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EN-NUR

  • Segundo ensinamento (hadith) do Profeta, o Cálamo é a primeira realidade criada por Allah, feito de Luz e de pérola branca, e a Tábua guardada foi criada em seguida, com superfícies de rubi vermelho, abrangendo todas as possibilidades de manifestação entre Oriente e Ocidente.
    • O Cálamo corresponde à primeira autodeterminação divina em vista da criação, e a distância entre o céu e a terra simboliza a incomensurabilidade entre as manifestações informal e formal.
    • Segundo outra tradição, os Cálamos são plurais e correspondem a raios verticais que refletem as possibilidades essenciais derivadas dos Nomes divinos ou Aspectos do Ser.
    • O Princípio ontológico permanece inafetado por sua bipolarização, simbolizado pelo fato de Allah estar no Trono antes de o Cálamo olhar para Ele com temor reverencial e se fender.
    • A Tinta representa a possibilidade inicial e indiferenciada de manifestação, enquanto as Letras marcam sua diferenciação indefinida; a Tinta é o reflexo da Toda-Possibilidade transmutado pelo Cálamo em possibilidades existenciais diversas.
    • As Letras superiores, puramente principiais, se espelham no Cálamo, que as recebe e se fende sob a pressão de sua incomensurabilidade para transcrevê-las em modo manifestado, criado e fragmentado.
  • Ibn Abbas relata que o Cálamo, ao ser ordenado por Allah a escrever, transcreveu toda a Ciência divina da Criação até o Dia da Ressurreição, e que a primeira coisa inscrita foi a precedência da Misericórdia sobre a Cólera divina.
    • O Cálamo retratou em um único momento tudo o que existirá até o Dia da Ressurreição, conforme a palavra corânica sobre a predestinação na Tábua guardada.
    • Allah olha para a Tábua trezentos e sessenta olhares cada dia e cada noite, e por cada olhar cria, faz subsistir, mata, vivifica, destrona e introniza.
    • Os destinos das criaturas foram escritos cinquenta mil anos antes da criação dos Céus e da terra, número simbólico que exprime a incomensurabilidade entre a ordem principial e a manifestada.
  • O intervalo simbólico de cinquenta mil anos entre a inscrição dos destinos e a Criação marca a transcendência do Cálamo e da Tábua em relação ao resultado de seu ato comum, e os dois Instrumentos da Manifestação universal correspondem respectivamente ao Alif e ao Bá, primeiras Letras do Alfabeto divino.
    • O termo predestinação deve ser entendido como relação puramente principial e extratemporal, sendo preferíveis os termos repartição (qismah) ou escolha (ikhtiyar).
    • O Bá é a primeira gota de Tinta que escapou do Cálamo, imagem refletida da Unidade divina, e seu significado é Misericórdia (Rahmah).
    • O Cálamo e a Tábua coincidem respectivamente com Purusha e Prakriti da doutrina hindu, os dois polos não manifestados de toda manifestação.
  • O ato comum dos dois Instrumentos divinos tem aspecto principial e aspecto efetivo: o Cálamo escreveu os destinos na ordem principial e escreve permanentemente na ordem manifestada à medida que as coisas se manifestam; as duas superfícies da Tábua equivalem às Águas superiores e às Águas inferiores.
    • No aspecto principial, o Cálamo determina as possibilidades de manifestação antes da Criação.
    • No aspecto efetivo, o Cálamo as realiza na ordem manifestada por seu ato imediato, e a Tinta flui até o Dia da Ressurreição.
  • O Trono (Arsh), primeira criação após o Cálamo e a Tábua, corresponde ao Buddhi (ou Mahat) da doutrina hindu, primeira de todas as manifestações; e a dificuldade de serem o Cálamo, a Tábua e o Trono chamados de criados é resolvida pela perspectiva unitária do Islã e pelos três graus fundamentais do cosmos.
    • A perspectiva unitária do Islã distingue apenas Essência e Atributos em Deus, e considera criado o que poderia parecer uma associação (shirk).
    • Os três graus cosmicos são a terra (manifestação grosseira, correspondente ao tamas), o fogo (manifestação sutil, correspondente ao rajas) e a Luz (manifestação informal, correspondente ao sattwa).
    • Os Anjos e toda a ordem informal são feitos de Luz, e o fato de os Céus serem criados de Luz significa que são diretamente conformes à Luz divina, identificando-se a ela em identidade essencial.
    • Allah é necessariamente o Arquétipo de toda luz: Allah é a Luz dos Céus e da Terra (Corão, sûrat en-Nûr, 35).
  • Ibn Abi Hatem descreve o Trono cercado de quatro rios e sustentado por oito Anjos, com Allah sentado sobre ele e Seus Pés sobre o Escabelo que contém a manifestação formal; a Graça precede a Glória, conforme a inscrição do Trono.
    • O Trono constitui a manifestação informal feita de Luz, chamado Trono que engloba (El-Arsh el-muhit), pois o cosmos informal engloba o formal.
    • Do Escabelo irradiam até a terra a Glória (Jalal) e a Graça (Rahmah), prevalecendo esta sobre aquela.
    • O Trono é descrito ainda como cúpula de esmeralda verde com colunas de rubi vermelho, separadas por distâncias de oitenta mil anos de viagem, e sustentado por oito Anjos.
  • O Trono, identificado a Er-Ruh (o Espírito), repousava sobre as águas antes que Allah criasse os Céus, e as nuvens funcionam como crivo para a chuva das Graças emanadas do Trono, impedindo que a manifestação seja reabsorvida pela incomensurabilidade da Misericórdia divina.
    • Ibn Abbas descreve uma mar entre o Céu e a terra de onde provém a chuva, conduzida por Anjos que a depositam na terra ou no mar circundante.
    • As gotas depositadas na terra produzem o trigo e as ervas; as depositadas no mar produzem pérolas pequenas e grandes, simbolizando respectivamente os Pequenos e os Grandes Mistérios.
  • A equivalência entre El-Arsh e Buddhi ressalta claramente do Mânava-Dharma-Shastra, cujas oito regiões celestes correspondem à circunferência do Trono e cujos oito Devas se identificam aos oito Anjos portadores do Trono.
    • O abismo das águas situado sob o Céu corresponde ao mar sob o Trono de onde emana a chuva.
    • Mahat se identifica ao Céu enquanto primeiro lugar de Luz e domina todos os mundos como Trimurti, assim como os quatro Arcanjos habitam sob a abóbada luminosa do Trono e se identificam a ele enquanto abrange todos os mundos.
    • Er-Ruh, que reside no centro do Trono, é identificado a Brahma nascido do Ovo de ouro.
  • Er-Ruh é o maior dos Anjos, correspondente ao Princípio criador Brahma; os quatro Arcanjos Jibrail, Mikail, Israfil e Izrail exercem funções que os identificam a aspectos fundamentais de Vishnu e Shiva; e os cinco Arcanjos se refletem nos cinco elementos do mundo sensível.
    • Israfil e Mikail correspondem a dois aspectos complementares de Vishnu: Israfil afirma a manifestação verticalmente pela ressurreição, e Mikail horizontalmente pela vida e subsistência.
    • Jibrail e Izrail correspondem a dois aspectos complementares de Shiva: Jibrail reabsorve a manifestação ao Princípio de modo positivo e vertical, e Izrail a destrói de modo negativo e horizontal.
    • Israfil corresponde ao ar, Mikail à água, Jibrail ao fogo, Izrail à terra, e Er-Ruh ao éter que contém e penetra os demais elementos.
  • Ibn Abbas descreve Israfil com atributos que expressam a predisposição receptiva da Inteligência angélica e a universalidade da força divina que ele contempla, criando de sua respiração um milhão de Anjos que glorificam Allah até o Dia da Ressurreição.
    • Israfil recebeu de Allah a força dos sete Céus, das sete terras, dos ventos, das montanhas, dos homens, dos jinn e dos leões.
    • De sua planta dos pés à cabeça há cabelos, bocas e línguas cobertas de véus, e cada língua glorifica Allah em mil idiomas.
    • Israfil olha para o inferno três vezes por dia e por noite, chora e definha como o tendão de um arco.
  • Mikail, criado cinco mil anos após Israfil, tem atributos de misericórdia multiplicada ao infinito, criando de cada lágrima um Anjo da categoria dos Querubins que velam sobre as chuvas, plantas e frutos.
    • Mikail tem cabelos de açafrão, asas de topázio verde, um milhão de rostos em cada cabelo, um milhão de olhos em cada rosto e um milhão de bocas em cada rosto.
    • Chora com cada olho por misericórdia pelos pecadores entre os crentes, e cada língua intercede por eles diante de Allah.
    • Nada existe nos mares, frutos nas árvores ou plantas na terra que não estejam sob seu domínio.
  • Jibrail, criado quinhentos anos após Mikail, entra diariamente no Oceano de Luz e, ao sair, de cada asa caem um milhão de gotas das quais Allah cria Anjos da categoria dos Espirituais (Ruhaniyun).
    • Jibrail tem mil e seiscentas asas, cabelos de açafrão, o sol entre os olhos e o brilho da lua e das estrelas em cada cabelo.
  • O Anjo da morte tem aparência semelhante à de Israfil, e sua imensidão abrange os mundos como um prato em que se colocam todas as coisas; a tradição descreve o momento em que Allah revelou a morte a Izrail e lhe conferiu a força para tomá-la.
    • Izrail está preso por setenta mil correntes de mil anos de comprimento cada, e os Anjos ignoram seu lugar, sua voz e seu estado.
    • A morte proclamou nos Céus sua função separadora entre amigos, esposos, mães e filhas, irmãos e irmãs, e sua capacidade de encher os túmulos e alcançar toda criatura.
    • O corpo de Izrail é coberto de olhos em número igual ao das criaturas; quando toma uma alma, o olho que a contemplava se fecha; ao fim do Universo, todos os olhos se fecharão exceto o seu próprio, que se apagará por último.
  • A aparente monstruosidade e a complexidade dificilmente inteligível das descrições angélicas traduzem a impossibilidade de exprimir em linguagem humana as Realidades celestes, cuja transcendência rompe os limites naturais da expressão.
    • A mente humana só pode conter uma imagem fragmentada, simplificada e paradoxal das Realidades que a superam.
    • Descrever uma Realidade celeste é, analogicamente, descrever uma melodia polifônica a um cego que nunca ouviu falar do mar.
    • A imensidão do que deve ser expresso por meios limitados confere às imagens, por um lado, um caráter de esboço, e por outro, uma marca de horror que traduz a incompatibilidade entre as dimensões celestes e a matéria terrestre.
  • A identidade essencial entre Swayambhu e Brahma nascido do Ovo de ouro permite compreender o ensinamento do Profeta sobre Allah no nuvem antes da criação do Trono sobre as águas, e Er-Ruh pode ser definido como a afirmação da Unidade em todos os graus da Existência universal.
    • O Espírito de Deus da Gênese, portado sobre as águas, é identificado tanto a Deus como à Manifestação divina, o Trono sobre as águas.
    • Na cosmogonia hindu, Narayana é ao mesmo tempo o Ser polarizando-se em Purusha e Prakriti e o Espírito divino manifestado, Brahma.
    • El-Arsh, En-Nur e Er-Ruh são Realidades essenciais ou verticais que se afirmam independentemente dos graus em que se manifestam; o Trono é simultaneamente a separação e a abertura entre o Princípio e sua refração.
    • Er-Ruh é figurado como centro, raio, descida, presença ou imanência; En-Nur como Substância divina; El-Arsh como totalidade e integração, sendo a circunferência de que Er-Ruh é o centro e En-Nur a matéria.
  • O Cristo é chamado RuhulLah segundo o hadith, e, assim como Adão, não teve pai humano; e a adoração de Adão pelos Anjos se explica porque os Anjos, sendo seres periféricos, estão subordinados a Er-Ruh, enquanto Adão reflete a Unidade integral de Deus.
    • Os Anjos, feitos de Luz, refletem apenas um Aspecto ou Nome divino cada um e ignoram os demais.
    • Adão, feito de terra endurecida e inferior aos Anjos em substância, foi feito diretamente à imagem de Deus e reflete Deus em Sua Unidade integral.
    • Os Anjos situam-se na proximidade periférica do Trono; Adão, embora distante do Trono em sua existência terrestre, situa-se no raio central deste, no término do eixo vertical que é o lugar da Revelação profética.
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