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schuon:logica-trancendencia:relativismo

CONTRADIÇÃO DO RELATIVISMO

  • O relativismo reduz todo elemento de absolutidade à relatividade, mas preserva de modo ilógico a própria redução como se ela escapasse ao regime relativista que proclama.
    • A fórmula resultante equivale a afirmar como verdadeiro que não há verdade.
    • A pretensão de que só exista verdade relativa é sustentada como absolutamente verdadeira.
    • A contradição é comparada a negar a existência de linguagem por meio de uma frase, ou negar a escrita por meio de um texto.
    • Toda ideia é remetida a relatividades psicológicas, históricas ou sociais, e a asserção se anula ao incluir-se no mesmo regime.
    • A autonegação lógica, caso a asserção fosse verdadeira, funcionaria como prova de sua falsidade.
    • A absurdidade inicial reside na pretensão de ser a única proposição a escapar “por encanto” da relatividade declarada universal.
  • O axioma relativista segundo o qual jamais se sairia do subjetivo humano invalida-se por carecer de qualquer objetividade e por recair sob o próprio veredito que impõe.
    • A falta de valor objetivo decorre de a asserção ser ela mesma um produto do subjetivo humano.
    • A possibilidade de ultrapassar o subjetivo é apresentada como evidente, sob pena de o humano deixar de ser humano.
    • A concepção do subjetivo e de sua superação é tomada como prova de que o confinamento total é falso.
    • O animal vive a subjetividade sem concebê-la, enquanto o humano dispõe do dom da objetividade.
  • O relativismo social desloca a questão da verdade para a origem social de quem afirma, mas deixa de reconhecer que, se o meio determina o pensamento, então o determina em todos os casos sem exceção.
    • A pergunta sobre “dois e dois” é substituída pela pergunta sobre o meio social do enunciador.
    • A tese de que o meio prima sobre a verdade implica que toda verdade seria sempre efeito de meio.
    • A objeção de que um meio particular favoreceria a verdade pode ser revertida por outra hierarquia de valores.
    • O argumento é caracterizado como petição de princípio ou, no máximo, cálculo de probabilidade sem alcance concreto.
    • A mesma lógica é estendida ao relativismo histórico, pois toda atividade mental ocorre em um momento determinado.
  • O relativismo histórico, ao reduzir toda ideia à duração do processo mental, implicaria que todo pensamento nasceria já “ultrapassado”, tornando inútil o ato de pensar.
    • A relatividade é atribuída ao processo mental situado no tempo, não necessariamente ao conteúdo.
    • A desvalorização imediata do pensamento é apresentada como consequência direta dessa posição.
    • A impossibilidade de sair da duração é tratada como motivo para negar alcance ao pensar humano.
  • O relativismo pode visar não apenas a verdade em si, mas também suas expressões, especialmente valores morais e estéticos, permitindo reduzir a retidão a fatores contingentes e abrindo espaço a abusos e imposturas.
    • A redução do moral e do estético a contingências favorece assimilações indevidas.
    • A via relativista é associada a degradações e falsificações.
    • A aplicação do relativismo a fatos tradicionais é descrita como confusão entre elementos estáticos e dinâmicos.
    • “Épocas” e “estilos” encobrem a ideia de manifestações de dados objetivos e estáveis.
  • A analogia do crescimento de uma árvore serve para afirmar que fases temporais não dissolvem a identidade objetiva das partes, e que um elemento tradicional não se reduz a mero “momento” de outro.
    • A correspondência entre fase e momento da duração não elimina a distinção entre tronco, ramos e frutos.
    • O tronco de uma macieira não é reduzido a simples etapa em relação à maçã.
    • A maçã não é reduzida a simples etapa em relação ao tronco ou ao ramo.
    • A imagem sustenta a ideia de dados definitivos “à sua maneira” no domínio tradicional.
  • A época dita “gótica” é apresentada como possuidora de direito intrínseco de perdurar no seu setor, pois os dados étnicos que a determinaram permaneceriam os mesmos, e sua extinção é atribuída a uma força extra-cristã, o neopaganismo da Renascença.
    • A sobrevivência indefinida é afirmada como coerente com a natureza do estilo e de seus determinantes.
    • A mudança só ocorreria se a Cristandade latino-germânica se tornasse mongol.
    • A civilização gótica ou romano-gótica não teria sido superada por evolução.
    • A interrupção é descrita como assassinato por força extra-cristã ligada à Renascença.
  • A confusão habitual no século XX entre evolução e decadência é associada ao uso do argumento relativista para desculpar todo tipo de declínio e para impedir reações corretivas.
    • Nenhuma falsificação ou diminuição deixaria de ser justificado como “evolução”.
    • O reforço por assimilações abusivas amplia o erro.
    • A difusão do relativismo na opinião pública facilitaria a corrupção.
    • A mesma difusão impediria reações sãs capazes de frear a queda.
  • Erros que negam a inteligência objetiva se autodestruem por dependerem de um postulado que a própria existência do postulado contradiz, sem que isso implique falibilidade inevitável da inteligência.
    • A autocontradição decorre de a tese negar a condição de possibilidade de sua própria formulação.
    • A existência de erros não é tomada como prova de fracasso necessário da faculdade cognitiva.
    • O erro é apresentado como fenômeno privativo ligado a paixão ou cegueira.
    • A paixão ou cegueira desvia a atividade intelectual sem infirmar a natureza da inteligência.
  • O existencialismo é indicado como exemplo de contradição moderna ao postular uma definição de mundo incompatível com a possibilidade de uma promulgação objetiva dessa própria tese.
    • Se a conhecimento objetivo, absoluto no seu gênero, é possível, a tese existencialista seria falsa.
    • Se a tese existencialista fosse verdadeira, sua promulgação seria impossível por não haver lugar para intelecção objetiva e estável.
    • A alternativa apresentada faz a doutrina oscilar entre falsidade e impossibilidade.
  • A redução de tudo o que é humano a razões psicológicas conduz à pretensão de explicar tudo pela psicologia, produzindo psicologia das religiões e crítica psicológica de textos sem acesso às dados objetivos indispensáveis.
    • O procedimento é caracterizado como especulação no vazio.
    • A falta de dados objetivos é ligada a métodos arbitrariamente definidos como normais.
    • O alargamento abusivo do método psicológico é apresentado como invasão de todo o campo do saber.
  • No terreno do psicologismo, a “crítica” de matriz kantiana é tratada como “ultrapassada” e substituída por uma “análise” que tende a reduzir até a lógica e a metafísica a questões de gramática.
    • A preferência por “análise” é tomada como sintoma de aversão ao intelectual.
    • A pretensão de analisar tudo assume feição quase física ou química.
    • A ideia de analisar Deus aparece como intenção, ainda que só indiretamente.
    • O ataque recai sobre a noção de Deus, suas concomitâncias mentais e morais e expressões da verdadeira intelecção consideradas fora de alcance.
  • A tese freudista de que a racionalidade seria disfarce de animalidade recalcada volta-se contra si mesma, pois é formulada racionalmente e, se correta, reduziria o próprio freudismo a produto de instintos fisico-psíquicos.
    • A asserção “racional” ficaria submetida ao veredito que ela impõe à racionalidade.
    • O freudismo seria apenas desnaturação simbolizante de instintos, caso tivesse razão.
    • A alegação de exceção para os psicanalistas é recusada por não ser justificável dentro da própria doutrina.
    • A exceção também deveria valer para doutrinas espirituais rejeitadas com hostilidade.
    • A figura do acusador do humano como tal é tratada como absurda por exigir um “semi-deus” que acusasse a partir de fora.
  • A psicanálise é apresentada como eliminando fatores transcendentais e substituindo complexos de inferioridade por complexos de conforto e egoísmo, oferecendo tranquilidade para pecar e para se condenar.
    • A eliminação do transcendente é considerada um empobrecimento essencial.
    • A substituição psicológica é associada à permissividade moral.
    • Atribui-se a doutrinas demolidoras, como a de Nietzsche, o mesmo gesto de absolutizar o relativo.
    • A oscilação moderna entre extremos é associada à incapacidade de reconhecer a verdade na profundidade do humano.
    • Religiões e sabedorias tradicionais aparecem como porta-vozes, conservadoras e garantidoras dessa verdade.
  • A mentalidade difundida pela psicanálise recusa o diálogo lógico e intelectual e o substitui por conjecturas insolentes baseadas em pseudo-critérios fisiológicos ou sociológicos, passíveis de reversão por contra-análises.
    • O foco desloca-se de verificar se o interlocutor tem razão para investigar pais, pressão sanguínea ou equivalentes simbólicos.
    • A facilidade de inverter tais argumentos é indicada como evidente.
    • A preferência por critérios fisiológicos e sociológicos é atribuída à mania de época.
    • A possibilidade de análise séria da análise imaginária é afirmada como disponível.
    • A existência de um “complexo psicanalítico” é indicada como corruptor da inteligência.
    • A negação do absoluto pela via psicologizante e existencialista é situada no interior da própria inteligência.
    • A inteligência assume papel de deus ao preço de destruir a própria natureza, valor e eficácia.
    • A ideia de “maturidade” aparece como autodestruição.
  • A acusação de hipocrisia universal coloca uma alternativa em que ou ninguém poderia constatá-la sem sair milagrosamente da humanidade, ou a hipocrisia seria apenas relativa e já reconhecível sem esperar a psicanálise.
    • A constatação exigiria escapar da natureza humana caso a hipocrisia fosse essencial e total.
    • Se a hipocrisia for acidental e relativa, o reconhecimento sempre existiu.
    • A saúde é tratada como mais fundamental no humano do que a doença.
    • A exclusividade explicativa da psicanálise é recusada como arbitrária e perversa.
    • A invocação de “evolução” exigiria cegueira quanto a virtudes dos ancestrais e vícios contemporâneos.
    • A admissão de súbita objetividade num processo biológico e quantitativo é tratada como absurda ou indemonstrável.
  • Se um desenvolvimento natural culmina em consciência reflexiva que percebe o próprio desenvolvimento, essa consciência não poderia ser causada pelo movimento contingente que a precede, o que nega o evolucionismo transformista e a ideia de “homem-elo” ou “homem-acaso”.
    • A tomada de consciência sairia totalmente da ordem da evolução que a precede.
    • A falta de medida comum entre consciência e movimento anterior exclui causalidade do segundo sobre a primeira.
    • A crítica alcança a mística da matéria geradora, biosfera, noosfera e “ponto ômega”.
    • A alternativa “o homem é o que é ou não é” afirma fixidez e irredutibilidade do ser pensante.
    • A capacidade de objetividade e absolutidade indica caráter quase absoluto, fixo e insubstituível da criatura pensante.
    • A fórmula “feito à imagem de Deus” é apresentada como indicação dessa fixidez.
  • A capacidade humana de objetividade e absolutidade refuta antecipadamente ideologias do dúvida, pois a possibilidade de duvidar pressupõe a certeza e a noção de ilusão pressupõe acesso à realidade.
    • Duvidar é possível apenas porque existe certeza.
    • Falar de ilusão implica acesso ao real.
    • A existência de pessoas com certeza decorre dessa possibilidade.
    • Os grandes porta-vozes da certeza são apresentados como os melhores entre os humanos.
    • Se a verdade estivesse do lado do dúvida, o duvidador seria superior aos porta-vozes da certeza e aos humanos normais ao longo dos milênios.
    • Se o dúvida fosse conforme ao real, a inteligência humana careceria de razão suficiente.
    • O humano seria inferior ao animal, pois a inteligência animal não duvida do real proporcionado a ela.
  • Uma ciência da alma é definida como ciência das ordens de limitação ou infirmitude, distinguindo-se quatro ordens essenciais: universal, geral, individual e acidental.
    • A limitação universal provém de ser criatura e não Criador, manifestação e não Princípio ou Ser.
    • A limitação geral provém de ser humano terrestre e não anjo nem bem-aventurado.
    • A limitação individual provém de ser si mesmo e não os outros.
    • A limitação acidental provém de estar abaixo de si mesmo, salvo no caso de perfeição.
  • Não há ciência da alma sem base metafísica e sem remédios espirituais.
    • A base metafísica é colocada como condição de inteligibilidade.
    • Remédios espirituais são colocados como condição de eficácia.
  • O pensamento psicologista é descrito como apressando etapas ao querer ser eficaz antes de ser verdadeiro, buscando solução antes de constatação e raciocinando de viés para escapar à responsabilidade intelectual.
    • A comparação com negar a mortalidade por causar melancolia ilustra a fuga do conteúdo verdadeiro.
    • Objeções a verdades desagradáveis são apresentadas como confusões de planos.
    • A analogia do incêndio mostra a recusa do direito de constatar se não houver remédio imediato.
    • A soma “dois e dois” é tratada como pretexto para imputar um complexo de exatidão ligado ao passado.
    • O procedimento é apresentado como frequente e não meramente caricatural.
    • O efeito final é a perversão da inteligência.
  • Um relativismo moral é caracterizado como odioso ao atribuir vícios a afirmações sobre Deus e o além, e virtudes a negações da religião, o que implicaria a anulação da possibilidade mesma de verdade e heroísmo no humano.
    • A crença em Deus e no além é associada a covardia, desonestidade, infantilidade ou anormalidade.
    • A negação da religião é associada a coragem, honestidade, sinceridade e maturidade.
    • Se tais juízos fossem verdadeiros, o humano não teria capacidade de veracidade nem de heroísmo.
    • A inexistência de alguém capaz de constatar isso é apontada como consequência.
    • A impossibilidade de extrair herói de covarde ou sábio de fraco de espírito é afirmada mesmo sob o nome de evolução.
    • O viés moralista é apontado como antigo na desqualificação da vida contemplativa como “fuga”.
    • A vida contemplativa é reinterpretada como peregrinação a Deus.
    • Fugir de Deus, como fariam os mundanos, é descrito como mais insensato do que afastar-se do mundo.
    • A fuga de Deus é simultaneamente fuga de si mesmo, pois a solidão humana põe o humano diante do Criador.
  • A redução das atitudes religiosas a reflexos de medo e servilidade é colocada em continuidade com o psicologismo simplificador e exigiria prova de que os temores religiosos são infundados e compreensão do sentido interior das atitudes devocionais.
    • A necessidade de provar o caráter mal fundado das temores religiosos é explicitada.
    • A exigência de compreender sentido e consequências interiores das atitudes devocionais é apresentada.
    • Humilhar-se diante do Absoluto é afirmado como não degradante objetiva nem subjetivamente.
    • A pergunta “quem” se prostra distingue ego e núcleo transpessoal ligado à Imanência divina.
    • A prostração é tratada como consciência de dependência ontológica do Ser Uno.
    • A aparência de humilhação é atribuída à decadência congênita humana.
    • A personalidade deiforme e imortal é descrita como portadora de majestade visível no corpo humano.
    • As religiões são apresentadas como as primeiras a reconhecer essa majestade.
    • Também é afirmada a existência de algo no humano que merece constrangimento e rebaixamento.
    • O ego na animalidade humana não é colocado como imune a reprovação celeste.
    • O desequilíbrio deve contas ao Equilíbrio e à Totalidade, não o contrário.
    • A consciência dessa situação é colocada como condição primeira da dignidade humana, obscurecida por demagogia erigida em “imperativo categórico”.
  • O relativismo é apresentado como gerando e sendo fruto do espírito de revolta, entendido como doença crônica dirigida contra o Céu e o que o representa, com consequente abolição do sentido do pecado.
    • O espírito de revolta difere da santa cólera por não ser passageiro nem dirigido a abusos terrestres.
    • A referência a Lao-Tsé exprime a inversão de valores no fim dos tempos.
    • O relativismo psicologista e existencialista toma a revolta como norma e a ausência dela como doença.
    • A abolição do sentido do pecado decorre dessa inversão.
    • O sentido do pecado é descrito como consciência de equilíbrio superior ao querer pessoal.
    • Esse equilíbrio pode ferir, mas é orientado ao bem da personalidade integral e da coletividade.
    • O sentido do pecado é solidário ao sentido do sagrado.
    • O sagrado é descrito como instinto do que supera o humano e não deve ser tocado por mãos ignorantes e iconoclastas.
  • A ideia de merecer danação por ferir a majestade divina é condicionada à compreensão sensível ou cognitiva do que está em jogo, distinguindo-se o plano da impessoalidade divina do plano da revelação como Pessoa divina onde intervém a Misericórdia.
    • A Divindade é impessoal antes de se determinar como Pessoa divina diante da pessoa humana.
    • No plano impessoal, há relação ontológica e lógica de causa e efeito entre Deus e humano.
    • Nesse plano não se coloca “bondade” como categoria, pois a Realidade absoluta é o que é.
    • A causalidade pura é descrita como não especificamente moral.
    • No plano pessoal da revelação, a Misericórdia pode intervir como mistério decisivo.
    • A Misericórdia indica que o Absoluto não é potência cega.
    • A prescrição humana de humilhação tola é indicada como frequente por preguiça mental e falta de imaginação.
    • A exigência divina dessa humilhação é recusada.
    • A manifestação inteligente da consciência de causalidade e equilíbrio é tratada como possível.
    • A preferência por humilhação tola em vez de orgulho inteligente é afirmada como escolha divina.
  • A limitação e degradação humanas são tratadas como prova por contraste do Protótipo divino, e a recusa de admitir o que supera e de superar-se é identificada como programa do psicologismo e sinal de Lúcifer.
    • A condição humana funciona como “prova pelo contrário” do que o Protótipo divino determina.
    • O programa psicologista é descrito como recusa de transcendência e de auto-superação.
    • A atitude é associada ao assinalamento de Lúcifer.
    • A atitude normativa é descrita como pensar em função do que supera e viver para superar-se.
    • A grandeza é situada fora do plano do indivíduo e de sua pequenez revoltada.
  • A aproximação da verdadeira grandeza exige consentir em pagar a dívida da pequenez e aceitar ser pequeno no plano onde isso é inevitável, pois o sentido do objetivo e do absoluto implica abnegação que torna possível a fidelidade à vocação humana.
    • O reconhecimento do limite aparece como condição inicial do caminho.
    • A abnegação acompanha o sentido do objetivo e do absoluto.
    • A abnegação é apresentada como meio de fidelidade plena à vocação humana.
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