schuon:olho:microcosmo-simbolo
MICROCOSMO E SÍMBOLO
-
A diferença entre as perspectivas metafísica e iniciática reside em que a primeira distingue em modo objetivo entre o Princípio e a manifestação, enquanto a segunda vê esses dois termos em modo subjetivo, distinguindo a priori entre o eu humano e o Ele divino, ou a posteriori entre o ele humano e o Eu divino.
-
O ego humano torna-se então um ele qualquer, e o Ele divino é conhecido como o Ego único, absoluto e infinito.
-
Em cosmologia há relação análoga entre o Macrocosmo, que faz função de Modelo divino, e o microcosmo; mas é este que é ativo e aquele passivo, pois o microcosmo, sendo o limite interior do cosmos, constitui ao mesmo tempo a via de saída da ilusão cósmica.
-
O Espírito divino se identifica ao Eu transcendente, universal e cósmico que o ser relativo porta virtualmente em si mesmo; o microcosmo deve identificar-se, em seu processo de deificação, com o limite exterior do cosmos, o Empíreo.
-
Toda teoria iniciática parte da distinção entre o corpo e a alma, distingue na alma entre a alma sensorial e a alma imortal, e nesta entre a alma individual e o Espírito ou Intelecto, ou seja, entre o cérebro e o coração.
-
O coração não entra, a rigor, nos limites do ego, mas constitui seu centro transcendente, suporte do Intelecto incriado.
-
A cosmologia vê a alma ad extra, parando em princípio no limiar dela; a realização a vê ad intra, até as margens do inefável.
-
A cosmologia dos Antigos concebia o estado terrestre como centro a partir do qual se elevavam as esferas planetárias até o Empíreo, sede simbólica da Divindade que envolvia o finito; a doutrina hindu parte do estado corporal como ponto de partida de graus de existência progressivamente mais universais.
-
No processo iniciático, a Realidade suprema aparece não como o Vazio mais exterior e incomensurável, mas como o Centro mais interior; além da individualidade não há sujeito nem objeto, nem interior nem exterior.
-
Segundo o ponto de vista iniciático, não há propriamente outro campo de ação que a alma, o microcosmo; o mundo externo é tomado em consideração apenas enquanto influi sobre o mundo interno ou é concebido como consubstancial a ele.
-
Não se trata de passar simplesmente do mal ao bem mantendo a individualidade, mas de superar essa mesma individualidade; a analogia entre os dois processos permite ao esoterismo servir-se dos símbolos do exoterismo como suportes.
-
O microcosmo, tornado assim o mundo inteiro, serve de plano à transmutação operada pelo Símbolo; a alma será a matéria que se moldará voluntariamente à imagem do Símbolo e será por ele determinada, transmutada, regenerada e absorvida.
-
O símbolo iniciático é uma dupla manifestação de Deus, primeiro sob o aspecto da forma e depois sob o da Presença; a forma, para poder veicular a Presença, deve refletir diretamente uma Realidade divina, e não pode derivar de um querer humano.
-
A Presença se manifestará na materialidade imediata do Símbolo sagrado e, por isso mesmo, no homem qualificado, conforme por sua natureza e pela iniciação à natureza do Símbolo.
-
Três condições são exigidas: a exatidão do Símbolo, sua consagração, e a consagração do homem que deve assimilá-lo; o exemplo da hóstia eucarística, o da imagem sagrada e o do rito incantatório ilustram respectivamente essas condições.
-
Todo símbolo iniciático é, por sua forma, necessariamente um símbolo natural ou existencial; mas nem todo símbolo natural é necessariamente um símbolo iniciático, sem o que toda aparência seria em última análise tal símbolo.
-
O Símbolo é Deus e se identifica ao Filho sem o qual ninguém chega ao Pai, em razão da identidade vertical em que só a natureza essencial conta, não o plano existencial em que essa natureza se manifesta.
-
O rapport entre o Símbolo e o microcosmo corresponde analogicamente ao rapport entre os princípios masculino e feminino: atividade e transcendência do Símbolo de um lado, passividade, virgindade e fecundidade do microcosmo de outro.
-
Para o iniciado, o microcosmo é o mundo, e o mundo externo é ou praticamente inexistente ou concebido como interno; o Símbolo é o ego real, e o Macrocosmo não deve ser considerado como externo nem como outro que eu.
-
O contemplativo, para quem o mundo se tornou eu, considerará as imperfeições do mundo como de algum modo suas, o que não está sem relação com o simbolismo do Cordeiro de Deus que carrega os pecados do mundo.
-
A inversão fundamental do processo iniciático decorre da analogia inversa entre o Princípio e a manifestação: o que é grande no manifestado é pequeno no Princípio, e vice-versa.
-
A distinção entre conteúdo e continente é por vezes complexa: a grandeza como conteúdo reflete paralelamente a Grandeza divina; como continente, como modo de afirmação de outras qualidades como o espaço, reflete inversamente uma pequenez principial.
-
O que no homem ordinário é dinâmico torna-se estático no contemplativo: os desejos se reabsorvem na Beatitude imutável, e os conceitos doutrinais se desdobram no Conhecimento que os transforma em realidades tangíveis e vividas.
-
O que é subjetivo para o homem ordinário, sentimento ou emoção, torna-se objetivo para o sábio; e o que aparece como objetivo para o homem ordinário, lei natural ou verdade, penetra intimamente na vida e vontade do sábio tornando-se semelhante a uma disposição psíquica.
-
O Símbolo, pequeno enquanto simples fato e conteúdo da alma humana, torna-se grande ao revelar-se como Princípio que envolve e absorve o indivíduo tornado pequeno e simples fato; o processo iniciático inteiro pode ser definido como uma inversão dos polos de atração.
-
A priori, o microcosmo é uma esfera de que o Símbolo é o centro ou coração; no ser que realizou o Divino, é o Símbolo ou sua Realidade realizada que se torna uma esfera ilimitada, enquanto o microcosmo se reduz a um conteúdo simbólico dotado de máxima qualidade.
-
O primeiro polo de atração, externo e múltiplo mas finito, é neutralizado pela ação do segundo polo, interno, único e infinito.
-
O que corresponde, na ordem macrocósmica, ao Símbolo é o homem feito à imagem de Deus, não exclusivamente o homem terrestre, mas o estado de existência que em cada mundo integral constitui seu centro; é só através do estado humano, ou de qualquer outro estado central, que os seres em transmigração podem sair do cosmos.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/schuon/olho/microcosmo-simbolo.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
