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CRIAÇÃO DO NADA OU DO REAL?
SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983.
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O aprofundamento do mistério da criação exige o confronto entre as interpretações exegéticas superiores e os graus inferiores da exegese teológica oficial da tríade abraâmica.
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A doutrina exotérica, embora forneça elementos para transcender o literalismo, frequentemente encarcera doutores e massas na concepção de uma creatio ex nihilo onde o nada é interpretado de forma absoluta.
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A perspectiva esotérica impõe retificações doutrinais exaustivas sobre essa visão amplamente difundida, visando elucidar o tema para o leitor não advertido sem a pretensão de esgotar seus desenvolvimentos históricos.
A fórmula da creatio ex nihilo não indica a preexistência do nada, mas sim uma criação que ocorre a partir e no seio do Real.-
O cosmos, enquanto fenômeno natural com início temporal, não implica uma origem no nada, pois o nada, por definição, não pode existir nem preexistir.
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Se o nada possuísse qualquer forma de ser, ele integraria a Realidade infinita de Deus; portanto, apenas a noção mental e as imaginações construídas em torno do nada possuem existência.
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A existência real atribuída ao nada é ilógica e pode ser desfeita pelo raciocínio que demonstra ser o nada apenas um dado mental abstrato ou imagético.
A identificação do nada com imagens de obscuridade ou vacuidade presentes nas Escrituras constitui um erro interpretativo, visto que tais símbolos representam a Receptividade cosmológica de Deus.-
A Gênese I, 2 simboliza a Receptividade divina que preexiste à criação e estabelece uma descontinuidade relativa entre o Criador e o cosmos.
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O fiat lux preenche o vazio relativo com a Luz criadora, concretizando as trevas da Receptividade na matéria cósmica que reflete as formas das criaturas.
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A exegese esotérica postula a preexistência da Luz e da Receptividade divinas, que contêm os efeitos cósmicos em estado ontológico e arquetípico.
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A percepção sensorial do ser criado é incapaz de testemunhar o surgimento a partir do nada, pois a visão pressupõe a própria existência do sujeito e do objeto.
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A realidade relativa do ser procede logicamente de uma realidade preexistente e incriada, identificada nas religiões como a Causa primeira, absoluta e incondicionada.
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Deus, como Realidade infinita, exclui qualquer ausência de realidade em si ou fora de si, percebendo o fenômeno cósmico não como algo vindo do nada, mas como uma aparência de Si mesmo.
A tradição judaica atesta a eternidade de Deus através da fórmula vehu hayah vehu hoveh vehu yihyeh betipharah, indicando que os fenômenos cósmicos surgem d'Ele e n'Ele para afirmar Sua realidade.-
Os fenômenos manifestam os Aspectos divinos, que são arquétipos eternos, surgindo como combinações variadas e únicas dessas possibilidades criatrizes.
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Na perspectiva do Real, nada é novo sob o sol, pois tudo subsiste na Essência e no Conhecimento universal do Uno.
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O fenômeno particular é um reflexo do conteúdo eterno da Sabedoria divina, remontando ao Começo eterno que implica o princípio da renovação.
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O Eclesiastes I, 6 e o esoterismo muçulmano corroboram essa visão através das doutrinas dos circuitos do Espírito e da renovação da criação a cada instante.
O literalismo da creatio ex nihilo foi adotado pela maioria dos exoteristas não apenas por falha imaginativa, mas como uma medida voluntária para preservar o criacionismo monoteísta ortodoxo entre as massas.-
Os doutores das teologias oficiais temem o dualismo principial e a afirmação de causas criadoras associadas ou externas ao Uno.
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Existe um receio institucional contra influências de conceitos como a materia prima autônoma ou a divinização de um princípio do Mal em oposição ao Bem.
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O exoterismo combate o monismo panteísta que, ao pregar a emanação contínua do Incriado, permitiria à criatura considerar-se essencialmente divina ou idêntica a Deus.
A doutrina da criação do nada funciona como uma arma intelectual contra o panteísmo e o dualismo, embora acabe por aprisionar os fiéis em um dualismo próprio.-
A definição de que Deus tirou o mundo do nada por Vontade livre e Sabedoria esconde a verdade sob uma forma condensada e incompleta.
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Paradoxalmente, a tentativa de evitar o dualismo acaba por postular uma dualidade entre Deus e o nada, o que constitui um mal menor para a salvação das almas simples no quadro exotérico.
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Este dualismo criacionista é aceito por não associar explicitamente o nada como uma divindade, mantendo a crença em um único Deus.
O conceito exotérico de creatio ex nihilo estabelece uma separação espiritual fictícia entre Deus e a criatura, interpondo um nada que gera uma descontinuidade absoluta.-
Tal doutrina contribui para desenraizar a criatura de sua Essência divina, mas foi considerada inevitável para proteger a inteligência média de heresias causais.
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No contexto contemporâneo de caos intelectual, torna-se necessário confrontar essas doutrinas com a verdade metafísica pura para promover a espiritualização das almas.
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O objetivo não é a abolição do exoterismo, mas a extração de sua quintessência esotérica situada no grau supremo da exegese tradicional.
O cristianismo, o islã e o judaísmo compartilham a mesma divergência entre a exegese exotérica da criação ex nihilo e as interpretações esotéricas da criação ex Deo e in Deo.-
Surgem compromissos híbridos em ambas as perspectivas, mas com motivações distintas: os exoteristas tentam sanar as fissuras da descontinuidade absoluta através da noção de participação.
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Os mestres esotéricos e místicos, como os Cabalistas, identificam simbolicamente a creatio ex nihilo com a criação em Deus, por vezes utilizando fórmulas equívocas para proteger a elite espiritual.
A análise esotérica revela as contradições internas do exoterismo, que postula a preexistência de um nada que coexistiria paradoxalmente com o Deus Único.-
A visão exotérica nega a continuidade efetiva entre as Qualidades divinas e o criado, resultando em uma coexistência fora de Deus que rompe Sua unicidade.
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A concepção esotérica define a Realidade divina como infinita, não deixando nada fora de si e tratando a criação como uma autodeterminação cognitiva de Deus.
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Os seres preexistem em Deus como Sua própria Essência e arquétipos, existindo posteriormente como aparências ilusórias que Ele atualiza para afirmar Sua Realidade única.
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O processo culmina na reabsorção das alteridades aparentes na Ipsedade absoluta de Deus.
Muitos mestres esotéricos velaram a doutrina da Identidade essencial para evitar confusões entre o Incriado e o criado, exigindo do fiel o apagamento espiritual em sua Essência.-
Perspectivas como a da dewequth na Cabala judaica ou a da participação em místicos cristãos, baseada em II Pedro 1,4, mantêm uma distinção terminológica sutil entre as essências.
A aceitação de um nada real implica um erro lógico que estabelece uma dualidade de dois absolutos, estendendo essa separação entre a Causa e o efeito.-
O esoterismo baseia-se na Continuidade infinita da Unidade de Deus, onde o finito é uma aparência assumida pelo Infinito.
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A descontinuidade entre o Criador e o criado é meramente relativa e de ordem cognitiva, conforme as passagens de Êxodo III, 14 e Isaías XLIV, 24 e XLV, 6.
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Deus conhece e produz todas as coisas em Si mesmo; as coisas são distintas d'Ele apenas enquanto fenômenos, mas não em sua realidade essencial.
A inexistência de um nada absoluto garante a infinitude da Realidade divina, pois um nada criado ou preexistente seria, por contradição, algo existente.-
O esoterismo rejeita o dualismo que se opõe à Unidade absoluta de Deus, retificando a visão exotérica sem cair no panteísmo vulgar.
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A distinção reside na diferença entre a alteridade existencial do criado e sua Identidade essencial com a Causa.
A finalidade do exoterista é a coexistência dual com o Senhor, enquanto o objetivo do esoterista é a união unitiva e a absorção da consciência limitada na Consciência infinita.-
A Identidade essencial é preexistente e implica a criação como uma aparência de alteridade efêmera.
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O termo creatio ex nihilo é adotado ocasionalmente pelo esoterismo para indicar que a inexistência das coisas enquanto coisas é sua preexistência em Deus enquanto Deus.
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A Escritura, em Deuteronômio IV, 35, reforça que não há realidade fora de Deus, seja antes, durante ou após a existência criada.
O Alcorão e a tradição islâmica, através de figuras como Maomé e Ali, confirmam que Deus permanece agora tal como era antes da criação, sem que nada exista com Ele.-
A revelação a Zacarias no Alcorão XIX, 9 sobre a criação quando este não era coisa alguma aponta para a realidade de que toda coisa em si é o Real puro antes de sua manifestação.
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O Tiqqune Zohar XIX afirma que, na Imandade de Deus, tudo é Deus e Deus é tudo, sendo a criação uma alteridade transitória dentro da Infinitude divina.
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A alteridade é uma descontinuidade relativa que permite à coisa, ao cessar de ser outro, realizar sua identidade com Deus.
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A analogia da onda e do oceano ilustra que a substância da manifestação é a mesma da essência; a diferenciação ocorre pela ação do Espírito que produz as formas no seio da Substância infinita.
A doutrina da creatio ex Deo distingue as águas superiores infinitas, que são os arquétipos eternos, das águas inferiores finitas, que são os efeitos criados e materiais.-
Conforme Gênese I, 6-7, as formas criadas são imagens relativas dos modelos incriados, destinadas à reintegração na Unidade absoluta.
A matéria cósmica possui seu arquétipo na Receptividade infinita de Deus, sendo a matéria primeira uma qualidade inerente ao próprio Criador e não algo externo.-
A Receptividade divina possui um aspecto ténébroso e passivo que é atualizado como Inteligência onto-cosmológica pela Sabedoria divina.
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Deus cria o mundo a partir de Si e em Si, onde o Princípio ativo da Sabedoria contém os arquétipos e a Receptividade materna faz nascer a multidão das formas.
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As Qualidades divinas, incluindo a Feminilidade ou Receptividade, são perfeições inseparáveis da Essência, prefigurando a natureza masculina e feminina mencionada na criação do homem à imagem de Deus.
A matéria primeira incriada é a própria Receptividade de Deus, tornando desnecessária a invenção de um nada real para explicar a origem do mundo.-
A criação é extraída da Essência divina através de uma descontinuidade cognitiva que diferencia a Realidade pura de sua aparência fenomenal.
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Dionísio o Areopagita, em sua Teologia Mística e nos Nomes Divinos, afirma que Deus é Alteridade por Sua Providência, permanecendo imutável em Sua Identidade enquanto Se comunica para a deificação das criaturas.
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A Sabedoria divina conhece as coisas materiais de modo imaterial e as múltiplas de modo unitário, pois Deus conhece tudo como procedendo de Si e preexistindo em Si.
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A criação não é algo inexistente antes de sua produção, mas sim uma creatio in divinis que preexiste, existe e retorna à Transcendência através do Ato único e cognitivo de Deus.
A criação possui uma face criatural efêmera e uma face divina eterna, integradas pelo Espírito que supera a distinção entre o cosmo e o metacosmo.-
A descontinuidade é relativa e reside na Receptividade divina, que a Cabala descreve como a Mãe nunca separada do Pai, sendo preenchida eternamente pela Luz da Sabedoria.
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O Discernimento divino atua como um prisma que multiplica a Luz infinita em raios criadores sem romper a unidade intrínseca do Real.
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A confusão entre essa Receptividade insondável e o nada é o erro que o esoterismo busca dissipar, reafirmando que apenas Deus é o Verdadeiro e o Real.
O presente estudo do criacionismo semítico utiliza citações comentadas para evidenciar as verdades metafísicas e os ilogismos do exoterismo, que não encontram respaldo explícito nas Escrituras.-
O conceito literal de tirar do nada é uma construção de exégetas que se tornou a acepção comum do verbo criar no monoteísmo abraâmico.
O esoterismo judaico interpreta o verbo criar como a emanação a partir do Não-Ser ou Sobre-Ser de Deus, rejeitando o sentido de extração do nada absoluto.-
Santo Agostinho, em Contra Adversarium Legis et Prophetarum, diferencia fazer de criar, sugerindo que criar é constituir a partir do que já existia.
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O ato de fazer pressupõe a preexistência das essências arquetípicas no agente divino, invalidando a ideia de produção a partir do nada.
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Autores latinos como Lucrécio e Pérsio corroboram que nada pode ser criado do nada (ex nihilo nihil), implicando que tudo o que existe preexiste eternamente em estado incriado.
No islã, o termo khalaqa refere-se à atividade de atribuir medida às coisas, o que Titus Burckhardt associa à primeira determinação das possibilidades no Intelecto divino.-
A cosmogonia islâmica descreve Deus concebendo as possibilidades e conferindo-lhes capacidade de desenvolvimento antes de produzi-las à existência.
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Essa perspectiva converge com o esoterismo judaico na doutrina da criação em Deus, onde a Sabedoria e a Receptividade atuam na manifestação arquetípica.
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Deus reside na criação e esta se esconde em Sua Essência, reafirmando que não há realidade, por mais efêmera que seja, fora da Realidade infinita e absoluta do Uno.
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