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MODOS DE ORAÇÃO

  • A oração no sentido ordinário, expressão direta dos desejos, temores e gratidão do indivíduo, é considerada menos perfeita que a oração canônica, cujo caráter universal advém de Deus ser seu autor e de o sujeito ser a espécie humana como tal, não o indivíduo singular.
    • A oração canônica, por exprimir-se frequentemente na primeira pessoa do plural e em língua sagrada, possui universalidade e valor intemporal, englobando eminentemente todas as orações individuais possíveis.
    • As Revelações permitem ou recomendam a oração individual, mas não a impõem, ao contrário da canônica.
  • A oração individual tem sua razão de ser na natureza, dado que os indivíduos diferem entre si, e seu objetivo não é apenas obter favores particulares, mas também purificar a alma, exteriorizando perante Deus as dificuldades e desequilíbrios psíquicos para restaurar a paz e abrir-se à graça.
    • A oração individual dissolve nós psíquicos, coagulações subconscientes e venenos secretos.
    • A exteriorização das dificuldades da alma diante do Absoluto, feita com humildade e verdade, restabelece o equilíbrio.
    • A oração canônica oferece os mesmos remédios a fortiori, mas o espírito humano é fraco para deles extrair todos os benefícios.
  • O caráter pessoal da oração não canônica não implica ausência de regras, pois a alma humana é sempre semelhante em suas misérias e alegrias, devendo a oração conter, além da demanda, a gratidão, a resignação, o arrependimento, a resolução e a louvação.
    • A demanda visa uma graça que seja agradável a Deus, à Norma universal.
    • A gratidão é a consciência de que toda graça do destino poderia não ser; sem ela não há oração.
    • A resignação é a aceitação antecipada do não atendimento de uma demanda.
    • O arrependimento implica a consciência do que opõe à Vontade divina.
    • A resolução é o desejo de remediar uma transgressão, lembrando a liberdade humana.
    • A louvação reconhece a fonte última de todo valor e vê a necessidade ou utilidade nas provas.
  • A meditação é um modo de oração no qual o contato entre o homem e Deus se dá entre a inteligência e a Verdade, sendo objetiva e intelectual, em contraste com a subjetividade e volição da oração individual.
    • A meditação objetiva e intelectual difere da oração subjetiva e volitiva, ainda que ambas possam envolver formulação espontânea do pensamento.
    • Na meditação, o sujeito pensante é a inteligência impessoal, ponto de interseção entre a razão humana e o Intelecto divino.
  • A meditação atua despertando “lembranças” consubstanciais na inteligência e incorporando verdades ao subconsciente, gerando uma persuasão profunda que influencia a capacidade de agir, como exemplificado pelo poder da autossugestão.
    • Um homem pode realizar grandes coisas se crer em sua capacidade, enquanto outro, mais dotado mas duvidoso, pode nada realizar.
    • Na vida espiritual, é valioso estar intimamente persuadido das metas e da capacidade de alcançá-las com a ajuda de Deus.
  • A meditação, em linguagem védantina, é a investigação (vichâra) que leva à assimilação da verdade teórica e o discernimento (viveka) entre o Real e o irreal, distinguindo-se dois níveis: um ontológico e dualista (bhakti) e outro centrado no Sobre-Ser ou Si-mesmo, não dualista (jnâna).
  • A concentração pura, quando baseada na tradição e centrada no Divino, é também uma oração, sendo o silêncio considerado um “Nome do Buda” devido à sua conexão com a noção de vazio.
  • Existe uma oração na qual Deus mesmo é, de certo modo, o sujeito: a pronunciação de um Nome divino revelado, fundamentada na identidade entre Deus e seu Nome (Râmakrishna) e na pronunciação eterna e incriada do Nome por Deus em Si mesmo, protótipo de toda oração.
    • O Ser é a “cristalização” do Sobre-Ser, a “Palavra” ou o “Nome” do Absoluto.
    • O mundo ou a Existência é a Palavra do Ser, do Deus pessoal, sendo o efeito sempre o “nome” da causa.
  • Ao pronunciar o mesmo Nome, o homem descreve o movimento inverso ao da manifestação divina, pois o Nome, que para Deus é determinação e “sacrifício”, para o homem é libertação e plenitude, atuando como um “istmo” metafísico (barzakh) que remete ao Princípio.
    • A invocação humana é o prolongamento externo da invocação eterna e interna da Divindade.
    • A Revelação, para o Criador, é descida ou encarnação; para a criatura, é subida ou ex-carnação.
  • A razão de ser da invocação do Nome é o “lembrança de Deus”, que é a consciência do Absoluto, prerrogativa e finalidade da inteligência humana, sendo o Nome o meio de atualizar, perpetuar e fixar essa consciência no coração, transmutando o ser.
  • O homem está unido ao Uno pelo ser, pela consciência pura e pelo símbolo (a Palavra), sendo pela oração central que realiza o Ser e a Consciência mutuamente, perfeições prefiguradas respectivamente pelo sono profundo (e beleza/virtude) e pela concentração (e inteligência/contemplação).
  • A preeminência da Palavra ou Nome como expressão do Ser e como oração jaculatória justifica-se por ela realizar todos os aspectos possíveis de afirmação e por distinguir o homem do animal, implicando pensamento, sendo ato e tendo um aspecto sacrificial, além de ser a primeira faculdade manifestada ao nascer.
    • A palavra, exteriorização da pensamento, acrescenta a esta uma dimensão de inteligibilidade e, como ato, tem caráter sacrificial por limitar o que exprime.
    • A oração jaculatória, como palavra, é pensamento, ato e sacrifício, incluindo um aspecto ascético por excluir outras preocupações.
    • O grito ao nascer e o último suspiro são prefigurações ou símbolos de oração.
  • Embora toda atividade normal reflita o Ato eterno de Deus, a palavra tem precedência sobre atividades secundárias, pois todo homem fala, mas nem todos partilham de um mesmo ofício; estas podem, contudo, veicular a oração quando a ela se superpõem em virtude de sua qualidade simbólica.
    • Um ofício, como o de tecelão, pode refletir metaforicamente o ato divino de “tecer” possibilidades e manifestações.
    • O simbolismo inerente a uma ocupação não é suficiente; é a oração contemplativa que se lhe sobrepõe que a torna um suporte espiritual.
  • O princípio de que a “oração do coração” pode substituir todos os outros ritos, presente no Hesicasmo e mais acentuado nas vias hindus e budistas, funda-se na distinção entre o domínio da Vontade divina (que se expressa em orações complexas adequadas à complexidade humana) e o da Natureza divina (que se expressa pelo só Nome).
    • Os ritos podem ser considerados adjuvantes necessários da oração do coração, segundo uma perspectiva adequada a certos temperamentos.
  • A discussão sobre meios espirituais como a oração jaculatória exige, numa época que pede testemunhos, a ressalva de que tais meios só têm sentido dentro das regras da tradição que os propõe, sendo temerário improvisar, pois a liberdade humana diante de Deus não é absoluta e o uso vão do Nome é condenado nas Escrituras.
    • O homem é a priori “vão” segundo certos critérios espirituais que intervêm em métodos diretos.
    • Só tem valor salvífico o que é dado por Deus, não o que é tomado pelo homem; Deus revelou seus Nomes e determina seu uso.
    • O uso presunçoso das orações jaculatórias acarreta condenação, à semelhança de comer o pão divino indignamente.
  • Superadas as condições de uso, a oração jaculatória responde às exigências de perfeição e continuidade na oração, conforme a exortação a “orar sem cessar” e a ideia de que o Espírito intercede por gemidos inefáveis.
  • Os Nomes divinos têm significações particulares, próprias de cada linguagem revelada, e universais, por se referirem ao Princípio supremo, enunciando implicitamente uma doutrina, como no caso do Nome de Jesus, que significa a encarnação de Deus para possibilitar a ascensão do homem decaído.
    • O cristianismo parte do aspecto volitivo do homem, da queda, mas pode dar acesso à gnose graças à analogia entre Cristo e o Intelecto e à ideia de deificação.
    • A fórmula “Deus se fez homem para que o homem se faça Deus” implica, em última análise, que a Realidade entrou no nada para que o nada se tornasse real.
    • O mal é o nada manifestado, que não vive de si, mas corrompe o bem para que um bem maior possa advir.
  • A reciprocidade expressa no Nome de Cristo tem primordialmente um sentido de amor: Deus amou o mundo para que o mundo ame a Deus, implicando o amor ao próximo e o sacrifício de si, com a cruz como ponto de encontro sacrificial entre o humano e o divino.
    • O cristianismo apresenta-se como reciprocidade volitiva entre o Céu e a terra, mas inclui o discernimento intelectivo, pois o Sujeito se faz objeto para que o objeto se torne Sujeito, definindo o mistério da gnose.
    • O Nome do Cristo é “Verdade” e “Poder”, enquanto o Nome da Virgem é “Misericórdia” e “Pureza”, polarizando a Luz divina.
  • A afirmação de que no cristianismo não há esoterismo fora da santidade, enquanto no islamismo a santidade só se realiza no esoterismo, explica-se pelo fato de o cristianismo ter transcendido a Lei mosaica (exotérica) por uma atitude pessoal, tornando-se dogmático, e a santidade reconduzir esse exotérisno de fato à sua essência esotérica no plano do amor.
    • O cristianismo comporta também um esoterismo em sentido absoluto, a gnose ou teosofia, que pode ser qualificada de esoterismo.
    • A correlação entre a “Paz” de Cristo e a contemplação pura é lembrada.
  • No islamismo, a doutrina implícita do Nome de Deus (Allah) é a Unidade, significando que Deus é o Absoluto e que só há um Absoluto, ideia que “unifica” e liberta, tomando como ponto de partida o caráter teomórfico da inteligência humana, feita para o Absoluto-Infinito.
    • A Unidade é expressa na Shahâdah (Lâ ilaha illâ 'Llâh) e equivale à afirmação védantina “O mundo é falso, Brahma é verdadeiro”.
    • O homem é a inteligência integral e transcendente, cujo conteúdo essencial é a libertação pela consciência do Absoluto.
  • O fato de ser humano obriga a “tornar-se Um”, pois o espírito é um recipiente feito para conhecer a Evidência que liberta, e crer no que implica o Nome Allah acarreta assumir as consequências dessa convicção, professando a Unidade em todos os planos.
    • Não há fé unitária (imân) sem submissão à Lei (islâm), e nem uma nem outra sem virtude espiritual (ihsân), sem realização.
    • Admitir o Absoluto obriga ao todo; admitir uma relatividade não obriga a nada.
  • O Nome Allah, além do aspecto de Verdade, comporta o aspecto de Misericórdia, expresso na fórmula de consagração (bismi Llahi Er-Rahmâni Er-Rahîm), que se relaciona com as Revelações e os símbolos naturais, sendo seu sentido próximo ao do testemunho de que Maomé é o Enviado de Deus.
    • O primeiro testemunho (Unicidade) enuncia a absorção do humano pela Verdade; o segundo enuncia a efusão das virtudes e graças no mundo.
    • Se o primeiro testemunho afirma que o mundo é falso, o segundo lembra que “toda coisa é Âtmâ”.
  • O Alcorão prescreve as condições para a oração do Nome supremo: humildade, segredo, temor e desejo, firmeza e frequência, visando à quietude dos corações, pois o Nome Allah, sendo o Único, é a grande Paz que faz calar todos os ruídos do mundo e da alma.
    • O segredo da invocação refere-se tanto à discrição externa quanto ao sentido interior do “coração” como sede do Si-mesmo.
    • A firmeza e frequência do “lembrança” vencem o espaço e o tempo.
    • O Nome, como a Paz, joga sobre as coisas um manto de neve que extingue e une num mesmo silêncio eterno.
  • O hindu que invoca Shrî Râma identifica-se com Sitâ, a alma raptada pela paixão e ignorância (Râvana) e exilada na matéria (Lanka), abandonando sua existência própria na forma divina de Râma, que assume as cargas da vida e o reconduz a essa forma imutável.
    • Râdha, a eterna esposa de Krishna, dá lugar ao mesmo simbolismo.
    • O nome Krishna enuncia a sabedoria contida no Mahâbhârata e explicitada na Bhagavadgîtâ.
  • A invocação do Buda Amitâbha (Amida), fundamentada na doutrina do Voto original e da redenção, faz o fiel entrar num halo de Misericórdia, abandonando-se com gratidão na luz do Nome, que o conduz ao Paraíso do Oeste (Sukhâvati), para além do ciclo da existência.
    • O Amidismo resume-se em pureza (abster-se do mal), invocação do Nome e fé (confiança).
    • Amitâbha é Luz e Vida; seu Nome é como um sol que o fiel segue até o outro lado, “para além”.
  • A oração implica uma alternativa interior entre uma imperfeição e o “lembrança de Deus”, podendo sobrepor-se a todo ato lícito e, mediante a oração habitual, manter sua vibração mesmo durante pensamentos belos ou úteis que ocupem a mente.
    • A oração não pode sobrepor-se a um ato ilícito ou vil.
    • O “perfume” da oração pode subsistir durante outras ocupações mentais quando há o hábito da oração e a intenção de perseverar.
    • O passado (adquirido) e o futuro (intencional) participam da continuidade inarticulada da prece.
  • A vida não é um espaço de possibilidades ao bel-prazer, mas um caminho que se estreita do momento presente à morte, onde se dá o encontro com Deus e a eternidade, realidades já presentes na oração, na atualidade intemporal da Presença divina.
    • O importante é a perseverança no “lembrança” que tira do tempo e eleva acima de esperanças e temores.
    • A oração, sendo una, situa-se já na eternidade, sendo uma morte, um encontro com Deus e uma beatitude.
  • No universo onírico do mundo, a oração é o único ponto estável de paz e luz, a porta estreita para o que o mundo e a vida buscaram em vão; ela dá ao instante terreno todo o peso da eternidade, sendo a barca que conduz à outra margem, ao silêncio de luz.
    • As quatro certezas na vida de um homem são: o momento presente, a morte, o encontro com Deus e a eternidade.
    • Na oração, não é ela que atravessa o tempo repetindo-se, é o tempo que se detém diante de sua unicidade já celeste.
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