schuon:forma-substancia:verdade-presenca
VERDADE E PRESENÇA
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A manifestação salvífica do Absoluto assume simultaneamente a forma de Verdade e de Presença, sem exclusividade de uma sobre a outra, pois toda teofania comporta essa dupla natureza e conduz à proximidade redentora do Absoluto apenas por meio de uma manifestação que seja primordialmente Verdade ou Presença.
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A Verdade implica a Presença e a Presença implica a Verdade em toda manifestação do Absoluto.
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O Cristo é apresentado como manifestação essencial da Presença divina e, por isso mesmo, como Verdade.
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A aproximação salvífica do Absoluto exige mediação por uma manifestação do próprio Absoluto.
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No Cristianismo, a primazia da Presença sobre a Verdade leva à identificação desta com o fenômeno do Cristo, resultando na doutrina trinitária, ao passo que no Islã o ponto de partida é a Verdade do Absoluto enquanto Realidade Una.
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A Verdade cristã consiste na afirmação de que o Cristo é Deus.
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A Trindade decorre dessa centralidade da Presença.
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No Islã, Deus é apresentado прежде de tudo como o Real Uno, segundo os limites do exotérismo semita.
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O Islã fundamenta-se no axioma de que a Verdade absoluta salva, enquanto o Cristianismo se fundamenta no axioma de que a Presença divina salva, cada tradição comportando uma limitação exotérica correspondente.
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No Islã exotérico afirma-se que somente a Verdade salva, não a Presença.
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No Cristianismo exotérico afirma-se que somente tal Presença salva e que apenas a Presença, não a Verdade em si, possui eficácia salvífica.
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Cada perspectiva decorre da ênfase inicial em Verdade ou Presença.
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A afirmação islâmica de que a Verdade salva implica adesão total à Verdade do Absoluto com inteligência, vontade e afetividade, enquanto a afirmação cristã de que a Presença salva implica inserção sacramental e sacrificial na forma dessa Presença orientada pelo Amor divino.
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No Islã, conhecer precede querer e eventualmente amar em função do conhecimento de Deus.
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No Cristianismo, amar precede querer e eventualmente conhecer em função do amor de Deus.
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A esquematização evidencia a prioridade respectiva do intelecto ou do amor.
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Exotéricamente, a Verdade cristã identifica-se com o axioma de que o Cristo é Deus e único Deus, enquanto esotericamente significa que toda manifestação do Absoluto é idêntica a Ele e simultaneamente transcendente e imanente.
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O Cristo transcendente situa-se acima do homem; o Cristo imanente manifesta-se no interior como Coração.
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O Coração é ao mesmo tempo Intelecto e Amor.
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O Cristo é o Coração do macrocosmo e o Intelecto é o Cristo do microcosmo.
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A divinização do homem relaciona-se à presença do Reino de Deus no interior.
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A gnose do Coração estabelece ponto de encontro entre Islã e Cristianismo ao identificar o Coração com o Koran imanente ou com o Profeta imanente, enquanto no Islã a Presença é representada pelo Koran e pelo Profeta e atualizada pela identificação com a Sounna e a Fitrah.
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O Koran possui dimensão de Verdade doutrinal e de Presença sacramental.
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A identificação com o Profeta realiza-se pelo molde mohammadiano.
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As regras da Sounna abrangem dimensões horizontais e verticais da vida.
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A diferença entre Cristianismo e Islã manifesta-se na inversão entre Verdade e Presença, pois para os cristãos o Cristo é a Verdade da Presença, enquanto para os muçulmanos o Profeta é a presença da Verdade.
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Para os muçulmanos, Mohammed é o maior dos Enviados em função da pureza da Verdade.
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Para os cristãos, a Verdade depende da incomparabilidade do Homem-Deus.
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Cada tradição tende a minimizar o elemento privilegiado pela outra.
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A preeminência de Mohammed no Islã acarreta tendência a diminuir reveladores anteriores, fenômeno explicado pela natureza da religião como upâya, dotada de reflexos defensivos conformes ao axioma que serve.
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A tendência aparece em obras sufis, exegeses corânicas e alguns ahâdïth.
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A religião possui direito funcional a estratégias simbólicas e defensivas.
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A eficácia pro domo e a verdade indireta justificam tais atitudes no plano religioso.
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As opiniões islâmicas críticas acerca do Cristo e da Virgem relacionam-se à necessidade exotérica de autopreservação e à reação ao antropoteísmo cristão, especialmente diante de expressões como “Mãe de Deus”.
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A expressão pode ser defendida como elipse metafísica.
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No plano exotérico, tal fórmula parece atenuar a consciência da absolutidade divina.
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A crítica islâmica responde à percepção de diminuição do Absoluto.
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As críticas recíprocas entre cristãos e muçulmanos acerca da Natividade virginal ou das ascensões de Hénoch, Moïse e Élie evidenciam a aplicação diversa dos elementos Verdade e Presença segundo as exigências do upâya.
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O Islã enfatiza a Transcendência em detrimento de aspectos julgados perigosos da Presença.
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O Cristianismo enfatiza a Presença em detrimento de certas consequências metafísicas da Transcendência.
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Cada tradição exerce liberdades coerentes com seu axioma central.
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O mal-entendido fundamental entre cristãos e muçulmanos consiste em que para os primeiros o Sacramento substitui a Verdade, enquanto para os segundos a Verdade substitui o Sacramento.
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No Cristianismo, a eficácia sacramental ocupa o lugar central.
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No Islã, a Verdade doutrinal desempenha função análoga.
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A acentuação islâmica do elemento Verdade identifica-se com o monoteísmo de Abraão e dos Patriarcas, segundo o qual a fé no Deus Uno salva e as obras derivam dessa fé.
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A salvação decorre da fé e da sinceridade.
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O monoteísmo em si pertence ao elemento Verdade.
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A perspectiva cristã centra-se na Manifestação divina que gera espiritualidade do sacrifício e do amor e conduz ao antropoteísmo e ao trinitarismo, não coincidindo com o monoteísmo em si.
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A teofania determina a concepção de Deus.
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O amor e o sacrifício estruturam a espiritualidade cristã.
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O Islã, entendendo-se como monoteísmo em si, reprova o Cristianismo por substituir o monoteísmo pela mensagem da manifestação divina e reprova o Judaísmo por nacionalizar o monoteísmo e monopolizar a profecia.
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Mosaísmo e Cristianismo são reconhecidos como ortodoxos em si mesmos.
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O Islã pretende extrair o núcleo universal do monoteísmo.
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As noções de Verdade e Presença encontram analogia no Amidismo através dos conceitos de jiriki e tariki, correspondentes ao poder de si mesmo e ao poder do Outro.
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O poder de si mesmo refere-se à inteligência e à vontade enquanto capacidades salvíficas.
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O poder do Outro refere-se à Graça que salva, exigindo receptividade humana.
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A salvação envolve colaboração conforme a natureza humana.
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No contexto budista, o Zen representa o poder de si mesmo ligado à Verdade imanente, enquanto o Jodo representa o poder do Outro ligado à Presença transcendente.
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O elemento Verdade atualiza uma Presença que ultrapassa o indivíduo.
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O elemento Presença requer fé e inteligência para operar.
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Verdade e Presença implicam-se mutuamente.
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A oposição extrema entre Zen e Jodo, exemplificada por Shinran e Hônen, manifesta tensões quanto à cooperação entre jiriki e tariki.
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Shinran enfatiza a fé exclusiva como causa da salvação.
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Hônen admite atividade invocatória unida à fé.
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A exclusão total de um dos poderes contraria a natureza humana.
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O Budismo apresenta-se inicialmente como via do poder de si mesmo exemplificada por Gautama sob a árvore da Bodhi, mas desenvolve-se logicamente como via do poder do Outro mediante a Bouddhéité e o Nome de Amitâbha.
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Gautama mostra o caminho pelo exemplo e pela pregação.
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Amitâbha representa o Logos eterno e a Misericórdia salvadora.
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A via da Terra Pura funda-se na potência avatárica e sacramental.
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A diversidade das vias do poder de si mesmo e do poder do Outro explica-se pela diversidade da natureza humana e da Possibilidade divina, sendo sua oposição forma de polarização extrema.
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As duas vias combinam-se frequentemente.
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A polarização ocorre em formas históricas como Zênismo e Amidismo.
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Na constituição humana, a Verdade corresponde à Conhecimento e a Presença à virtude, sendo a saúde da inteligência e da vontade mutuamente condicionadas.
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A inteligência pode fortalecer a virtude ao explicar sua necessidade.
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A virtude favorece a Conhecimento ao determinar seus modos.
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Deus é simultaneamente Majestade e Beleza, Jalâl e Jamâl.
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A Realidade universal reúne dimensões geométricas e musicais, intelectuais e existenciais, transcendentes e imanentes, de modo que a Verdade consome os acidentes até a Substância e a Presença torna tangível essa Substância através de acidentes translúcidos.
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A Verdade opera como fogo purificador.
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A Presença manifesta a Substância segundo modos variados.
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Transcendência e imanência constituem polos complementares da mesma Realidade.
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