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SENTIMENTO DE ABSOLUTO NAS RELIGIÕES

  • A incompreensão mútua entre as religiões decorre do fato de que o sentimento de absoluto se situa, em cada caso, em plano diverso, tornando ilusórios os pontos de comparação e modificando a função e até a natureza de elementos formalmente semelhantes.
    • Elementos de forma idêntica inserem-se em contextos distintos e mudam de função conforme o caso.
    • A infinitude do possível exclui toda repetição rigorosa.
    • A razão suficiente de um fenômeno novo reside em sua diferença em relação aos anteriores.
  • Os universos religiosos não são feitos uns para os outros, pois suas particularidades implicam diversidade e exclusão recíproca, situação agravada pelo relativismo moderno que exige a restituição do sentido do absoluto à inteligência.
    • Cada mundo possui linguagem própria, que não precisa ser reduzida a mero caso entre outros.
    • A interpenetração das civilizações torna atuais problemas antigos.
    • O relativismo crescente ameaça a ideia de absoluto.
    • Vislumbra-se a possibilidade de frente comum das antigas religiões contra o materialismo e o pseudospiritualismo.
    • Nem todos aceitarão todas as teses, mas podem ser abertos novos horizontes.
  • A dificuldade religiosa manifesta-se no fato de que o Cristão universaliza a estrutura de sua convicção fundada na divindade histórica de Cristo, enquanto o Muçulmano fundamenta a sua na totalidade normativa do Islã, configurando perspectivas inversas.
    • No Cristianismo, o Verbo feito carne é o centro, e a Igreja é seu corpo místico.
    • No Islã, a Lei divina totalizante constitui a prioridade, e o Profeta é sua personificação.
    • A qualidade divina da totalidade e a experiência interior conferem convicção ao Muçulmano.
    • O Corão torna-se elemento central por seu desdobramento como el-islâm.
    • O abandono da vontade a Deus envolve corpo, espírito e destino integral.
    • A unidade conferida à vontade humana depende da misericórdia divina.
    • A primeira exigência do Islã é aceitar o Deus Uno e os Profetas.
    • Cada tradição comporta evidência mitológica e evidência intelectual gnóstica.
  • O que se afirma do Islã aplica-se ao Judaísmo, distinguindo-se este por sua eleição e o Cristianismo por sua encarnação, enquanto os Mensageiros são um em princípio, mas diversos na manifestação.
    • O Islã distingue-se pela universalidade étnica, simplicidade da Lei e clima abraâmico.
    • No Cristianismo, Deus é colocado no homem pela encarnação.
    • No Judaísmo, o homem é colocado em Deus pelo mistério do Povo eleito.
    • Jeová é inseparável de Israel.
    • O mistério sinaítico fundamenta a convicção judaica.
    • Os Mensageiros são um no Logos, mas não iguais no plano fenomenal.
    • A realidade espiritual é una, a manifestação é diversa.
  • A diferença entre Cristianismo, Judaísmo e Islã quanto à mediação divina expressa perspectivas distintas sobre proximidade e distância de Deus, sem implicar multiplicidade de deuses.
    • Para o Cristão, a divindade de Cristo e sua mediação são decisivas.
    • O argumento de proximidade pressupõe certa distância divina.
    • O Islã afirma a transcendência e simultânea proximidade de Deus.
    • O único intermediário necessário é a atitude interior el-islam.
    • O Deus judaico é distante, mas habita entre seu povo.
    • Deus é único, variando apenas as perspectivas e atitudes correspondentes.
    • Em toda tradição coexistem afastamento, proximidade e elemento intermediário.
  • O sentimento de absoluto incide sobre elementos diferentes conforme a religião, como revelam as diferenças simbólicas entre conversão cristã e islâmica.
    • A conversão cristã assemelha-se a regeneração amorosa após morte espiritual.
    • A conversão islâmica assemelha-se a despertar ou sobriedade libertadora.
    • No Cristianismo, a fé é concentração no fogo central da cruz.
    • No Islã, a fé é expansão no espaço simbolizado pela kaaba e pela arte abstrata.
    • A concentração reaparece no amor sufi.
    • A expansão reaparece na gnose cristã e na paz contemplativa.
  • A passagem entre tradições asiáticas é facilitada pela transparência metafísica comum, ao passo que nas tradições semíticas a mudança implica ruptura quase planetária.
    • Hinduísmo, Budismo e Taoismo evidenciam relatividade mitológica.
    • Elementos como a divindade shintoísta podem tornar-se bodhisattwa.
    • No monoteísmo semítico, formas divergentes apoiam-se no mesmo fundamento profético.
    • As chaves espirituais apresentam-se como fatos exclusivos.
    • A gnose reconhece a natureza simbólica das chaves.
    • A evidência metafísica supera a certeza fenomenal.
  • As diferenças religiosas refletem-se nos estilos artísticos, sendo o Islã contemplativo e intelectual, enquanto o Cristianismo manifesta dramatismo volitivo.
    • A arte gótica exprime heroísmo místico.
    • A arte islâmica privilegia geometria e simultaneidade.
    • O Islã evita particularizações excessivas.
    • Substitui simbolicamente a cruz pelo cubo ou tecido.
    • Rejeita centralizações individualistas como shirk.
    • O Profeta e o Corão integram-se em tecido universal.
    • A kaaba torna-se espaço interiormente.
    • O Islã universaliza e descentraliza.
  • Toda religião implica escolha volitiva e intelectiva, mas Cristianismo e Islã diferem quanto à correlação entre verdade e salvação.
    • No Cristianismo, Cristo é verdadeiro porque é Salvador.
    • No Islã, o discernimento metafísico funda a salvação.
    • A verdade metafísica determina valores universais.
    • No plano essencial não há escolha volitiva.
    • Aristóteles afirma que a alma é o que conhece.
    • A serenidade contemplativa manifesta-se em mesquitas e igrejas românicas.
  • O Cristianismo associa-se a milagre, amor e sofrimento, enquanto o Islã associa-se a verdade, força e pobreza, configurando climas espirituais distintos.
    • A barakah cristã corresponde a calor central.
    • A piedade islâmica evoca luz branca presente.
    • A ascese islâmica é sóbria e desértica.
    • Elemento musical recria clima análogo ao cristão.
  • A ênfase islâmica na Verdade como elemento impessoal descentraliza sua mitologia, sem excluir a identificação entre verdade e realidade.
    • No Cristianismo, a Realidade divina manifesta-se no Cristo.
    • Não há conhecimento do Real sem verdade metafísica.
    • Verdade pode significar realidade.
    • Manifestação subjetiva do Absoluto é tão real quanto a objetiva.
    • A certeza equivale ao milagre.
  • A questão da historicidade não altera o valor espiritual das verdades, pois modos de manifestação correspondem às disposições mentais humanas.
    • O maravilhoso indica transcendência.
    • A exageração pode expressar nostalgia do Infinito.
    • Milagres introduzem o maravilhoso no sensível.
    • Deus prioriza eficácia simbólica sobre literalidade.
    • A obscuridade expressiva indica profundidade.
    • O Verbo incriado transcende a linguagem criada.
  • A base histórica não é inferior à mitológica enquanto símbolo, mas torna-se problemática quando substitui a realidade metafísica que expressa.
    • O simbolismo da vida do Budha exprime realidades espirituais.
    • A forma histórica foi necessária em contexto de historismo e empirismo.
    • Excesso de insistência histórica obscurece transparência espiritual.
  • As provas históricas não garantem plenamente os meios de graça, sendo a tradição e a santidade critérios mais decisivos.
    • A tradição garante tanto história quanto simbolismo.
    • Os santos testemunham mais profundamente que historiadores.
    • Negar tradição implica negar causalidade espiritual.
  • A verdade histórica é exata, mas menos real que a verdade profunda simbolizada também pelos mitos.
    • A realidade superior engloba a inexatidão.
    • O simbolismo mítico é mais verdadeiro que fato bruto.
    • Deus prioriza eficácia simbólica.
  • Distinguem-se três graus de historicidade: mitologia, historicidade mitigada e historicidade exata.
    • Mitologia inclui criação e relatos primordiais.
    • Historicidade mitigada inclui Noé, Jonas e avatâras de Vishnu.
    • No Judaísmo, historicidade rigorosa inicia-se no Sinai.
    • No Cristianismo, manifesta-se no Novo Testamento.
    • Apócrifos e Lenda Dourada não são canônicos.
    • No Islã, aplica-se à vida do Profeta, Companheiros e hâdith reconhecidos.
    • Relatos pré-islâmicos possuem simbolismo mítico.
  • A perspectiva histórica cristã é legítima enquanto integrada ao não-historismo platônico, sem implicar superioridade.
    • O personalismo decorre da Encarnação.
    • O Cristianismo contém metafísica e gnose.
    • A gnose não é universalmente acessível.
    • O Platonismo pode ser metafísico por não ser religião.
  • A relação entre objeto e fé comporta primazia normal do objeto, mas admite predominância excepcional da fé sobre ideia.
    • A fé possui polo objetivo-dogmático e subjetivo-místico.
    • A ideia determina a qualidade da fé.
    • Possibilidade universal permite supremacia do polo fé.
    • Exemplo tibetano da dentição canina irradiando por fé ardente.
    • Pureza e nobreza preservam a fé de erro decisivo.
    • A ideia deve aparecer como luz, não obscuridade.
  • A atitude de certos bhaktas privilegia intensidade da fé sobre literalidade do símbolo, como exceção confirmadora da regra.
    • Critério de verdade reside na negação do ego.
    • Existem almas simples sob todo céu.
    • Não se confunde ingenuidade com heresia intrínseca.
    • A magia da alma pode sobrepor-se à retidão simbólica.
    • Trata-se do mistério da fé que move montanhas.
  • A gnose ou philosophia perennis constitui o vínculo vertical entre as linguagens religiosas, mantendo as Escrituras como critério.
    • A gnose manifesta-se como fogo descontínuo.
    • A intelecção é recordação, não aquisição.
    • O Intelecto identifica-se ao Logos por filiação essencial.
    • O discernimento aplica-se apenas ao relativo.
    • O Intelecto assemelha-se a sono profundo supra-consciente.
    • A gnose assegura continuidade da consciência do absoluto.
  • A consciência da verdade não admite justificação externa, pois coincide com inteligência, liberdade e ser.
    • A verdade liberta.
    • Não há porquê diante da verdade.
    • Sem a verdade, não há ser.
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