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CRUZ
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O Cristo, enquanto Verbo feito carne, representa uma segunda criação que purifica a primeira, assumindo na cruz o mal da existência decorrente da separação necessária entre o mundo e Deus.
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A encarnação de Deus na existência é a condição ontológica que permite ao Divino absorver o pecado, que se define como o desvio da deleitação para objetos que não são o Princípio.
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A inteligência humana possui a função de reconhecer a finalidade divina de todas as coisas, transcendendo a lógica horizontal da prisão terrestre através de uma perspectiva vertical ou celeste.
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A “loucura” da lógica cristã aos olhos do mundo é o mecanismo de superação da estrutura de desejo cego que sustenta o plano fenomenal.
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A manifestação universal comporta dois aspectos fundamentais: a árvore jubilosa, suporte da serpente e da paixão, e a cruz dolorosa, suporte do Verbo e da graça salvífica.
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Para os ímpios, a existência é um domínio de paixões sancionado por uma filosofia carnal; para os eleitos, é um campo de provas transpassado pela fé e pela gnose.
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Jesus é a nova Criação que substitui a totalidade periférica e circular da antiga pela unicidade e centralidade do espírito.
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A cruz é o princípio de contenção da queda do ego, o ponto de parada da inclinação que afasta a criatura de Deus e permite a vitória sobre a existência.
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O ego encarna o aspecto do que “não é Deus” dentro da manifestação, enquanto a cruz reconduz esse elemento à sua origem divina.
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A existência é descrita como uma rosa marcada por uma cruz, onde a deleitação é inevitável por ser um reflexo de Deus, mas a sofrimento e a morte são as marcas da cruz reaparecendo na carne cósmica.
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A moral mística do Cristo despoja o indivíduo de qualquer pretensão de justiça própria frente ao próximo, uma vez que a substância comum da humanidade é solidária no pecado original de Adam e Eva.
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A lei social distingue direitos e danos, mas a perspectiva cristã exclui a vingança ao estabelecer que apenas Deus pode ser verdadeiramente lesado.
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O perdão é o primeiro ato de justiça, fundamentado na consciência de que a culpa de outro é uma manifestação da mesma natureza latente que compõe o ego de cada homem.
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O reconhecimento da justiça humana e dos deveres para com César coexiste com o dever espiritual de vencer o ódio através da descoberta do mal na própria natureza egóica.
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O ego funciona como uma ilusão de ótica que inverte as proporções de falhas próprias e alheias (a palha e a trave).
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A superação do mal ocorre pela paz verdadeira, que se situa além do mal e não possui contrário, reduzindo todas as tensões ao equilíbrio absoluto.
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A solidariedade na substância pecaminosa implica que todo homem carrega uma parcela da responsabilidade pelo pecado alheio, tornando a punição um direito exclusivo de Deus, que está além do ego.
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O pecado é um acidente cósmico análogo ao próprio ego; o ser sem pecado é aquele que não possui ego e se move como o vento, livre de determinações substanciais.
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O ódio é uma usurpação do lugar de Deus e uma atribuição de absolutidade ao próprio “eu”, esquecendo que os indivíduos são apenas nós de uma mesma matéria enferma.
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O direito de punir delegado por Deus ao homem só pode ser exercido sem ódio, mantendo o instrumento humano acima da miséria do “eu” passional.
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“Levar a sua cruz” significa resistir ao movimento cego da deleitação, mantendo-se incorruptível no vazio aparente da Verdade, que funciona como o limiar de Deus.
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O sofrimento cristão é a reação do orgulho e da substância mundana ao fogo purificador da Verdade e da humildade.
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O fogo do purgatório é a queima do que em nós é “deste mundo”, uma dor causada não pela vontade punitiva divina, mas pela própria natureza do que deve ser transmutado.
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O centro da cruz é o mistério do abandono, o momento espiritual onde a alma perde sua identidade ilusória para ser integrada em uma abertura infinita operada por Deus.
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O grito de abandono de Cristo é uma abertura que torna o fardo humano leve, pois a vitória essencial já foi conquistada pelo Verbo.
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Cabe ao homem apenas abrir-se para essa vitória preexistente através do renascimento espiritual e da morte do orgulho.
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A Verdade, que no lógico é abstração, torna-se matéria concreta e transfigurada no Verbo feito carne, capaz de arrastar o homem existencialmente para fora das trevas do mundo.
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O encontro de Longinus com o sangue divino simboliza a destruição da casa de cristal das ilusões e o nascimento de uma embriaguez fria e pura.
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A matéria transfigurada do Cristo é luz que queima, transforma e entrega a alma ao plano da realidade absoluta.
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