial com o Uno.
    • A Risâlat al-Ahadîyah explica que a fórmula “Lá ilâha illa-Allah” significa que não há realidade outra que Ele, e o que se crê ser outro não o é, pois não se conhece o próprio “Si” real e divino.
    • O dito profético “Quem se conhece a si mesmo conhece seu Senhor” e “Conheci meu Senhor por meu Senhor” indicam que o “eu” ilusório não tem ser próprio, e a verdade é o “Si” real, de modo que a extinção da ignorância revela que “Deus era e nada com Ele” e que “Ele é agora como era”.
  • A verdade suprema das coisas é sua Não-Dualidade absoluta e seu Não-Começo eterno, e contemplá-la é perceber que não há ser ou qualidade que não seja o Ser ou uma Qualidade divina, cujo ato eterno é o Verbo, o Logos interior, que é o próprio Começo de todas as coisas.
    • O Verbo é a Palavra silenciosa de Deus, sua Pensamento, Sabedoria ou Conhecimento infinito de todos os seus Aspectos e Qualidades, incluindo suas possibilidades reveladoras e criadoras.
    • O Evangelho de João afirma que “no Começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, o que está de acordo com a tradição islâmica de que Deus era e nada com Ele, pois as coisas, em aparência “com” Ele, são na verdade nEle e são em essência Ele mesmo.
    • O movimento interno da Trindade cristã (Pai, Filho e Espírito Santo) é a prefiguração, no próprio Deus, do movimento da criatura que vai dEle para Ele, nEle mesmo.
  • O “Espírito de Deus” (Ruah Elohim) que pairava sobre a face das águas designa o ato interior de Deus, seu Ser espiritual, que projeta o sopro do Verbo sobre a Mer da Essência, atualizando as primeiras “ondas” que são suas Qualidades e os Arquétipos supremos de todas as coisas.
    • O termo Ruah significa também “Vento” ou “Sopro”, e o “Espírito de Deus” é a “Face” do Começo que brilha sobre um ponto no oceano infinito da Essência, tornando-a inteligível e criadora.
    • A primeira frase da Bíblia, “No começo Deus criou os céus e a terra”, trata, segundo a Cabala, desses Arquétipos metacósmicos puramente ontológicos.
  • A frase “No começo Deus criou os céus e a terra” implica que, antes ou além do Começo, Ele não cria nada, mas também contém uma analogia positiva que transporta os termos “céus” e “terra” aos graus supremos da Realidade: o Não-Começo (a Essência absolutamente não manifestável) e o Começo (sua Realidade manifestável como Ser puro).
    • A segunda frase bíblica, “a terra era informe e vazia”, significa que antes do Começo a Realidade manifestável era desprovida de forma e vazia, ou seja, idêntica à pura Essência, mas receptiva às formas.
    • “As trevas estavam sobre a face do abismo” referem-se à Face oculta do Absoluto, a Noite superinteligível do Não-Ser ou Sur-Être, enquanto a Face do Começo se revela e é o Motor primeiro de todo movimento.
  • Saindo da Noite de sua Absolutidade, Deus manifesta-se pela luz criadora de seu Verbo, que é a “luz” feita sobre o que era manifestável nEle, luz que é o próprio Ser inteligível e causal, distinto do Não-Começo superinteligível, as “Trevas mais que luminosas”.
    • A luz, que é boa porque manifesta e revela Deus, tem sua origem nas Trevas superiores, a Absolutidade à qual o salmista se dirige dizendo que “a noite brilha como o dia”.
    • Deus “separou a luz das trevas”, significando o discernimento supremo entre a Realidade pura (Não-Começo) e a Causa ontológica da ilusão cósmica (o Começo da relatividade), separação que se reflete na distinção entre a união a Deus (bem) e o afastamento dEle (mal).
    • Embora o Começo seja o princípio da separatividade criatural, ele mesmo, em sua identidade com o Não-Começo, participa da Continuidade infinita do Uno, e a Escritura mostra a transição (o “serão e manhã”) entre a Luz do Ser e as Trevas do Sobre-Ser como constituindo um único “Dia”, o “Dia do Uno”.
  • O discernimento entre o Não-Começo e o Começo é reapresentado pelo simbolismo do “firmamento”, que “separa as águas das águas”, afirmando a dualidade prototípica na Unidade entre as “Águas superiores” (não manifestadas e imóveis) e as “águas inferiores” (manifestáveis e manifestadas, movediças).
    • O firmamento é o arquétipo eterno do “céu” (shamayim), termo composto por “esh” (fogo, a luz divina) e “mayim” (águas, a substância cósmica), simbolizando a luz divina que penetra e une a dualidade do criado.
    • O “segundo dia” ou “Dia Dois” é o Dia do Uno revelando-se explicitamente como Princípio da dualidade.
  • As “águas inferiores” são as vibrações cósmicas que, num movimento centrífugo, afastam-se da sua Fonte, mas, num movimento centrípeto, gravitam em torno do Centro imóvel e universal, o “Lugar Uno” (ha-Maqom), que é um nome divino para a Imanência que contém todo o múltiplo e onde as “águas” se recolhem para que a “Sêca” (yabashah), a Shekhinah ou Imanência divina, se torne visível.
    • Ha-Maqom, o “Lugar”, significa que Deus é o Lugar do mundo, e não o contrário, pois sua Onipresença infinita não é localizável pelo finito.
  • A exegese passa do nível onto-cosmológico para o onto-cosmológico, onde a “terra” designa, após o “céu” transcendente, a Imanência do Princípio, a Shekhinah, cuja manifestação luminosa se dá sob as formas de anjos (“verdura e erva”) e as formas primeiras de tudo o que é macho e fêmea (“árvores frutíferas”).
    • O “amontoado de águas inferiores” concentra-se, ao final da criação, na imagem mais acabada do Uno: o homem, que é o “lugar único” onde Deus se reflete perfeitamente como num espelho, sendo ele a síntese final de todas as manifestações das Qualidades divinas.
    • Quando as “águas” do homem são puras, o Fundo “seco” de todas as coisas, o Uno imanente, torna-se visível nele; quando essas águas se aquietam completamente, seu ser é reintegrado na Realidade suprema, elevando-se das “águas inferiores” às “Águas superiores”, ao Não-Começo, ao eterno “Sábado”.
  • No fundo da relatividade humana encontra-se a Absolutidade, a identidade total com a Essência de Deus e de todas as coisas, que só pode ser reencontrada pelo amor e conhecimento que discernem e realizam cognitivamente o único Si-mesmo da Toda-Realidade em si, no próximo e em Deus.
    • O duplo mandamento de amar a Deus de todo o coração, alma e força e ao próximo como a si mesmo contém a via para essa realização.
    • O ser que chega diante do Absoluto apegado ao “eu” é reenviado à relatividade, mas aquele em que o conhecimento e o amor se identificam com a essência de todas as coisas no Absoluto é por Ele absorvido.
  • Pelo amor espiritual e conhecimento, o homem eleva-se de sua relatividade à Absolutidade, e na oração, na recitação ritual, nas invocações e na contemplação, sua relatividade acaba por se absorver e se apagar no Absoluto, sua própria Absolutidade.
    • O homem deve invocar o Supremo “de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua força” para que o Divino se “desperte” e o reconduza, com toda a Criação, à sua Essência pura, o “Sábado dos Sábados”.
  • O amor total e o conhecimento total são idênticos no estado supremo da Toda-Realidade, onde a alma, tendo superado seus limites criados e se tornado puro Espírito universal, conhece a si mesma como Aquele que, em seu amor infinito, se dá totalmente a toda coisa, realizando a Identidade universal e amando a Deus e ao próximo como seu “Si-mesmo”.
    • Contemplando todas as coisas em sua própria essência divina, o espírito do homem as eleva à Absolutidade, e quando seu olhar volta à relatividade, vê em cada uma delas a “mancha branca” do Sol único, vê Deus, o único Real, em toda parte.
  • O discernimento entre o Real e o ilusório é a afirmação do próprio Sol interior, que revela que as trevas do finito esperam ser iluminadas pela mediação espiritual do contemplativo, que, no “lugar único” do coração, vê todas as coisas em Deus e Deus em todas as coisas.
    • No coração, o “lugar uno” que é o próprio Deus onipresente, toda obscuridade se dissipa, o criado se converte a Deus e nele repousa, e o contemplativo encontra todas as coisas em sua Verdade e Realidade puras, sua Absolutidade.
    • A contemplação deificante é o ato mais poderoso, no qual tudo se realiza sinteticamente e encontra sua libertação no Absoluto, fazendo remontar em si mesmo todas as “águas inferiores” até imergirem na Paz infinita das “Águas superiores” e imóveis.
  • A realidade pura do homem permanece como era antes do Começo das ondas, pois a Água era e nenhuma onda estava “com” Ela, sendo toda onda a própria Água, e a Água é agora como era antes do Começo, assim como será até o Fim, que reencontra e ultrapassa o Começo.
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