schuon:forma-substancia:substancia-sujeito-objeto
SUBSTÂNCIA, SUJEITO E OBJETO
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Uma vez que a Substância divina, por uma de suas dimensões, queria e devia manifestar o mundo em sua multiplicidade, queria e devia também manifestar testemunhas dessa multiplicidade, pois objetos exigem sujeitos e os seres cognoscentes pertencem indissoluvelmente à criação, tendo o homem como ápice em nosso mundo por sua capacidade de objetividade, síntese e transcendência.
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A criação é descrita como mundo percebido e não como espaço desconhecido de pedras cegas.
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O véu de Mâyâ povoa o vazio de coisas conhecíveis e de seres capazes de conhecer em graus diversos.
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O homem é apresentado como grau-topo no âmbito do nosso mundo.
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A razão do ápice humano é a visão intelectual capaz de objetividade, síntese e transcendência.
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Em Deus, “querer” e “dever” coincidem enquanto Liberdade e Necessidade, referidas respectivamente à Infinitude e à Absoluidade, sem constrangimento nem arbitrariedade, e a tese teológica de vontades gratuitas é criticada por converter a incompreensão humana dos motivos divinos em suposto direito objetivo ao arbítrio e à tirania, o que contradiz a Perfeição divina implicando Bondade, Beleza e Bem-aventurança.
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A coincidência entre liberdade e necessidade é afirmada como estrutura própria do divino.
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A perfeição não é associada a capricho, mas à ausência de constrangimento e de arbitrariedade.
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A “gratuidade” teológica é vinculada a um deslizamento da ignorância humana para um atributo divino.
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A perfeição divina é ligada à bondade fundamental e também à beleza e beatitude.
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A sentença corânica “Minha clemência precedeu minha cólera” é aplicada cosmologicamente ao microcosmo e ao macrocosmo ao situar o Rigor no grau das Energias e apenas no mundo formal, de modo que atravessar essa camada por ajuda divina conduz ao Reino interior, onde cessam ruptura e ruído e se entra no silêncio anterior e permanente, comparado a um rio sem origem nem fim de silêncio, música e luz.
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A “Cólera” ou “Rigor” é excluída da Substância absoluta e situada na esfera energética.
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A libertação é descrita como perfuração da camada formal em direção ao interior.
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A imagem do gelo e da água indica a passagem de uma superfície quebrável a uma continuidade inquebrável.
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O silêncio da interioridade é apresentado como anterior, não apenas posterior, ao tumulto exterior.
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A interioridade é figurada como fluxo ilimitado de silêncio, música e luz.
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A correlação entre objeto e sujeito fundamenta a polaridade entre Materia principial ou Prakriti e Spiritus ativo Purusha em cada escala do universo, mas partindo da Substância como Soi e Sujeito absoluto e infinito não há cisão ontológica real, havendo um único Sujeito em graus de objetivação, e o termo “Sujeito” serve para afirmar Atmâ como Témoin consciente transcendente e imanente, contra a ideia de uma substância energética inconsciente.
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Prakriti é apresentada como polo objetivo e passivo.
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Puru-sha é apresentado como polo subjetivo e ativo, manifestante e diversificante.
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O Sujeito absoluto é descrito como único e não complementar, sendo simplesmente o que é.
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Atmâ é definido como testemunha absoluta e consciência, não como substrato inconsciente.
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A crítica dirige-se às figuras de panteístas e deístas que imaginam substância sem consciência.
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Quando a percepção do objeto se intensifica a ponto de apagar a consciência do sujeito, o objeto torna-se sujeito como na união de amor, e quando o primado é dado à realidade objetiva o sujeito-fragmento é absorvido pela totalidade objetiva como o acidente se reintegra na Substância, mas a primazia última pertence ao ponto de vista que reduz tudo ao Sujeito, pois Deus é adorado como o maior dos sujeitos e como consciência onisciente e benéfica, não como mera imensidão objetiva.
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A união de amor é usada para ilustrar a reversão objeto-sujeito em intensidade máxima.
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A absorção do sujeito fragmentário é comparada à reabsorção do acidente na substância.
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A adoração de Deus não é atribuída à vertigem da grandeza objetiva, mas ao caráter de Sujeito absoluto.
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A consciência criatural capaz de conceber o céu constelado é declarada superior ao espaço e aos astros.
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Os sentidos são declarados incapazes de perceber subjetividade como tal, captando apenas aparências objetivas.
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A prioridade principial do subjetivo sobre o objetivo é contrastada com a ordem do mundo onde o objetivo aparece antes do subjetivo capaz de atualizá-lo pela percepção, como atestado pela Gênese, pois o mundo é descrito como superfície refletora que retrata inversamente a ordem principial.
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O testemunho invocado é a sequência cosmológica da Genèse.
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A inversão é explicada pela natureza refletora do mundo.
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O objetivo é dito a priori virtual e anterior na manifestação, mas não no princípio.
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Na perspectiva advaita, o “objeto” é interno a um “sujeito” superior e o mundo formal é sonho de uma consciência divina particularizada que o envolve, mas a fórmula de que o mundo está apenas no mental é corrigida para evitar solipsismo, pois o sujeito imaginante é Buddhi como projeção de Atmâ e não a criatura contida no próprio sonho cósmico.
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O risco solipsista é indicado como erro sugerido por uma elipse hindu.
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Buddhi é definida como consciência arquangélica e sujeito do sonho cósmico.
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O indivíduo é dito capaz apenas de imaginar seus próprios pensamentos.
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A impotência diante dos pensamentos do deuses é apresentada como limite do sujeito individual.
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Deus, ao criar o mundo material, projetou sujeitos capazes de percebê-lo e delegou em última instância o homem como medida das coisas por ser capaz de perceber em conexão com a Causa ou Substância, e a posição humana entre o “infinitamente grande” e o “infinitamente pequeno” é atribuída à própria subjetividade, sendo o grande símbolo mais acessível da Infinitude e Transcendência divinas.
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O homem é descrito como único capaz de percepção total, ligada à causa.
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A medida humana é confirmada por doutrinas tradicionais.
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A linha de demarcação entre grande e pequeno é atribuída à subjetividade e não ao mundo objetivo.
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O pequeno é dito escapar rapidamente aos sentidos, enquanto o grande é mais acessível.
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O grande é interpretado como reflexo simbólico do infinito e transcendente.
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Mais fundamentalmente, o homem é ponto de junção entre exterior e interior, sendo quase divino pela interioridade que se abre ao Absoluto e ao Infinito, e ele é simultaneamente sujeito e objeto, pois o ego empírico é conteúdo do sujeito puro e, mais ainda, objeto diante do Sujeito divino imanente identificado como verdadeiro Soi, o que remete à pergunta “quem sou eu?” associada a Shrî Râmana Maharshi e à conclusão de que Atma só tem morada.
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A junção decisiva é situada entre exterioridade e interioridade, não entre grande e pequeno.
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A interioridade é dita conduzir ao absoluto e ao infinito.
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O ego empírico é caracterizado como objeto do ego-princípio.
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O sujeito divino imanente é apresentado como verdadeiro si-mesmo.
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A fórmula negativa “não sou corpo, alma, inteligência” culmina na permanência de Atma.
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O homem é chamado a escolher entre exterior e interior, sendo o exterior dispersão que comprime e morte e o interior concentração dilatante e vida, e o espaço exterior funciona como símbolo hostil da exterioridade, assim como toda investigação científica além do normal humano viola a lei ontológica de equilíbrio, ao passo que o avanço interior conduz a uma ilimitação acolhedora e feliz, ainda que difícil.
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A imagem da noite fria e sem orientação no espaço planetário dramatiza a exterioridade.
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A investigação científica excessiva é apresentada como extrapolação do normal humano.
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A interioridade é definida como deificante e conforme à natureza humana.
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A felicidade interior é declarada fundamental, embora custosa.
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O paradoxo humano consiste em que a exigência de ultrapassar-se é simultaneamente a coisa mais contrária e mais própria, e o contrassenso do egoísmo é querer ser si-mesmo sem querer sê-lo plenamente além do ego empírico, isto é, tudo referir a si sem interiorizar-se e sem referir-se ao Soi, sendo a contradição a raiz do absurdo humano.
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A auto-superação é apresentada como exigência que fere e realiza a identidade.
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Egoísmo é definido como recusa de ultrapassar o eu empírico e seus desejos.
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Interiorização é apresentada como condição de relação com o Soi.
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A contradição é identificada como núcleo do absurdo.
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A necessidade de interiorização libertadora decorre da compreensão da Substância e da aceitação consequente da ideia de Unidade segundo a sinceridade da fé, pois pensar a unidade implica dualidade sujeito-objeto que contradiz o conteúdo da unidade, produzindo erro dimensional comparável ao círculo tomado por esfera e exigindo passagem da concepção à realização.
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A unidade é dita libertar quando aceita com todas as consequências.
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A dualidade cognitiva é apresentada como incompatível com o conteúdo simples e não polarizado.
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O erro é qualificado como dimensional e não essencial.
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O círculo é descrito como sombra da esfera e quase inoperante onde a esfera é exigida.
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No plano da pensée, a Substância pode ser concebida mas não atingida, de modo que a consciência de unidade fica a meio caminho e apenas no Cœur se realiza a verdade da Substância Une, superando a oposição sujeito-objeto e reduzindo toda objetivação à sua fonte ilimitada na Subjectivité infinie, onde há continuidade entre consciência e Substância immanente.
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A concepção mental é caracterizada como adequação provisória e imperfeita.
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O Cœur é apresentado como lugar da superação da separatividade cognitiva.
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A objetivação é descrita como limitativa e reconduzida à fonte.
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As manifestações objetivas são ditas discontínuas relativamente à substância transcendante.
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A continuidade com a substância imanente é afirmada como virtual ou efetiva no coração.
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Embora a Substância divina seja além da polaridade sujeito-objeto, ela é concebida como realidade objetiva transcendente e abstrata, e essa concepção é julgada inadequada por reter separação, de modo que compreender plenamente noções como Absoluto, Infinito, Essência, Substância e Unidade obriga a ultrapassar a separatividade conceitual e buscar o Real no fundo do Cœur por meios tradicionais, sob pena de dispersão, revelando a Substância transcendente como imanente e inclusiva.
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A inadequação decorre da não proporcionalidade entre forma dual e conteúdo absolutamente simples.
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A alternativa opõe satisfação conceitual associada aos filósofos convencionais à exigência de superação.
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A busca do real é condicionada por meios tradicionais e não por aventura individual.
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A máxima “quem não ajunta comigo, dispersa” fundamenta a crítica da dispersão.
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O resultado é a revelação da substância como imanente e inclusiva.
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Sendo Deus tudo o que é, a exigência é conhecê-lo com tudo o que se é, e conhecer o infinitamente amável implica amá-lo infinitamente, pois nada é amável senão por Ele.
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O conhecimento é apresentado como totalização existencial, não apenas intelectual.
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A amabilidade universal das coisas é atribuída a Deus como fonte.
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O amor é apresentado como consequência necessária do verdadeiro conhecimento.
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