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JOGO DAS MÁSCARAS
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Ao considerar a humanidade do ponto de vista de seus valores, é preciso distinguir a priori entre o homem-centro, determinado pelo intelecto e enraizado no imutável, e o homem-periferia, que é mais ou menos um acidente.
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Essa diferença se repete em todo homem consciente do sobrenatural, seja ele da primeira ou da segunda categoria.
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A distinção eckhartiana entre homem interior e homem exterior exprime essa realidade: o homem exterior se identifica passivamente a suas experiências; o homem interior pode gozar ou sofrer em sua humanidade temporal permanecendo impassível em seu núcleo imortal, que coincide com seu estado de união a Deus.
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Sob esse aspecto analógico e guardadas as proporções, todo pneumático é verdadeiro homem e verdadeiro Deus.
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Os homens santos que riem com os que riem e choram com os que choram expressam indiretamente o desapego e diretamente a benevolência do homem pneumático ou central.
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Desapegado porque não se identifica aos acidentes; benevolente porque, por esse mesmo fato, não pode ser egoísta e mesquinho.
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O homem-centro situa-se necessariamente num isolamento do qual sofre ao exterior: sentindo que todo homem é de certa forma o que ele mesmo é, se coloca sinceramente em seu lugar, mas os outros raramente se colocam no seu.
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As maneiras de agir do homem-centro podem ser amorais mas não imorais: podem ser contrárias a tal moral, não à moral como tal.
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É preciso distinguir entre o mascaramento por caridade e o de malícia: este é insincero, aquele é sincero.
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Há máscaras sagradas e vestes sacerdotais que exprimem ou o que transcende o portador ou sua própria substância transcendente.
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A religião histórica, a upâya, serve de veste à verdade nua, a religião primordial, perene e universal: o simbolismo transmite a Mensagem celeste e ao mesmo tempo dissimula seu mistério provisoriamente inassimilável.
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Há uma diferença de função entre o véu e a máscara: a máscara é positiva por exprimir, afirmar e manifestar; o véu é negativo por dissimular e tornar inacessível.
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Pelo véu, quer-se parecer menos do que se é; pela máscara, quer-se parecer mais, a menos que a máscara sirva para manifestar o próprio coração do portador.
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Há casos em que a sabedoria toma a aparência de ingenuidade ou absurdidade — involuntariamente por falta de experiência num meio inferior, ou voluntariamente em função de uma vocação de ocultação da sabedoria e de paradoxo ostensivo.
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O isolamento do homem-centro diante da absurdidade do mundo não implica solidariedade com a ambiência mundana, pois modos de agir semelhantes podem esconder intenções dissemelhantes.
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No homem contemplativo, o prazer não infla a individualidade, mas convida ao contrário a uma dilatação transpessoal: a consolação sensível dá lugar a uma abertura para o alto.
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Uma graça análoga intervém em todo crente sincero que aborda o prazer em nome de Deus e se abre assim à Misericórdia.
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A ascese é útil ao homem excluído dos paraísos terrestre e celeste, mas a perspectiva ascética não pode ter o apanágio da verdade total nem da legitimidade tout court.
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Conduzem a Deus não apenas a verdade, o mérito e o sacrifício, mas também a beleza; afastam de Deus não apenas o erro, o crime e a luxúria, mas também a feiura quando querida e produzida.
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Jîvâtmâ, a alma vivente, é a máscara-indivíduo que se superpõe ilusória e inumeravelmente a Atmâ, ao Si único.
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O indivíduo enquanto tal se identifica à contingência e se encontra submetido aos princípios de limitação e de flutuação.
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A fase de atividade favorece a liberdade natural do homem; a fase de passividade o torna mais vulnerável em relação à ambiência e às próprias fraquezas.
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O ideal é a vitória da atividade espiritual sobre a fase passiva, e a vitória da interioridade espiritual sobre a dimensão exterior.
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Há sábios que não têm outro dever senão atrair as almas para o interior — e é a regra; outros acrescentam a essa função a de criar suportes sensíveis — e é a exceção; o exemplo mais patente é o herói cultural (Kulturheros), que inaugura uma civilização ou período de cultura.
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Há uma exteriorização profana que equivale à escolha do mundo contra o espírito, e outra espiritual cujo fim é a interiorização.
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O critério de equilíbrio entre o exterior e o interior é a predominância do polo de atração interna.
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Somente os que se dão a Deus podem saber o que têm o direito ou o dever de dar ao mundo e de receber dele.
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A impermanência é a limitação temporal: na mesma vida, a infância, a juventude e a maturidade passam, como a própria vida.
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Normalmente a juventude e a maturidade constituem a manifestação do protótipo; a infância e a velhice têm algo de privativo.
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O cume da manifestação individual não se situa sempre na juventude ou na maturidade: alguns manifestam sua melhor possibilidade na infância, outros apenas na velhice.
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O avatâra, necessariamente homem perfeito sob todo aspecto, manifesta necessariamente a perfeição de cada idade.
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A frase o justo peca sete vezes por dia tem por função fazer compreender que neste mundo a perfeição não pode ser absoluta, salvo no sentido da absoluidade relativa.
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Segundo o esoterismo muçulmano, nenhum pecado é comparável ao da existência: o sufi pede perdão a Deus de manhã e à noite eventualmente sem ter consciência de nenhum mal.
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O Cristo disse Que me chamas de bom? Deus só é bom — o que não pode significar que haja no homem deificado a menor tara.
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O homem pode ser fundamentalmente bom ou fundamentalmente mau, segundo sua substância individual que pertence ao jogo da Toda-Possibilidade: são as possibilidades que querem ser o que são, não é Deus que lhes impõe.
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Os bons manifestam qualidades; os maus manifestam privações; ambos são submetidos às vicissitudes da existência.
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A combinação dos caracteres fundamentais com os modos da contingência terrestre dá lugar a uma diversidade indefinida de tipos e destinos.
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Os relativistas concluirão que nada é bom nem mau em si — o que é um absurdo flagrante por não levar em conta a distinção entre o puro absoluto e o relativamente absoluto.
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As limitações, dimensões e fases que governam o homem só governam o físico e o psíquico, não a inteligência como tal: corpus et anima, não spiritus.
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O corpo e a alma são duas máscaras sobrepostas ao espírito, que em sua substância permanece ilimitado e imutável.
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Isso nos reconduz ao conceito eckhartiano do homem interior.
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Segundo expressão hindu, só o Senhor transmigra, o que é verdadeiro no sentido da lîlâ, do jogo divino, mas não se disso se deduz que os indivíduos não são reais em seu nível e que não são responsáveis por seus atos.
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A identidade profunda do homem é sua relação com Deus; sua máscara é a forma que deve assumir no mundo das formas, do espaço, do tempo.
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A ambiência e a personalidade relevam necessariamente do particular, não do Universal; do ser possível, não do Ser necessário; do bem relativo, não do Soberano Bem.
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Não há razão para se perturbar por viver em tal ambiência e não em outra, nem por ser tal indivíduo e não outro.
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Tal pessoa não se situa senão no mundo das Ideias divinas; tudo consiste em manter, a partir do ser possível, o contato com o Ser necessário e com o Soberano Bem, cuja natureza misericordiosa comporta o desejo de salvar o homem de si mesmo.
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