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ESTADOS PÓSTUMOS
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O ponto de vista especificamente religioso, próprio das tradições de origem semítica, tende a negar a imortalidade da alma animal e a transmigração por estados não humanos, reduzindo os estados póstumos a dois estados eternos, o céu e o inferno, o que constitui uma concepção sintética e simplificada, não um erro.
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A alma animal é negada porque, não sendo humana, não pode participar diretamente dos meios de salvação.
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Os estados póstumos não correspondentes ao estado humano são assimilados, para os incrédulos, aos estados infernais, e, para os crentes, ao purgatório ou aos limbos, conforme o caso.
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A transmigração implica sofrimento e alternância de estados felizes e infelizes, do qual o ser só é libertado no Paraíso; mas esse argumento é reversível, pois os sofrimentos da transmigração são efêmeros e portanto não infernais no sentido absoluto.
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A condenação religiosa dos infiéis ao fogo não significa que todos devam ir ao inferno, mas que devem renascer em estados periféricos, análogos aos dos animais e plantas, sem por isso serem danados, pois carecem dos meios de graça próprios a garantir um renascimento humano em mundo paradisíaco.
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O paganismo é definido precisamente por essa carência ou incapacidade relativa à razão suficiente do estado humano e de toda tradição.
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Os pagãos e os hereges, que rejeitam ou alteram os meios de graça, entram no fogo da transmigração, não necessariamente no fogo do inferno.
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As exceções individuais sempre possíveis não bastam para justificar os paganismos e as heresias em si mesmos, nem para tornar ilegítimo o rigorismo religioso.
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A objeção ateísta de que não há proporção entre um ato limitado e uma punição sem fim contém uma verdade inegável, mas não atinge o que a Revelação religiosa realmente visa, pois não é tal ação que é punida, mas tal atitude ou tendência fundamental e irremediável.
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Só vão ao inferno os que, se Deus os retirasse, fariam tudo para retornar; a perpetuidade do inferno reside menos no rigor do Juízo do que na natureza dos danados.
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Deus não está submetido ao tempo, e para Ele a punição marca um aspecto essencial do ser, ao mesmo título que suas ações.
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O indivíduo é o que deve ser segundo sua possibilidade, expressão necessária da Toda-Possibilidade; as possibilidades particulares não têm outra explicação senão a infinidade da Possibilidade universal, e não podem ser explicadas por considerações morais.
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Segundo a expressão hindu, a condição humana é difícil de obter, pois as chances de um ser em transmigração de entrar num estado central como o humano são incomensuravelmente menores do que as de cair em estado periférico, o que o simbolismo geométrico do centro e da circunferência exprime com clareza.
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A imagem de uma chuva caindo sobre um terreno cujo centro é marcado por uma pedra ilustra a desproporção entre as chances de atingir o estado central e os estados periféricos.
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A razão suficiente do estado humano, sua lei existencial (dharma), é ser uma ponte entre a terra e o Céu, realizando Deus a algum grau e saindo assim da transmigração (samsara).
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A procriação no casamento é valorizada por toda moral sagrada porque permite a almas errantes em estados periféricos entrar num estado central, ativo e livre, onde podem obter salvação ou libertação.
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A mãe que garante a seus filhos os meios de salvação no seio de civilizações tradicionais exerce uma obra infinitamente caritativa; a mãe é uma porta sagrada para a libertação.
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Não há contradição entre a moral cristã que quer simultaneamente a procriação e a castidade, pois ambas as funções têm sentido em vista de Deus: a castidade de modo direto, interior, vertical e místico; a procriação de modo indireto, exterior, horizontal e social.
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O homem que procria deve realizar a castidade nos modos apropriados; o homem casto deve procriar espiritualmente, pela transmissão das verdades e graças espirituais e pelo irradiar de sua santidade.
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A castidade carnal não é exigência absoluta, sendo atitude estritamente humana; a castidade espiritual, da qual a carnal é apenas um suporte entre outros, é incondicional, pois sem ela não há saída do mundo ilusório das formas.
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Em Islam, a castidade espiritual torna-se pobreza (faqr), de modo que as funções de procriação e castidade podem cumular-se inclusive no plano carnal.
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O livre-arbítrio eleva o homem acima dos seres passivos como os animais, mas constitui também, por paradoxo trágico inerente à criação, o que permite ao homem ignorar sua lei existencial, sendo então homem apenas acidentalmente e não por definição essencial.
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Para poder realizar a libertação da ronda cósmica indefinida, o homem deve já possuir em sua natureza uma certa liberdade eminentemente superior.
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A razão suficiente de toda forma de Revelação consiste em realizar, da maneira mais ampla possível, o que constitui a razão de ser da existência humana, dirigindo-se a todas as aptidões mediante diferentes linguagens espirituais sempre conformes à Ideia fundamental.
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A tradição fornece a quem responde pela natureza à definição de homem os meios de realizar seu fim último, pois ser perfeitamente homem é tornar-se Deus.
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A quem é homem apesar de si mesmo, a tradição oferece não primeiramente o caminho a Deus, mas o meio de querer trilhá-lo, tornando-se antes de tudo plenamente homem.
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