User Tools

Site Tools


schuon:jogo-de-mascaras:homem-cosmogonia

HOMEM NA PROJEÇÃO COSMOGÔNICA

  • O irradiar criador coincide com o mistério da Mâyâ existencial, não da Mâyâ tout court, que engloba em seu cume o Princípio existenciante.
    • O mundo inteiro é Mâyâ, mas Mâyâ não é inteiramente o mundo.
    • A Essência divina, o Sobre-Ser, se reverbera na Relatividade dando lugar à Pessoa divina, ao Ser criador.
  • A questão do porquê da criação tem sua causa última na infinitude própria ao Absoluto: quem diz infinitude diz Toda-Possibilidade e, por consequência, transbordamento das potencialidades divinas, conforme o princípio de que o Bem tende a se comunicar.
    • Dizer que Deus criou o mundo por um ato livre de sua vontade serve apenas para sublinhar que Deus não age sob coerção.
    • Deus é obrigado a ser fiel à sua natureza e, por isso, não pode deixar de se manifestar por uma cadeia quase eterna de criações; essa cadeia, pertencendo à Mâyâ cósmica, não afeta a transcendência da Divindade.
  • As produções do irradiar criador são ao mesmo tempo sucessivas e simultâneas: sucessivas enquanto constroem o mundo ou emergem em seu espaço; simultâneas enquanto, o mundo desdobrado, constituem sua estrutura hierárquica.
    • A projeção universal não implica nenhuma emanação no sentido literal, e exclui toda evolução transformante, embora adaptações superficiais a um meio dado sejam sempre possíveis.
    • Trata-se de princípios que escapam às investigações empíricas mas não à pura intelecção, enraizada na própria substância do espírito humano.
  • A matéria aparece como o ponto de queda da trajetória existenciante, mas é apenas o modo mais exteriorizado e contingente da Substância cósmica.
    • A um ponto de vista inteiramente diferente, o término da trajetória manifestante é a forma-conteúdo — a coisa criada, reflexo mais ou menos distante de tal arquétipo divino.
    • Os reflexos das ideias englobam tanto os fenômenos positivos quanto os negativos, na medida em que estes comportam elementos positivos para poder existir.
    • Sob esse aspecto, a manifestação cósmica é globalmente um bem, pois representa as qualidades do Ser.
  • Outro modo da projeção cósmica é o acidente privativo, que dá conta diretamente do afastamento a partir da Fonte divina.
    • A manifestação não é o Princípio; o que é outro que Deus não pode possuir as perfeições de Deus, do que resulta o fenômeno privativo e subversivo que se chama o mal.
    • O raio cosmogônico, afundando-se no nada, acaba por manifestar a possibilidade do impossível; o absurdo não pode deixar de se produzir em algum lugar na economia do Possível divino — sem isso, o Infinito não seria o Infinito.
    • O mal não pode se opor à Divindade, que não tem oposto; opõe-se ao homem, que é o espelho de Deus e o movimento em direção ao divino.
  • Um modo que compensa e vence em certo sentido o fenômeno do mal, e que coroa todos os outros, é a reintegração: o movimento cosmogônico torna-se centrípeto e portanto circular; o círculo de Mâyâ se fecha no coração do homem deificado.
    • O término da projeção cosmogônica é o homem, ou mais precisamente: o intelecto percebendo o Absoluto, depois a vontade tirando as consequências dessa percepção.
    • A Toda-Possibilidade exige que Deus não apenas se projete, mas também realize a beatitude libertadora do retorno: de mesmo que um espelho realiza à sua maneira o sol que nele se reflete, o homem realiza seu modelo divino.
  • Ao modo de projeção cósmica que é o fenômeno humano acrescenta-se um modo secundário mas intrinsecamente central: o modo avatárico, a descida divina, a encarnação.
    • No quadro da humanidade decaída, a projeção humana inicial se repete pelo Avatâra a fim de restabelecer o equilíbrio e restituir ao homem sua vocação primeira.
    • O simbolismo da dança das gopis em torno de Krishna testemunha esse mistério.
  • A animalidade pode manifestar modos de decadência e de perfeição, mas a espécie animal não pode decair; só o homem, participando da liberdade divina, pode fazer mau uso dela.
    • Assim como o bumerangue está predestinado pela sua forma a retornar àquele que o lançou, o homem está predestinado pela sua forma a retornar ao seu divino protótipo.
    • O homem está condenado à transcendência, queira ou não.
  • O raio cósmico privativo e subversivo não é senão o princeps hujus mundi; a pior das perversões é a do homem, pois corruptio optimi pessima.
    • Próximos do orgulho estão a dúvida, a amargura e o desespero; o grande mal para o homem não é apenas se afastar de Deus, mas duvidar de sua Misericórdia.
    • No fundo mesmo do abismo a corda de salvação está sempre presente; a Mão divina está estendida, desde que o homem tenha a humildade e a fé para agarrá-la.
  • O mal se insinua em todas as ordens na medida do possível; o homem é tentado pelos vícios de exterioridade, superficialidade e mundanidade, mas o tormento está também na própria condição humana: o abuso da inteligência, caracterizável pelos termos titanismo, icarismo, babelismo, cientismo, civilizacionismo.
    • Não há excesso que não tenha sua fonte indireta em alguma verdade ou realidade: o niilismo e o desespero se referem abusivamente à ilusão universal; a autolâtria de certos pseudo-vedantinos se refere caricaturalmente ao aspecto de identidade que reduz Mâyâ a Atmâ.
  • O corpo humano é uma teofania sobrenaturalmente natural: sendo o homem imago Dei, seu corpo simboliza necessariamente o retorno libertador à origem divina e é, nesse sentido, memória de Deus.
    • O animal nobre exprime um aspecto da majestade divina, mas não manifesta o retorno libertador da forma à essência — permanece na forma, daí sua horizontalidade.
    • O corpo humano é vertical e sacramental, masculino ou feminino: a diferença dos sexos marca uma complementaridade de modo, não uma divergência de princípio.
    • A nudez sacral — como na Índia — exprime a exteriorização do mais interior e a interiorização do mais exterior; Lallâ Yogîshwarî é citada: e é por isso que, nua, eu danço.
  • Objeções à deiformidade física do homem baseadas no fato de que Deus não tem face anterior nem posterior e não pode caminhar são refutadas pela compreensão de que os níveis incomensuráveis dos pontos de comparação não abolem a analogia nem o simbolismo.
    • A face posterior é Mâyâ enquanto separa o Ser do Sobre-Ser; a face anterior é o Ser enquanto concebe as possibilidades a projetar; a marcha de Deus é essa projeção mesma.
    • A marcha divina em e por Mâyâ é um sonho da Divindade, que permanece única e imutável; somente para as criaturas esse sonho é uma exteriorização, uma creatio ex nihilo.
  • Não há virtude que não derive de Deus e que Ele não possua, o que coloca a questão paradoxal de saber se Deus possui a virtude de humildade.
    • A resposta é que o Deus pessoal não se opõe em nada à Divindade suprapessoal; o Ser não pode contradizer o Sobre-Ser; o Deus-Pessoa é submetido à sua própria Essência.
    • Assim como o Deus pessoal é em certo sentido humilde perante a Divindade suprapessoal, o homem deve se mostrar humilde perante seu próprio coração-intelecto, a parcela divina imanente.
    • O orgulhoso peca contra sua própria essência imortal, tanto quanto contra Deus e os homens.
  • Afirmar que Deus está além da oposição entre o bem e o mal significa que Deus vê as coisas sob todos os aspectos que as concernem, de modo que o mal não é para Deus senão um aspecto fragmentário, provisório e extrínseco de um bem que o compensa e finalmente o aniquila.
    • A afirmação sufi de que Deus não precisa de amar é malsoante por causa da ambiguidade do termo Deus, que se aplica a priori à Divindade personificada, enquanto a opinião mencionada concerne à Divindade suprapessoal.
    • Para o Sobre-Ser, os homens não existem; é apenas enquanto Ser que o Absoluto concebe a existência humana.
    • O grande ecúlho das teologias monoteístas é a confusão de fato dos dois níveis.
  • A perspectiva divina sobre o mal deve se repetir na alma humana, e é a primeira condição da via de retorno.
    • O homem ascendente não perde jamais de vista o ponto de referência categoricamente imperativo que é Deus: vê as coisas em seu contexto divino não por esforço acidental, mas por uma disposição profunda do coração.
    • Disso resultam para o homem todas as qualidades que dão sentido à vida: humildade e caridade, resignação à vontade do Céu e confiança na Misericórdia.
    • A humildade e a caridade — bem compreendidas e aplicadas — são critérios de sinceridade para o discernimento metafísico e para a união mística.
  • A alquimia espiritual do homem comporta duas dimensões: doutrina e método, ou verdade e via.
    • A verdade aparece como a palavra divina — uma descida; a via, como a resposta humana — uma subida.
    • Atmâ tornou-se Mâyâ a fim de que Mâyâ se tornasse Atmâ: a razão é que a Toda-Possibilidade implica a possibilidade para Deus de ser conhecido de fora e a partir de outro que ele.
    • A projeção cosmogônica afasta de Deus, mas no sentido de uma felix culpa; a Bíblia o atesta: E Deus viu que isso era bom; em linguagem budista: Que todos os seres sejam felizes.
    • Além dos ciclos da existência, a última palavra é da Beatitude, que coincide com o Ser e portanto com a essência de tudo o que é.
schuon/jogo-de-mascaras/homem-cosmogonia.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki