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SACRIFÍCIO
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O sacrifício é um modo de purificação que concerne à vida mesma, compensando a transgressão existencial ou pecado cósmico que é a própria manifestação do ser enquanto parece usurpar a Vida divina de modo titânico ou luciferiano; tudo o que existe vibra entre o Princípio, que é não-existência, e a manifestação, que tende para a existência total sem jamais realizá-la.
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O que existe só pode sustentar e estender sua existência mediante reminiscências de sua inexistência principial; toda coisa porta organicamente a marca de seu nada.
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O som, para se estender na duração, deve afirmar-se mediante pausas ou vazios que o prolongam, conforme a lei de compensação ou vibração que rege toda existência; sem esses vazios, a manifestação se reduziria a uma explosão instantânea.
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A manifestação total ou massiva, impossível em si mesma, deve realizar-se ao menos simbolicamente no plano das aparências, revestindo aspecto maléfico ou benéfico; em ambos os casos, cataclismo como milagre, há purificação ou reintegração de um desequilíbrio parcial no equilíbrio total.
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O homem é o único ser no mundo terrestre capaz de se purificar conscientemente das manchas de sua existência, e por isso é dito que o homem é o único animal que sacrifica (Shatapatha-Brahmana, VII, 5); os seres conscientes e responsáveis devem sacrificar ao Criador uma parte do que Ele deu, para realizar espiritualmente o sentido desse dom.
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Os hindus não comem sem antes oferecer uma parte às divindades, alimentando-se no fundo de restos sacrificiais; muçulmanos e judeus derramam todo o sangue da carne destinada ao consumo.
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Os guerreiros de certas tribos da América do Norte sacrificavam um dedo ao Grande Espírito no momento de sua iniciação guerreira; o dedo é o mais precioso para o homem de ação, e o número dez simboliza o ciclo realizado.
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A dízima (décima) é o equivalente exato da zakat muçulmana: sacrificar o décimo impede o ciclo de prosperidade de se fechar, pois o décimo constitui precisamente o acabamento e o fim do ciclo.
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A palavra zakat tem o duplo sentido de purificação e crescimento, e vem do verbo zaka, que significa prosperar ou purificar; o exemplo da poda das plantas ilustra o nexo entre purificação e crescimento.
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A expressão árabe din significa tradição, julgamento e, com vogalização diferente (dayn), dívida; a tradição é a dívida do homem para com Deus, e o Dia do Juízo é o dia do pagamento dessa dívida.
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O sangue é derramado ao Princípio criador porque é o veículo mais imediato da vida e o meio pelo qual os elementos psíquicos entram em conexão com a modalidade corporal; o sacrifício é análogo a uma sangria pela qual a coletividade humana dá de seu sangue.
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A substituição do sacrifício humano pelo animal é válida do ponto de vista técnico do sacrifício porque os animais, sem pertencer à espécie humana, fazem parte da mesma coletividade vivente e terrestre e partilham o mesmo sangue quente.
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O sacrificador não age como indivíduo, mas como instrumento da coletividade que, sendo a totalidade, tem direitos sobre sua própria parte, o indivíduo, desde que essa totalidade seja unificada por um vínculo espiritual e o sacrifício seja exigido por Deus.
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A passagem do sacrifício humano ao animal é marcada, nas três religiões monoteístas, pelo sacrifício do cordeiro substituído ao filho de Abraão; no Cristianismo, o sacrifício do Homem-Deus substitui, na Eucaristia, o sacrifício sangrento como tal.
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O sacrifício do Cristo, contendo por sua divindade toda a manifestação, cobre e protege os cristãos, que podem assim abater animais sem sacrificá-los.
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Sem uma compensação dessa ordem, o homem não tem direito de tirar a vida, pois é incapaz de dá-la; os povos caçadores praticam sempre compensações rituais, como o caçador pele-vermelha que fumava o Calumet diante do animal morto para reconciliar-se com o gênio da espécie.
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O sacrifício humano pode desviar do qualitativo ao quantitativo, do símbolo à superstição, tornando-se o oposto mesmo do sacrifício original, como ocorreu entre os pagãos mencionados na Bíblia, os astecas e povos degenerados.
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Onde a espiritualidade se obscureceu, o sacrifício não se dirige mais à Divindade, mas a uma entidade psíquica criada e mantida pela adoração coletiva.
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Numa tradição normal, entidade semelhante existe, mas em posição secundária e iluminada pela espiritualidade, servindo de suporte às influências divinas; quando as influências divinas se retiram, a entidade torna-se um monstro que serve de habitação a influências tenebrosas.
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As decadências desse tipo ocorrem quando as formas culturais não estão mais adaptadas às condições cíclicas novas, subsistindo apenas como vestígios de vida puramente espasmódica, como um corpo decapitado que ainda sofre contrações nervosas.
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Intervém então uma readaptação tradicional conforme às condições cíclicas, ou uma mudança exterior que pode levar à destruição pura e simples da civilização.
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A forma suprema do sacrifício, da qual todas as outras são apenas reflexos ou antecipações, situa-se no plano interior; e, pela lei de analogia inversa entre o plano interior, principial, e o mundo externo, não é um décimo da vida que o homem sacrifica, mas ele próprio, seu próprio ser.
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O décimo, o sacrificador espiritual, sacerdote e holocausto ao mesmo tempo como o Cristo, o deixa ao mundo para que o mundo lho devolva participando da grande obra segundo seus meios.
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O homem se sacrifica para perder sua vida no sentido da palavra evangélica, ou antes para reencontrá-la no imutável que está além das alternâncias cósmicas.
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