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OLHO DO CORAÇÃO
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O olho, por sua correspondência privilegiada com o intelecto, ocupa posição central no simbolismo tradicional de todas as Revelações, enquanto os demais sentidos correspondem a funções secundárias ou modos parciais da inteligência.
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A vista realiza simultaneamente as possibilidades mais amplas do conhecimento sensível, ao passo que os outros sentidos reagem apenas a influências ligadas à sensibilidade vital.
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A audição reflete a inteleção de modo dinâmico e sucessivo, não estático e simultâneo, exercendo papel “lunar” em relação à vista e vinculando-se ao tempo, não ao espaço.
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A sensação da luz é a mais importante e intelectualmente explícita, pois só a vista comunica a existência de corpos celestes sem relação com os interesses vitais, sendo assim essencialmente objetiva.
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O uso do simbolismo da luz e da visão, em oposição à obscuridade e à cegueira, é amplamente atestado nas línguas diversas e nos Textos sagrados.
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A transposição simbólica do ato visual ao plano intelectual ilustra a identificação por conhecimento, em que ver, ser e conhecer convergem num único processo cujo objeto, em última análise, é Deus.
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No plano macrocósmico, o mundo é uma visão indefinidamente diferenciada cujo objeto último é o Protótipo divino de tudo que existe.
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Deus é o Olho que vê o mundo e, sendo ativo onde a criatura é passiva, cria o mundo por sua visão, que é ato e não passividade.
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O olho torna-se centro metafísico do mundo, sendo simultaneamente seu sol e seu coração.
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A Visão absoluta de Deus é aquela em que Ele é ao mesmo tempo Sujeito e Objeto, Conhecente e Conhecido.
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O universo inteiro é tecido de visões cujo conteúdo repetido é sempre o Divino, primeira Conhecimento e última Realidade, sendo Conhecimento e Realidade dois aspectos complementares da mesma Causa divina.
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O Olho do Coração, comparado ao olho corporal, é único e central, identificando-se por sua pureza à Face divina, enquanto o olho corporal, bipolizado, percebe o aspecto relativo e fragmentado de Deus.
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O olho corporal é bipolizado para adaptar-se à percepção do manifestado, processo que decorre da bipolarização principial do Ser em Verbo e Materia prima.
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O Olho do Coração é único e central, correspondendo à Face divina que está além de toda determinação e de toda dualidade.
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O coração situa-se entre duas visões de Deus: uma exterior e indireta, outra interior e relativamente direta.
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O coração tem duplo papel: é centro do indivíduo como tal, representando sua limitação fundamental, e é centro do indivíduo enquanto ligado ao seu Princípio transcendente, identificando-se então ao Intelecto e ao Olho que vê Deus.
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As duas grandes visões, exterior e interior, são incompatíveis no mesmo plano, pois a visão do mundo é absorvida e aniquilada pela visão de Deus.
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A dualidade dos olhos corporais marca o extremo limite do processo de bipolarização da manifestação, com o cérebro funcionando como intermediário entre a visão analítica dos olhos e a visão sintética do coração.
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O par dos olhos representa uma projeção bipolizada do cérebro num domínio de menor possibilidade.
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O cérebro é intermediário entre os olhos e o coração, e esse papel de mediação constitui em certo sentido sua razão de ser, dado que o indivíduo, por sua individuação, separou-se ilusoriamente da Realidade.
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A relação geométrica entre coração, cérebro e olhos pode ser simbolizada por uma vertical cujos extremos representam coração e cérebro, encimada por uma horizontal cujos extremos representam os olhos, expressando a fórmula do processo de bipolarização.
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O Olho do Coração é ao mesmo tempo o olho da manifestação que vê o Princípio e o Olho do Princípio que vê a manifestação, numa analogia inversa em que a visão passiva da criatura reflete invertida a visão ativa e criadora de Deus.
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Deus se realiza em Sua Onisciência segundo quatro grandes Visões: vendo-Se a Si mesmo em Sua Essência; vendo-Se a Si mesmo pela Criação; vendo-Se pelas criaturas que O veem na Criação; vendo-Se pelas criaturas que O veem pelo Olho do Coração.
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A primeira visão está além de toda dualidade; a segunda e a quarta operam pelo Olho do Coração; a terceira opera pelo olho corporal que representa o indivíduo como tal.
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A visão de Deus procede dEle e termina nEle, como um círculo que nasce e se fecha.
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O Olho frontal de Shiva, correspondente nos homens à consciência da eternidade perdida na era atual, é análogo ao Olho do Coração, que na realização espiritual deve emergir como o sol nascente para iluminar e absorber o plano da obscuração individual.
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Segundo certas tradições asiáticas, o Paraíso terrestre retirou-se sob a terra e deve reaparecer ao fim da era sombria, em paralelismo com o Olho do Coração que deve retornar à superfície do ser.
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Na perspectiva mais rigorosa, é o homem que se afastou do Olho eterno, assim como é a terra que se desvia do sol, e não o contrário.
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Para reencontrar o Paraíso perdido e realizar a Unicidade da Existência (Wahdat el-Wujud), o homem em busca de Deus deve descer ao próprio coração.
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O Sufi Mansur El-Hallaj sintetizou toda a doutrina na frase: “Vi meu Senhor com o Olho de meu Coração; e disse: Quem és Tu? Ele me disse: Tu!”
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