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CRISTIANISMO
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Na perspectiva da gnose, Cristo, como “Luz do mundo” e “Sabedoria do Pai”, é o Intelecto universal, presente tanto no macrocosmo quanto no microcosmo, sendo a fonte de toda verdade e sabedoria, independentemente de tempo e lugar, e a relação do Filho com o Pai é análoga à do Amor puro com o Ser ou do Intelecto com o Si.
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O Cristo-Intelecto brilha nas trevas das paixões e ilusões.
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Os homens são “irmãos” de Cristo no Intelecto ou na Graça santificante.
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Cristo é prefigurado na criação inteira, que tem aspectos de encarnação e crucificação, assim como a humanidade e o indivíduo humano.
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A gnose cristã, em termos doutrinais, é a metafísica trinitária aplicada ao microcosmo, onde o Pai corresponde à pura existência, o Filho à pura inteligência e o Espírito Santo à pura vontade, com a cruz simbolizando as relações entre eles: a linha vertical, a relação Pai-Filho; a linha horizontal, o Espírito Santo, que emana do Pai e é delegado pelo Filho (Filioque).
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O Pai é Sur-Être (ou Ser, segundo a perspectiva), o Filho é Être (ou Consciência do Ser), o Espírito é Beatitude e Manifestação.
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O Espírito Santo é, ao mesmo tempo, a “Vida interna” (Beatitude contemplativa) e a “projeção criadora” (Beatitude ativa) da Divindade.
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O Espírito Santo “enquanto criação” é a Virgem, nos três aspectos: macrocosmico (Substância Universal), microcósmico (alma em estado de graça) e histórico (a Virgem Maria), de modo que toda a alma da Virgem é um grande “Amen” à Vontade de Deus.
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Na cruz, a linha vertical marca a relação Pai-Filho; a linha horizontal, a relação Esposo-Esposa (Deus e a Substância Universal).
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O “Amen” pode ser considerado um nome da Virgem, a criatura ou criação perfeita.
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A arte cristã essencial compreende três imagens: a Virgem com o Menino (Incarnação), o Crucifixo (Redenção) e a Santa Face (Divindade de Cristo), que correspondem, na vida do homem, à pureza que veicula o “Cristo em nós”, à morte ao mundo, e à santidade ou sabedoria.
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A arte faz parte da liturgia, no sentido amplo de “obra pública”, e não pode ser abandonada ao arbítrio humano.
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A arte, como a liturgia, é o “vestuário” terrestre de Deus, que ao mesmo tempo envolve e desvela a Presença divina.
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A Igreja de Pedro é visível e contínua como a água, enquanto a de João, instituída no Calvário e confirmada no lago de Tiberíades, é invisível e descontínua como o fogo; João é irmão de Cristo e filho da Virgem, e Pedro tem a missão de pastorear, mas sua Igreja parece ter herdado também as suas negações.
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João permanece até a volta de Cristo, mistério que está fechado a Pedro.
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Apesar das fraquezas, as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja de Pedro.
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O Espírito Santo é transmitido pela Confirmação mediante o fogo (óleo como fogo líquido), diferenciando-se do Batismo, que tem função negativa (remover o estado de queda), enquanto a Confirmação tem função positiva (dar luz e poder divinos).
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Os votos (pobreza, castidade, obediência) respondem aos “conselhos evangélicos” e conferem à transmissão uma nova dimensão e plena eficácia iniciática.
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A pobreza retira do mundo, a castidade retira da sociedade, a obediência retira de si mesmo, marcando uma morte e um segundo nascimento.
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Todo o Cristianismo resume-se na afirmação de que Cristo é Deus, e no plano sacramental, de que o pão é o corpo e o vinho é o sangue, havendo também uma relação com o Nome, onde o Nominal está “realmente presente” em seu Nome.
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A Eucaristia, como meio de graça central, expressa a dupla aplicação aos “grandes” e “pequenos mistérios”: o vinho corresponde aos primeiros (milagre qualitativo, interior, informal) e o pão aos segundos (milagre quantitativo, exterior, formal).
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O corpo de Cristo teve de ser perfurado para que o sangue (interior, “núcleo”) pudesse sair, e a água que jorrou do lado é o aspecto negativo da alma transmutada, a “morte” que precede a “Vida”.
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O Cristianismo também se resume nos dois mandamentos supremos, que na gnose implicam a consciência do Si (amor a Deus) e a visão do Si no “não-eu” (amor ao próximo), e nas duas disciplinas de oratio e jejum.
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O jejum é abstenção do mal e “vazio para Deus” (vacare Deo); a oração é o “lembrança de Deus” nesse vazio.
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A Légende Dorée ilustra a eficácia do lembrete do Nome divino, como no caso do cavaleiro que só retinha o “Ave Maria” e no de Santo Inácio de Antioquia, em cujo coração estava escrito o Nome de Jesus.
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Deus é Amor e Luz, mas também, em Cristo, sacrifício e sofrimento, oferecendo duas vias: a da caridade (que implica a dor como prova de amor) e a da gnose (que se refere ao aspecto glorioso de Cristo e onde a ascese geral do jejum substitui o desejo individual de sofrimento).
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A espiritualidade cristã oscila entre esses dois pólos, com predominância da via caridade-sofrimento.
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No gnóstico, a questão “O que é Deus?” ou “O que sou eu?” prevalece sobre “O que Deus quer de mim?”, embora estas não se excluam.
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A virtude da humildade no Cristianismo tem dois aspectos prefigurados no Evangelho: o lava-pés (humildade de apagamento, que atribui a Deus as próprias qualidades e vê as próprias faltas) e o grito de abandono na cruz (humildade de morte espiritual, extinção do ego).
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A humildade de apagamento não deve contrariar a verdade ou a inteligência; Cristo humilhou-se servindo, não se caluniando.
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A humildade de morte espiritual leva o santo a identificar seu “eu” com o princípio de individuação, raiz de todo pecado, e a sentir-se o “maior dos pecadores” enquanto ego, não enquanto tal ego.
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Na cruz, Cristo identificou-se com a noite do ego humano, sentindo o abandono não por ser Jesus, mas por ter se tornado o homem como tal.
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O ensinamento de que “a luz brilha nas trevas, e as trevas não a compreenderam” mostra que a forma do mensagem crístico se dirige prioritariamente ao elemento passional do homem, embora permaneça gnóstico e sapiencial no próprio Cristo e na metafísica trinitária.
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Cristo veio chamar os pecadores, não os justos, e ensina a não julgar, dirigindo-se à natureza passional.
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A perspectiva volitiva da Bíblia, que narra “o que se passa” e não “o que é”, corresponde aos debates da alma passional com a verdade.
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O Judaísmo ocultava o que o Cristianismo veio manifestar abertamente, enquanto este substituiu a crueza antiga por um esoterismo de amor e uma nova hipocrisia.
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A perspectiva volitiva tende a manter o ego pela ênfase na responsabilidade moral, enquanto a gnose tende a reduzi-lo às potências cósmicas; os homens são iguais perante a vontade e a paixão, mas não perante a intelecção pura, que introduz um elemento de absoluto.
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A inteligência, em seu aspecto “relativamente absoluto”, escapa à jurisdição da virtude e tem o direito de julgar quando infalível.
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A necessidade de recorrer à sabedoria platônica e ao aristotelismo mostra que a religião não pode prescindir do elemento sapiencial.
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Ao contrário da gnose, que discerne os espíritos por seu ponto de vista impessoal, o amor não tem o direito de julgar outrem, assumindo tudo e escusando tudo, podendo recorrer à “pia fraude” por caridade, o que é a contrapartida do individualismo volitivo.
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A caridade que brota da consciência direta supera a cisão entre o ego e o outro, vendo a si mesmo no outro e o outro em si mesmo.
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Segundo São Tomás, a vontade livre não tem por natureza escolher o mal, embora este escolha derive do livre-arbítrio em conexão com a criatura falível, associando-se assim vontade e liberdade, o que introduz na vontade um elemento intelectual.
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Na escolha do mal, a vontade deixa de ser livre (portanto, intelectiva) e torna-se potência passional (os animais também têm vontade).
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O Espírito Santo (Vontade, Amor) é delegado pelo Filho (Intelecto, Conhecimento), e não o inverso.
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A doutrina cristã ensina que o esforço moral e a extirpação das paixões liberam a contemplatividade da natureza teomorfa, abrindo-a à Luz divina, e na gnose esse processo se acompanha de conceitos e estados de consciência apropriados.
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O primado do amor, sob este ângulo, não se opõe à perspectiva sapiencial, mas ilumina seu aspecto operativo.
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A moral da face esquerda voltada significa indiferença às cadeias de causalidade deste mundo e recusa de se deixar arrastar no círculo vicioso das contestações, pois os negócios do mundo só trazem perturbações que afastam de Deus.
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A paz pode coexistir com a atividade exterior, como na santa cólera ou no papel de justiceiro por interesses superiores e impessoais.
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A “não-violência” evangélica simboliza a virtude do espírito preocupado com “o que é” em vez de “o que se passa”.
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O santo age como se estivesse morto e voltado à vida, mantendo-se numa vigília que o mundo não pode compreender.
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O amor puro, de origem celeste, não é deste mundo das oposições e vive de sua própria luz.
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